sexta-feira, 19 de maio de 2017

Histórias controversas no Museu Casa de Benjamin Constant


Marcos Felipe de Brum Lopes

Estamos em obras, vocês sabem. Mas em plena Semana Nacional de Museus, não poderíamos deixar de fazer um pequeno registro. E nosso historiador, Marcos Lopes, mais uma vez nos brinda com um de seus ótimos textos sobre o tema da semana: acompanhe!


Cartaz da Semana de Museus deste ano


Em meio à 15ª Semana Nacional de Museus de 2017, que traz como tema os “Museus e Histórias controversas: dizer o indizível em museus”, ofereço o meu “pitaco” ao conjunto de reflexões que estão ocorrendo por aí.

Todas as famílias têm seus casos e suas casas. Se alguém se projeta para além da média dos mortais e sua casa vira museu, seus casos acabam se musealizando junto. Bem, os museus não são mais – na verdade nunca foram – aqueles lugares em que tudo cabe, tudo se mostra. Se na nossa genealogia os “gabinetes de curiosidades” figuram como locais onde se achavam muitas coisas justapostas e entrelaçadas, os museus sempre mostram e cobrem, lembram e olvidam, falam e calam. Não se pode expor tudo, muitas vezes, não se deve.

Tem coisas que a família de Benjamin Constant mostrou, outras cobriu. O Museu Casa de Benjamin Constant, como instituição, fez questão de lembrar vários aspectos históricos, deliberadamente olvidando outros mais. As esferas do patrimônio histórico nacional, como o IPHAN, falou, mas também calou. Nada de novo, como dizia uma professora dos meus tempos de graduação em História, “a vida é feita de escolhas”.

Estou agora me ocupando de uma pesquisa exatamente sobre as escolhas feitas pela família de Benjamin Constant, pelo Museu Casa de Benjamin Constant e pelo IPHAN, desde a fundação da República. Não é uma história cultural ou política da República, mas uma história daquilo que nós, como instituição e como gente que participa e decide, construímos e demolimos num museu que quer ter um lugar na cena nacional.

O primeiro passo foi apresentado no seminário “Uma agenda para a fotografia”, promovido pela ANPUH-RJ e LABHOI-UFF, que aconteceu no Museu Histórico Nacional em 2016. Naquela ocasião, o insólito título da minha fala foi “Migrantes e fantasmas: as imagens de Benjamin Constant” - veja post a respeito aqui - e busquei mostrar que, a despeito do pobre repertório de imagens que sobreviveu de Benjamin Constant, sua imagem heroicizada pelos positivistas migrou de suporte para suporte, de figura para figura, aparecendo, como aparição fantasmagórica, inclusive na exposição do museu.

A próxima tentativa de dizer um indizível será mais ambicioso, e quem puder me fazer a honra, compareça e ouça mais alguns palpites no XXIX Simpósio Nacional de História, da mesma ANPUH, que ocorre em Brasília em julho próximo, com o tema “Contra os preconceitos: história e democracia”. Segue abaixo um "tira-gosto":

"Após a morte de Benjamin Constant Botelho de Magalhães, em 1891, a memória de sua vida e a casa onde veio a falecer povoaram as discussões políticas da República que nascia. Por sua vida e morte, tanto os elementos abstratos que representava (civismo e regeneração) quanto a dimensão material de sua existência (sua casa) foram apropriados pelos viventes para a construção de um patrimônio nacional republicano. Nesse processo, podemos identificar o papel das imagens e a forma como elas foram instrumentalizadas para transformar uma residência oitocentista num museu histórico. A proposta é articular tipos variados de produções e efeitos visuais, desde a imagem mental, passando pela mítico-religiosa até as fotografias e as cores das fachadas, para delinear uma interpretação histórica do Museu Casa de Benjamin Constant.

Benjamin Constant Botelho de Magalhães, o próprio: o primeiro a dar referências
para a construção do espaço simbólico que é nosso museu casa.


Os dois personagens principais, Benjamin Constant Botelho de Magalhães, o Fundador da República, e Benjamin Constant de Magalhães Fraenkel, o neto, forneceram as primeiras referências para a construção do museu enquanto espaço simbólico. O primeiro, através da sua carreira intelectual e papel político na Proclamação da República, mas sobretudo pela imagem mítica que ganhou, postumamente, dos positivistas brasileiros. O segundo por suas sketches, desenhos, fotografias e descrições das memórias que tinha da “casa de vovô”, que serviram para recompor os ambientes físicos do prédio que virava museu, na década de 1970.


Mas o que isso tem a ver com esta Semana de Museus e os indizíveis da história? Bem, na década seguinte, a residência de Benjamin Constant passava por uma de suas obras de restauração (já havia sido restaurada e, em parte, demolida nos anos 1970). As referências sobre o que restaurar, o que retirar e que cores usar nas fachadas eram conflitantes e as discussões em torno delas apontam para os significados historicamente construídos da memória e da história, compartilhados e disputados pelos profissionais do patrimônio, como arquitetos e museólogos do IPHAN. Um desses profissionais, não sei se era positivista, certa vez disse: “o referido estudo [de cores] pautou-se sobre informações orais transmitidas pelo neto de Benjamin Constant (...); as informações orais não são consideradas fontes fidedignas e muito menos científicas, principalmente quando o registro data da infância, além de já termos constatado que os depoimentos do neto nem sempre correspondem à realidade comprovada”. (IPHAN, 6ª S.R., Informação nº 337/89)

Benjamin Constant de Magalhães Fraenkel, o neto, na foto, ainda criança: foi o segundo personagem
a prover, através de desenhos, fotografias, descrições e memórias, uma base sobre a qual se
recomporia os ambientes físicos do prédio que virou museu sobre a vida de seu avô.


Na medida em que os argumentos, de lado a lado, se apoiavam em boa medida em imagens e narrativas, no que se podia dizer com fidelidade, e o que era dito mas não era verdade, o processo é uma interessante plataforma de observação para uma cultura visual essencialmente histórica, pois indicam escolhas de indivíduos e instituições que, ao atribuírem historicidade aos objetos, modelam os espaços republicanos de vivência social e as dimensões, também visuais, da experiência cultural de visitar um museu nacional. No fim das contas, um museu comunica, bem ou mal. Mas é necessário vasculhar arquivos para descobrir os desditos."

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