quarta-feira, 22 de novembro de 2017

A Festa da Bandeira

Marcos Felipe de Brum Lopes

Em novo texto, nosso historiador, Marcos Lopes, nos explica os motivos pelos quais o culto à bandeira nacional em nosso país nunca foi algo simples ou fácil.

Você sabe por que comemoramos o dia da bandeira no dia 19 de novembro? Não? Há duas razões: a primeira é que foi em 19 de novembro de 1889, 4 dias depois da proclamação da República, que nossa bandeira foi oficializada pelo Decreto nº 4. A flâmula foi recriada a partir da bandeira do Império, desenhada por Jean Baptiste-Debret. Com a mudança do regime de governo em 1889, coube ao artista Décio Villares retraçar a bandeira sob a orientação do positivista Raymundo Teixeira Mendes. Foram aproveitados da antiga bandeira o retângulo verde e o losango amarelo, e foi substituída a esfera com as armas do Império, que deu lugar à esfera celeste representando a posição das estrelas na exata hora da proclamação da República. Para saber a posição das estrelas (a proclamação se deu pela manhã, quando não se podia ver os astros no céu), um astrônomo foi consultado. Surgia assim, de escolhas controversas e por técnicas ao mesmo tempo científicas e curiosas, a bandeira republicana.

"A Força Policial passando em frente ao palacio do Cattete e á Escola Rodrigues Alves,
no dia da festa da bandeira"
"O Malho". 20 de novembro de 1908. Acervo da Biblioteca Nacional
Fonte: http://memoria.bn.br/docreader/DocReader.aspx?bib=116300&pagfis=12624&pesq=festa%20da%20bandeira
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A segunda razão é menos conhecida. O fato é que as celebrações em torno da bandeira começaram apenas 19 anos depois da criação do símbolo, em 1908, por iniciativa de alguns políticos e pensadores. Entre eles há um que é considerado o mentor da celebração. Manoel Tavares da Costa Miranda nasceu em Canguaretama, Rio Grande do Norte, em 1873. Positivista, militar e muito próximo da família de Benjamin Constant, fez carreira no serviço público, defendeu a república contra os movimentos de restauração da monarquia e atuou significativamente na construção do culto aos símbolos nacionais, sendo considerado o criador do Dia da Bandeira, à época chamado de "Festa da Bandeira".

O pavilhão nacional nasceu em meio a polêmicas e ataques públicos aos seus idealizadores, os positivistas. Tantas foram as críticas e mesmo piadas que circulavam na imprensa e no boca a boca carioca, que Teixeira Mendes, mentor ideológico do novo desenho da bandeira, se viu obrigado a publicar um artigo para se defender. Baseado nas ideias de Augusto Comte, criador do positivismo, buscava de uma vez por todas consolidar publicamente a bandeira da pátria.

"Na festa da bandeira: o povo e o batalhão do Instituto Profissional, em frente a Prefeitura,
por ocasião da sessão cívica alli realisada
"
"O Malho" 20 de novembro de 1908. Acervo da Biblioteca Nacional
Fonte: http://memoria.bn.br/docreader/DocReader.aspx?bib=116300&pagfis=12624&pesq=festa%20da%20bandeira
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Dezenove anos depois, em 1908, quando começaram as festividades em homenagem à bandeira no Rio de Janeiro, os símbolos ainda estavam por firmar-se. Ao que parece, a Festa da Bandeira não surgiu para comemorar um símbolo amado, mas sim para ensinar a amá-lo. Em seu esforço, os positivistas de então chegaram a formar uma "Comissão Glorificadora do Natalício da Bandeira da República" e a imprensa registrou a participação popular nos festejos.

Assim, o evento de 1908 tinha o objetivo público de uniformizar o culto à bandeira, instituindo um horário para que o símbolo fosse hasteado em vários locais da cidade com participação de alunos, professores, militares e população das ruas cariocas. As escolas receberam circular do diretor da Instrução Pública, Leôncio Correia, com orientações sobre como proceder com as homenagens. As professoras que aderiram aos festejos leram sonetos em saudação à bandeira e mobilizaram os alunos, que entoaram os hinos nacional e à bandeira.

Nessa altura, o Diário Oficial registra ordens para que navios e fortalezas dessem salvas de tiros e para que vários setores das Forças Armadas cultuassem a bandeira ao meio-dia. Sessões solenes no Senado e na câmara do comércio também cultuaram o símbolo. O tom das matérias valoriza a adesão popular aos eventos. O "Correio da Manhã" relata, em 20 de novembro de 1908, que “não só nos estabelecimentos oficiais foi prestada homenagem ao símbolo da Pátria. Também os particulares arvoraram a bandeira, rendendo-lhe culto de amor cívico. O Povo associou-se de coração ao júbilo do dia e, em muitas ruas, à noite, vimos fachadas brilhantemente iluminadas”. De acordo com a imprensa, tudo seguia como desejavam os líderes do movimento. Bem, nem tudo.

Desde as manifestações de 2013 o pavilhão nacional também vem aparecendo como
um símbolo máximo de união de nosso povo.
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O jornal "O Suburbio" registra: “pena é que em todas as escolas municipais não se prestasse essa reverência como determinou o dedicado e ilustre diretor de instrução. Sabemos que algumas escolas em diferentes zonas que, além de não terem mastros nem bandeiras, as professoras não ligaram importância às ordens emanadas pela diretoria de instrução, o que assinalamos aqui para que tal abuso não continue em outras comemorações”.

Se passaram muitas décadas e, ainda hoje, a bandeira não é unânime. Por outro lado, sugestões de mudança do pavilhão geram protestos e discussões. É o caso do “amor”: entra ou não entra para fazer companhia ao “Ordem e Progresso’”? Essa é uma discussão que já abordamos aqui. A intenção dos positivistas da época era cultivar o afeto ao símbolo como legitimador de um projeto republicano. Mas a ideia de uma República que congregasse harmonicamente interesses se mostrou ilusória e o símbolo se associou a processos e vontades tão distintos ao longo da história, que pode ser reivindicado por grupos políticos diferentes e ao mesmo tempo ser rejeitado por muita gente.

Na época das Copas do Mundo ou de qualquer outra competição internacional
da seleção brasileira de futebol, a bandeira nacional surge como símbolo
máximo da nação unida em torno de um objetivo: vencer!
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Há pelo menos duas ocasiões típicas do Brasil em que a bandeira nacional é mobilizada. Uma é o futebol. Talvez seja a experiência sociocultural mais agregadora que ainda temos, no que toca o uso do verde-amarelo. A outra é o conjunto das manifestações populares nas ruas, que se multiplicaram desde 2013. Não se pode dizer que são (quase) unânimes, como o é um jogo da seleção canarinha. Basta alguém levantar uma outra bandeira nas ruas, que não seja a nacional e tenha cores diferentes do verde-amarelo, para sofrer sanções e mesmo violências. É no mínimo curioso o fato de que o Dia da Bandeira, que começou em 1908 como festa, não esteja na lista das ocasiões que mais mobilizam em massa a própria bandeira. O que teria ocorrido com o projeto de nação encampado pelos positivistas? Quem está hoje interessado em cobrir o país novamente com um manto apenas, adicionando o “amor” ao “ordem e progresso”? São perguntas que todos devemos fazer.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Para onde vai a República?


A figura da República numa medalha comemorativa do 15 de novembro produzida em memória de
Benjamin Constant após sua morte, em 1891.

Com 128 anos de idade, a República brasileira é uma jovem americana. Em comparação com os outros países das Américas, o Brasil foi tardio na transformação do regime de governo, tendo acabado com a monarquia e proclamado a República em 15 de novembro de 1889 (cem anos depois da posse de George Washington, o primeiro presidente eleito na República dos Estados Unidos da América).

Mesmo com Repúblicas de várias idades mundo afora, velhas, maduras e novas, já perceberam que sua figura é sempre jovial? A República é uma mulher que frequenta a iconografia de muitos países, desde a pintura histórica até as medalhas e as moedas correntes nas economias. No Brasil, a República nos olha de todos os lados e se confunde com a representação feminina da Pátria. Em janeiro de 1891, antes mesmo de completar 2 anos de idade, já se pensava numa casa para ela.

No final do século XIX, as elites lutavam entre si pelo poder político e econômico, por outro, se esforçavam para ganhar os corações e as almas dos súditos antigos do imperador que, no 15 de novembro, se tornaram cidadãos da República. Nesse contexto, Benjamin Constant apareceu como um dos articuladores não só dos eventos que culminaram na proclamação, mas também das decisões que comporiam o imaginário da República, como a bandeira nacional, por exemplo.

Dois dias depois do seu falecimento em 22 de janeiro de 1891, Benjamin recebeu o título de Fundador da República, outorgado pelo Congresso Nacional e também registrado nas Disposições Transitórias da Constituição de 1891, a primeira da era republicana. Sua entronização no panteão de heróis nacionais lançou a primeira pedra no pavimento do caminho que sua última residência percorreria:

“O Governo federal adquirirá para a Nação a casa em que faleceu o Doutor Benjamin Constant Botelho de Magalhães e nela mandará colocar uma lápide em homenagem à memória do grande patriota - o fundador da República”. (Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, Disposições Transitórias, Artigo 8º, 24 de fevereiro de 1891)

O trecho é precedido pela oferta do governo de uma pensão vitalícia a D. Pedro II que, “a contar de 15 de novembro de 1889, garanta-lhe, por todo o tempo de sua vida, subsistência decente”. Ao mesmo tempo em que lembra o último imperador, faz surgir a figura do fundador do regime que pôs fim ao Império.

O movimento de memória impulsionado pela elite política de então tem no projeto de Demétrio Ribeiro um bom exemplo. Submetido ao Congresso Nacional, propunha a transformação da casa de Benjamin Constant em um museu. Como o prédio fora deixado em usufruto da viúva, Maria Joaquina, situação aliás também garantida pela Carta de 1891, Demétrio Ribeiro sugeria que, após a morte de Maria Joaquina, fosse a casa “convertida em um museu de documentos de toda a sorte relativos à vida e feitos do ínclito cidadão”.

Alegoria da Pátria, que pertenceu a família de Benjamin Constant
e figurou na Exposição Universal de Paris, em 1900.

Estavam em jogo fatores decisivos para a formação da memória do regime, seja ela ancorada em lugares ou mesmo em pessoas. No caso de Benjamin Constant, ocorreram as duas coisas: foi vinculado ao patriotismo (“... grande patriota”), à cidadania (“... ínclito cidadão”) e à trajetória dos verdadeiros heróis (“... vida e feitos”); o ambiente em que vivia e veio a falecer, sua residência de pedra e cal, ultrapassaria a função de casa, doravante ocupando uma dimensão imaginária.

Quem conhece de perto a nossa história, lembrará que a casa de Benjamin abriu as portas como museu público em 1982. Entre a proposta de Demétrio Ribeiro e a vida efetivamente institucional do museu muita coisa aconteceu por aqui. Obras, remodelações, preservação de documentos pela família e, sobretudo, por Maria Joaquina, viúva do Fundador da República. Várias peças e documentos apontam para o cultivo familiar e público da memória de Benjamin e para o horizonte museológico que a Constituição de 1891 ajudou a promover. É por isso que somos “a primeira casa da República”. Foi para essa casa que Benjamin decidiu se mudar após a proclamação, e foi para ela que seus herdeiros políticos encaminharam a memória do regime.

Alfinete de gravata com o barrete frígio, símbolo histórico da República,
que pertenceu a Pery Constant Bevilaqua, neto de Benjamin Constant.


Mas, seja uma jovem mulher, seja um tipo de governo, seja uma figura para ser adorada ou mesmo uma metáfora para a coletividade dos cidadãos, para onde vai a República em nossos dias? Certa vez, durante o pouco tempo de vida que teve depois do 15 de novembro, Benjamin afirmou que “o engrandecimento da República repousa essencialmente sobre a educação”. Ao longo dos curtos 128 anos, quantas promessas feitas no alvorecer do regime se cumpriram e quantas ficaram pelo caminho mal pavimentado? Devemos abordar a República menos como mito e mais como questão, todos precisamos de um encontro face a face com a jovem para fazer essas perguntas e buscar respostas.

Estamos na semana da República: dia 19 será comemorado o dia da bandeira, outra efeméride republicana com uma narrativa instigante. Acompanhe nosso blog para o próximo capítulo da história.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Documentos de um museu retornando para casa

Por ocasião da 11ª Primavera de Museus - ocorrida de 18 a 24 de setembro último, cujo tema foi "Museus e suas memórias" - elaboramos um pequeno texto sobre um novo Fundo Arquivístico que vem se integrar a nosso Arquivo Histórico configurando uma novidade em nosso museu. Leia abaixo o texto na íntegra, conforme foi produzido pelo setor de história, que coordena todo o processo.

Não há substitutos para os documentos: sem documentos, sem história”. Essa frase do século retrasado é uma das mais conhecidas dos historiadores. Está registrada no manual para os praticantes de história, escrito por Charles Langlois e Charles Seignobos. Ela contém uma afirmação reconhecidamente verdadeira e merecidamente criticada.

Hoje podemos concordar que a história não está nos documentos, pronta para ser narrada por nós. Mas continuamos a depender deles, queremos complementar coleções antigas, descobrir documentos novos, e até produzir documentos para responder aos nossos questionamentos. Aqui no museu, um museu casa, uma casa histórica, trabalhamos diariamente com a história de um museu de história. Estamos cercados por documentos.

Nem todos

Os museus que hoje compõem a estrutura do Instituto Brasileiro de Museus - IBRAM - MinC, estiveram, por muitos anos, sob o cuidado do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN, igualmente uma autarquia subordinada ao Ministério da Cultura - MinC. A migração dos museus para um instituto independente e autônomo correu em 2009, data da criação do IBRAM. A proximidade histórica entre os museus e o IPHAN deixou muitos rastros documentais, preservados nos arquivos do instituto que cuida do patrimônio nacional. Uma das consequências da criação de um instituto autônomo como o IBRAM foi o afastamento de alguns museus da documentação referente à sua própria vida institucional.

Com o objetivo de reunir esses documentos, o Museu Casa de Benjamin Constant conduziu uma extensa pesquisa nos acervos do IPHAN e, mediante autorização, produziu cópias fotográficas da documentação. A ação contemplou as diversas tipologias de documentos e procurou contornar a distância entre o museu e sua vida institucional pré-2009, facilitando o acesso e a recuperação da informação.

Planta do Museu Casa de Benjamin Constant, referente a uma das
intervenções de restauro na casa. 1989. Arquivo da 6ª S.R.
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Mobilizamos o setor de pesquisa e os estagiários, que saíram em missão para localizar e fotografar o material no Arquivo Central do IPHAN e no arquivo da 6ª S.R., ambos no Rio de Janeiro. Os dois arquivos nos receberam muito bem. Murilo Haither, estudante de história da UFRJ, foi um dos que participaram da iniciativa. “Trabalhar com esse material produziu mais que um enriquecimento à prática da profissão de historiador”, afirma o estudante. “Observar os ofícios de servidores lidando com os problemas cotidianos na tentativa de proporcionar as melhores condições para o funcionamento do museu, manutenção do espaço e do acervo, criação de redes de cooperação institucional, dentre outras ações, ampliou significativamente as minhas noções sobre a dinâmica da vida institucional: as engrenagens do Museu Casa de Benjamin Constant e do IPHAN não funcionavam sozinhas. E seus operadores têm nomes”, registra Murilo.

Nosso historiador, Marcos Lopes, também afirma que “o cotidiano de pesquisa se baseia num relacionamento apaixonado com documentos. Mas não nego que trabalhar internamente na formação e organização de coleções é vagaroso e requer paciência”. A recompensa, por outro lado, é grande: “não estamos servindo somente ao museu ou ao IBRAM. Estamos servindo ao público, acadêmico e não acadêmico. É a função mesma do intelectual servidor público”, completa.

Nosso museu já conta com cinco fundos arquivísticos que contemplam a documentação doada pela família de Benjamin Constant, ao longo do século XX. Nosso projeto atual é aumentar esse número. O “Fundo MCBC” está sendo criado e deverá congregar, num inventário, os documentos sobre nossa história institucional que permanecem sob a salvaguarda dos arquivos físicos do IPHAN, juntamente com outros que estão depositados aqui.

Vista da chácara da família de Benjamin Constant e Plano Inclinado
de Santa Teresa. Circa. 1900. Arquivo Central do IPHAN.
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 Mesmo antes da organização completa dos documentos, já colhemos alguns frutos. O primeiro foi a recuperação de informação visual sobre as obras de restauro da casa histórica, ao longo do século passado. Esses dados serviram de referência para as intervenções realizadas atualmente, já que estamos com uma obra de restauro completo em andamento. Para a museóloga e restauradora Ana Paula Vasconcelos, os documentos recolhidos pelo museu na pesquisa do arquivo do IPHAN “possibilitaram uma melhor identificação e análise dos itens que seriam submetidos ao restauro”.

Alguns documentos também foram o ponto forte do trabalho apresentado no último congresso da ANPUH - Associação Nacional de História, em Brasília, por nosso historiador. “Minha intenção foi registrar e comparar as opiniões dos técnicos do IPHAN sobre intervenções em bens tombados. Encontrei interessantes rastros disso na documentação sobre nosso museu, preservada pelo IPHAN”, confirma o profissional.

Nossa diretora, Elaine Carrilho, afirma que “a criação do Fundo MCBC vai contribuir para a preservação da memória institucional e permitir o tratamento arquivístico adequado da documentação em dossiês temáticos a serem disponibilizados aos pesquisadores”.

Talvez seja um exagero dizer que os documentos estão "retornando para casa". Os originais permanecem no IPHAN e fazem parte da história institucional daquele órgão. Mas não podemos deixar de pensar que eles estão, de alguma maneira, visitando o museu e achando um novo lar. Afinal, somos um museu casa.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

35 anos de Museu


A casa que serviu de moradia ao Fundador da República por pouco mais de um ano e foi ocupada pela família até 1960, abria suas portas ao público há exatos 35 anos com a missão de preservar a memória de seu ilustre morador e os hábitos de vida de uma típica família do século XIX que habitava uma casa de chácara no bairro de Santa Teresa.

O imóvel, tombado pelo Patrimônio Histórico em 1958, hoje passa por uma restauração iniciada em janeiro deste ano, que recupera telhado, fachadas, paredes internas, pisos, portas e janelas, de modo a trazer de volta o viço daqueles tempos que não devem ser esquecidos. É importante marco em plano de ação de preservação do patrimônio arquitetônico da cidade e mesmo da república brasileira.

Hoje comemoramos mais um aniversário “arrumando a casa” de Benjamin Constant e esperamos em breve estarmos de portas abertas contando e recontando a história de nossa república, em momento em que a memória de seus feitos anda tão necessária às novas gerações.

Elaine Carrilho
Diretora

18 de Outubro de 2017

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Novidade no acervo: um óleo de Décio Villares

O quadro de Décio Villares obtido em leilão.

Escultor e caricaturista, o pintor Décio Villares, viveu entre 1851 e 1931. Foi contemporâneo de nosso patrono, Benjamin Constant, e por isso também foi seu amigo e retratista, já que também compartilhou a Filosofia Positivista desde que viveu em Paris, na década de 1870. Após a instauração do novo Regime Republicano, coube a ele também executar o desenho da nova bandeira nacional, nela imprimindo o lema de origem positivista "Ordem e Progresso" e a constelação do Cruzeiro do Sul. Só por isso já deveria ser sempre lembrado em nosso país, coisa que de fato, não acontece. Em termos artísticos, apesar de ter sido prolífico em sua época - tendo inclusive executado monumentos públicos para várias cidades brasileiras. Atualmente sua produção artística é rara, causada também, em parte, pelo incêndio em seu ateliê logo após sua morte, atribuído à sua viúva.

Nossa diretora Elaine Carrilho e Luis Antonio Santos, diretor substituto, com a peça
e o número de arremate durante o evento.

Em nosso acervo já existem algumas obras de Villares. Foi então que tomamos conhecimento que um pequeno quadro de sua autoria seria leiloado aqui em nossa cidade. Ainda mais sabendo do tema: um retrato de Benjamin Constant. Segundo nosso historiador, Marcos Lopes, o quadro seria de interesse para compor nosso acervo sim, e explica por que: "o pequeno óleo de Décio Villares complementa uma série de imagens produzidas no âmbito do positivismo republicano do final do século XIX. É um tema que tem ocupado minhas pesquisas atualmente, na linha de história e cultura visual. Fico feliz por ter participado da aquisição desse documento para a coleção museológica do Museu Casa de Benjamin Constant”, completa. Desde então, um esforço entre equipes do museu no Rio e da Presidência do IBRAM, a fim de viabilizar a aquisição do pequeno óleo, consultando procedimentos administrativos internos que deveriam ser cumpridos.

À esquerda, o historiador de nosso museu, Marcos Lopes, para quem o pequeno óleo
documenta o processo de construção da imagem de Benjamin como herói e fundador da República.


Nosso diretor substituto, Luis Antonio Santos, esteve presente no leilão promovido pelo Escritório de Artes Soraia Cals ocorrido em 24 de julho e, não havendo lances para o lote 88, arrematou a peça. Agora já estamos com o quadro em nossa guarda. E como nosso museu está fechado por estar passando por obras de restauração, ele permanecerá guardado e acondicionado junto aos demais itens do acervo até nossa reabertura. Um fato importante que não deve ser esquecido, segundo nossa diretora, Elaine Carrilho, é que um marco foi criado para o museu e para o IBRAM, pois "é a primeira vez que uma obra de arte é arrematada em leilão no exercício do direito previsto no Art. 20 do Decreto 8.124 de 2015 que regulamentou o Estatuto de Museus, e concede o 'Direito de Preferência' às instituições que integram o Sistema Brasileiro de Museus, em caso de venda judicial ou leilão de bens culturais". Em resumo, um momento memorável para os museus do país.

sábado, 24 de junho de 2017

Um Ano Novo em Teresópolis

Maria Joaquina e Benjamin Constant em 1874.

Em nosso acervo documental encontramos muitas cartas da família Botelho de Magalhães. Muitas delas são um primor de formosura para esses tempos tão fugidios de recados corridos em celulares, com "códigos" que nem mesmo compreendemos corretamente. Encontramos estas duas singelas cartas redigida por Maria Joaquina, esposa de Benjamin Constant, para sua irmã Olympia, a quem chama “Mamãe”. Ma. Joaquina e B. Constant passaram o Ano Novo de 1877 para 1878 em Teresópolis. A segunda carta está incompleta.

Carta 1:

"Theresopolis 28 de dezembro de 1877

Mamãe

Recebemos hoje uma carta sua, ficámos muito satisfeitos por saber que todos vão bem, e que não ha novidade.

Chegamos á Theresopolis no mesmo dia em que sahimos, ás 9 horas da noite; fizemos bem a viagem, pois de Piedade á Barreira, que é o peior [sic] pedaço por causa da poeira, choveo; de maneira que abrandou o calor e o pó; assim mesmo aprecihámos sol, chuvisco e sereno; eu não senti nada; mas o Benjamin teve seu ameaço de intermitentes, e dôr rheumatica nos jóelhos; tem andado mais adoentado; assim mesmo temos sahido á passear, porem só demanhã cedo pois aqui tambem tem feito bastante calor; faço ideia o que terá feito lá embaixo. A viagem é bastante incômoda; o Sr Guimarães fez bem em resolver hir para Sa Thereza, pois elle não resistia á viagem; só o que acho é que vai-lhes sahir muito cara á estada lá á 6$000; porem pódem tomar o comodo mobiliado, e sustentarem-se sem mandar vir do hotel.

Tenho tido saudades das crianças; elles é que havião de apreciar muito isto; estou porem descançada pois sei que não podiam ficar em melhor guarda e mais bem acompanhados.

É bonito Theresopolis, isto é vê-se campo e matto, mas como não está muito habitado tem-se liberdade; o que ainda não vi foi frutas; só há uvas e figos que estão verdes; o Benjamin andou querendo que eu tomasse caldo de cana, mas não foi possível arranjar, não se vê uma chacrinha bem plantada; mesmo o leite não é grande cousa.

Adeus Mamãe, muitas lembranças á Alcida Niniha, D. Marcellina á quem muito agradeço o interesse que (?), á todos de casa, Luiza, Irmelinda (?). Um beijo em cada uma das 6 crianças, e que se conduzão bem; Benjamin e Bernardina que não trepem nas janellas, Alcida, Adozinda e Aldina que não briguem. O Benjamin tambem manda muitas lembranças á todos e benção ás crianças. Adeus Mamãe.

D’esta sua imrã e amiga,

Maria Joaquina da Costa Botelho de Magalhães"

Serra dos Órgãos: Vista do Pico Dedo de Deus
Foto de George Leuzinger de 1865 a 1874
 
Carta 2:

"30 de dezembro

Por falta de correio, não foi esta no dia 28; pensei que havia de 2 em 2 dias, quando só ha nas segundas, quartas e sextas; e tendo eu feito a carta a tarde, já não chegou á tempo; e assim só amanhã é que hirá.

Acabo de receber outra carta sua, e juntamente uma de D. Marcellina.

Estimei muito ter notícias de casa e de todos; e saber que as crianças tem-se conduzido bem. Aqui tem feito bastante calor durante o dia; porem as manhãs e noites são frias; faço ideia que lá estará torrando; o Benjamin não tem passado muito bem; tem andado com o ventre preso e dores de cabeça. Pretendemos voltar, isto é sahir d’aqui do hotel no dia 3 de madrugada, mas o Benjamin está com ideia de hir por Petropolis, para evitar a passagem em Magé e Piedade por serem lugares muito doentios; e mesmo a viagem muito incômoda.

Elle pretende sahir de madrugada e hir almoçar na fazenda do Paquequer onde está o Napoleão conhecido d’elle, e que o mandou convidar; são 3 léguas; regula 3 horas de viagem; lá descansaremos, e seguiremos ou de [...]"

#TravelsMW #MuseumWeek

Benjamin Fraenkel: um neto viajado


Ao iniciar a montagem de nosso Museu Casa, a museóloga Hercília Viana contou com o auxílio de alguns conhecedores da casa como era no tempo de Benjamin Constant. Um deles foi seu neto, Benjamin Constant Fraenkel, nascido no ano em que falecera seu avô, 1891. Filho de Aldina e do alemão Karl Fraenkel, Benjamin Fraenkel fez seu relato em 1975, já com 84 anos, mas foi pleno em suas memórias. Neste pequeno trecho, conta por onde andou até voltar a residir no Rio de Janeiro, em casa de seu avô materno, ainda com sua avó viva, Maria Joaquina. Vejam que maravilha:

Ainda um bebê, Benjamin Fraenkel viaja para Berlim.


Com nove meses de idade fui para Berlim (1891), para onde meu pai havia sido nomeado Cônsul. De Berlim, lembro-me da casa em que moramos, do Jardim de Infância que frequentei e dos passeios que fazíamos à floresta, acompanhados das professoras entoando os alegres cânticos escolares alemães.

Uma das fases infantis ele passa em Estocolmo, na Suécia.

Meu Pai sendo transferido para Estocolmo (1897), ainda frequentei aí o Jardim de Infância e, lembro-me bastante do que lá passei. Mais crescido já, ouvia sempre com muito interesse a minha querida Mãe, falando em português, como sempre em casa se falou, relembrar (do)ndo, com carinho, a Família distante e os fatos passados, despertando em mim o desejo imenso de conhecer minha Terra.

Chega ao Brasil de volta passando por Salvador, na Bahia, e relata sua visão de frutas tropicais.
Transferido o meu Pai para o Salto, ia a Família, de passagem, passar uns dias no Brasil. Já em Salvador (1899), o aspecto da terra era tão diferente! Foi em Salvador que eu fui ver, pela primeira vez o abacaxi, a banana, a quantidade de pretos que eu nunca tinha visto.

A alegria era tanta, era tão grande, que compensava a tristeza de ter deixado meus dois irmãos mais velhos, Cláudio e Walter, na Alemanha fazendo o curso ginasial. Mas, faltavam ainda alguns dias para chegarmos ao Rio de Janeiro; para (e)constatarmos tudo o que a nossa boa Mãe dizia.

De volta ao Rio de Janeiro, sua cidade natal que ainda não conhecia, com aproximadamente 10 anos
de idade, surpreende-se com tanta gente e com o Plano Inclinado!
 Chegamos, enfim, ao querido Rio (1900). Ainda não havia o cais. O navio ficava ao longe e uma grande quantidade de barcos, com gente que vinha esperar os parentes e amigos, outros, com frutas para vender aos passantes, lanchas, todos fazendo um barulho tão grande, um falatório todo em português, que eu não me lembrar quem é que foi ao nosso desembarque e como cheguei ao Plano Inclinado! (...)”

O primeiro cais do Rio foi construído em 1910, quando Fraenkel já completava 19 anos. Portanto calculamos de forma muito aproximada, os anos em que ele passara pelas cidades citadas (entre parêntesis em sua carta).

#TravelsMW #MuseumWeek

quinta-feira, 22 de junho de 2017

A história de uma 'Super Woman' - ou de uma grande mulher!


No ano passado na #MuseumWeek houve um dia destinado às pessoas importantes nos museus e tivemos o prazer e a honra de destacar nosso colega Luis Antonio que muito nos ajuda no dia a dia aqui no trabalho. Mas há muitos mais que fazem muito por aqui e o pensado por esta organização neste ano era homenagear uma outra pessoa tão importante quanto ele – que, por acaso do destino, é de fato, sua esposa. Trata-se de Mercia Correia Freire, nossa Restauradora e Conservadora, que parece que encontrou sua alma gêmea aqui mesmo no museu: ela é pessoa especialíssima, também sempre pronta a ajudar quem quer que necessite, seja no trabalho, seja na vida pessoal, a todo instante.

Mas os temas do evento mudaram neste ano e pensamos como faríamos a homenagem. E parece que a #MuseumWeek pensou direitinho como nós e dedicou não apenas um dia mas toda a semana a elas, as mulheres que fazem muito pelos museus e pelo mundo todo. E percebemos que, realmente, nossa colega Mercia é uma mulher que merece toda essa deferência: amiga, atuante, presente, sem deixar a ternura, o carinho e o amor ao próximo de lado. Ela está sempre junto de quem precisa, não tolera injustiças e procura ser profissional sempre, mas humana acima de tudo.

Condecorada na renovação do Arquivo Histórico e Biblioteca em 2014.


Sua história profissional em nosso museu começa bem cedo: veio estagiar aqui muito jovem - com apenas 15 anos - e apenas dois anos após a abertura do museu, em 1984, pelo projeto “Patrulheirismo para Atendimento ao Público” e logo ficou na linha de frente da recepção aos visitantes, se saindo muito bem, já que é muito simpática. Contratada pela Fundação Pró-Memória em 1987, desenvolve um lado todo seu, de cuidados com o Museu Casa, participando na prática das ações na área de conservação e, aos poucos, foi se aperfeiçoando. Hoje responde por todas as rotinas de conservação tanto das peças de nosso Acervo Museológico quanto do Acervo Documental e Bibliográfico, além dos dois prédios que compõem o museu – a Casa Histórica e a Casa de Bernardina. Nada escapa da profissional que conhece como ninguém todos os cantinhos, detalhes e materiais das casas, móveis, objetos, indumentária e outros itens, e sabe muito bem ensinar e instruir a sua equipe de apoio como o serviço deve ser bem feito e bem mantido.

Além disso tem cursos em restauração em papel, auxilia nos contratos administrativos que tenham a ver diretamente com seu trabalho e também apoia ações educativas no museu. Ufa, mas é uma ‘Super Woman' não é?

Em seu aniversário comemorado no mesmo mês da diretora Elaine Carrilho
e de nosso colaborador Josivaldo Araújo.


É sim. Para que vocês saibam ainda mais, Mercia não ficou satisfeita com tudo que viu e aprendeu por aqui, com as funções de mãe, dona de casa, esposa e avó que já é, e que curte muito sê-lo. No ano passado concluiu muito feliz sua graduação em Pedagogia e promete que ainda tem muito para fazer! Ninguém duvida de “Dona” Mercia: ela não pára por qualquer coisinha e está sempre animada com a vida. É por mulheres como ela que o mundo vai para a frente sempre, temos certeza. E também é por existirem pessoas como ela em nossos museus que eles avançam com toda sua simplicidade e beleza. Uma salva de palmas a quem, de verdade, faz!

#StoriesMW #WomenMW #MuseumWeek

quarta-feira, 21 de junho de 2017

As filhas de Benjamin Constant

Filho, filhas e viúva e Benjamin Constant
De pé, da esquerda para a direita: Benjamin Constant Filho - aqui com 21 anos - Alcida e Bernardina
Sentadas: Aldina, Aracy, Maria Joaquina e Adozinda. Foto de 1 de fevereiro de 1892
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6 de outubro (domingo)
Mamãe, Alcida e eu fomos jantar com Aldina; papai também foi, 
porém foi primeiro visitar o João e achou-o melhor. A Clara 
também foi à casa de Aldina, para visitar Araci. Meu padrinho
também jantou lá.(...)

Excerto de "O Diário de Bernardina", pequena publicação organizada
por Celso Castro e Renato Lemos, com base no diário de Bernardina
Botelho de Magalhães, filha de Benjamin Constant.

São com descrições de um dia a dia de família assim que “O diário de Bernardina”, pequeno livro compilado a partir do diário da quarta filha de Benjamin Constant, nos cativa para um mundo muito diferente do nosso, em fins do século XIX, quando nosso patrono vivia com suas filhas e filhos no centro do Rio de Janeiro de então. Professor de matemática de vários colégios e militar de carreira, Constant estava bem no meio do processo da Proclamação da República mas sua família vivia o cotidiano comum às famílias da época. Suas filhas levavam vidas de moças educadas para casar, próprio daquela época, e observavam os acontecimentos. Uma diferença as distinguia das demais, além do fato de serem filhas do futuro "Fundador da República": todas sabiam ler e escrever, exigência do pai, o que não era comum a todas as moças da época, mesmo as de classe mais alta.

O casal Botelho de Magalhães teve cinco moças e três rapazes. Infelizmente nenhum dos meninos sobreviveu. Mas elas sim, foram a real descendência de nosso patrono. Vejam alguns poucos detalhes a respeito de cada uma delas:

Aldina Constant Botelho de Magalhães (na foto, a de nº 5), a primeira, nascida em 1864, casou-se com o alemão Karl Fraenkel, teve cinco filhos, e veio a falecer em 1938;

Adozinda Constant Botelho de Magalhães (na foto, a com o nº 2), nascida em 1866, casou-se com Alvaro Joaquim de Oliveira, com quem teve nove filhos, e faleceu em 1942;

Alcida Constant Botelho de Magalhães (na foto, a de nº 4), nascida em 1869, casou-se com José Bevilaqua, com quem teve 11 filhos. Bevilaqua foi um dos principais responsáveis pela família após a morte de Benjamin Constant. O casal ficou na casa da família e cuidou da matriarca, Maria Joaquina, até seu falecimento, em 1921. Um dos  netos é avô do Gal. Pery Constant Bevilaqua, figura da maior importância na família na década de 1960. Alcida faleceu em 1957;

Bernardina Constant Botelho de Magalhães (na foto, a nº 3), nascida em 15 de abril de 1873, casou-se com João Albuquerque de Serejo, com quem teve 10 filhos. Autora do um diário que citamos acima, onde registrou o dia a dia de sua família e também durante o período da Proclamação, o que o torna um documento histórico importante. É das figuras mais conhecidas da família por isto mesmo. Construiu uma casa ao lado da casa da família que se chama “Casa de Bernardina”, hoje sede de nosso museu. Falecida em 1928, apenas 7 anos após sua mãe, Maria Joaquina;

Aracy Constant Botelho de Magalhães (na foto, a nº 1), nascida em 1882, perdeu seu pai com apenas 9 anos. Não se casou, portanto não teve filhos. Residiu na casa da família desde seu nascimento até sua morte em 1961, contando com 79 anos. Após seu falecimento, seu sobrinho neto, o Gal. Pery, solicita ao SPHAN o retorno do terreno e das casas para a União com vistas à transformação no futuro Museu Casa de Benjamin Constant.

Seus irmãos, que não sobreviveram, tiveram as seguintes breves biografias:

Leopoldo H. de Magalhães, primeiro filho homem que nasce em 1870, logo depois de Alcida, falece no ano seguinte.

Benjamin Constant Filho, nasce em 1871, tem uma vida curta e um tanto conturbada, falece em 1901, aos 30 anos, sem se casar nem deixar herdeiros, em circunstâncias não esclarecidas. É o que aparece na foto acima com as irmãs.

Claudio Botelho de Magalhães , nasce em 1875, antes de Aracy, mas igualmente não resiste às doenças infantis da época e falece logo em 1878.

Ainda precisamos de muita pesquisa (e muitos pesquisadores...) para esquadrinhar todo o universo de fotos, cartas e documentos guardados em nossos acervos histórico, fotográfico e também museológico para percebermos o tanto que essas meninas, moças e mulheres têm a nos dizer com o legado de pequeninos trabalhos em costura, bordado e muitos escritos. As partituras de suas valsinhas, polcas e outras músicas para piano e violino, seus bilhetes, mesmo os corriqueiros, seus comentários, suas brincadeiras e risadas que ainda hoje estão por aqui, guardadas em tantos guardados. A força de mulheres que construíram a história de uma família que é particular, mas que também é de muitos. Exemplo para os seus, e para todo um povo.

Leia neste post sobre "O Diário de Bernardina"

#WomenMW #MuseumWeek

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Uma história do Museu Casa de... Maria Joaquina

Maria Joaquina da Costa Botelho de Magalhães: esposa, mãe, "matrona",
dona de casa e até "primeira museóloga" de Benjamin Constant

Não, não se trata de uma campanha pela mudança do nome do nosso museu. Porém, na #MuseumWeek 2017, é uma justa homenagem que fazemos a ela, Maria Joaquina da Costa Botelho de Magalhães. Os dois últimos sobrenomes ela adquiriu quando se casou com Benjamin Constant Botelho de Magalhães, quando tinha apenas 15 anos de idade. Filha de Claudio Luis da Costa, irmã de Olympia Bittencourt da Costa, cunhada do poeta Gonçalves Dias, Maria Joaquina é figura de imensa importância para nós.

Quando Benjamin Constant faleceu, em 1891, muita gente tratou de prestar-lhe as mais efusivas homenagens. E muito do que louvava a memória de Benjamin lembrava também o papel “inspirador” da sua esposa. Pense bem: Maria Joaquina passara a vida ao lado de um professor de matemáticas, diretor de escolas, um positivista cuja paixão era a educação. Chega a crise do Império, Benjamin se vê no centro das discussões sobre os rumos do Brasil. Em novembro de 1889, o professor organiza, junto com outros companheiros, o golpe final à Monarquia. Ela vê seu marido passar de professor a Ministro da Guerra, e depois da Instrução Pública.

Em 1891, logo no começo do ano, Benjamin morre. Passa de Ministro a Patriarca e Fundador da República brasileira, quantas honras! Até um museu foi projetado por um político da época, Demétrio Ribeiro, que deveria funcionar na última casa de Benjamin. Maria Joaquina começa, então, seu trabalho de organização e preservação da memória do esposo: faz a lista de bens deixados por ele, autentica documentos, empresta e recolhe fontes históricas junto aos biógrafos de Benjamin. Será que ela foi a primeira museóloga do nosso museu? Bem que poderíamos começar a pensar que sim.

Até porque, entre a morte de Benjamin e a sua própria, em 1921, ela cuidou de muito mais. A casa onde hoje é o museu foi mantida, dizem algumas testemunhas, numa disciplina amorosa, mas rígida. Como afirmou um jornal da época, Maria Joaquina era uma digna “matrona”. Mas que se diga a verdade: por muito tempo as mulheres foram reconhecidas somente pelo papel que desempenhavam em casa, no cuidado dos filhos, na gerência do lar. Nada de surpreendente, sobretudo quando se fala de uma esposa de positivista do final do século XIX. Hoje queremos fazer mais do que isso, quando mais não seja, ao menos para trazer ao debate (sempre republicano) a centralidade das mulheres em todos os aspectos da vida em sociedade.

Teríamos um museu bem diferente se não fosse Maria Joaquina, e sempre fomos dirigidos por mulheres. Essa é outra história que ainda vamos contar. Mas uma coisa é certa: se houve uma guardiã da memória que iniciou tudo isso, o nome dela é Maria Joaquina. Esse museu também é casa dela.

#WomenMW #MuseumWeek

Museum Weew 2017



Nesta semana estaremos participando novamente da Museum Week 2017: evento virtual instituído pelo Twitter - rede social que permite aos usuários enviar e receber atualizações pessoais de outros contatos, em textos de até 140 caracteres - também chamado de microblogging - "acontece" primeiramente nesta mídia, mas se espalha por os sites, mídias sociais e endereços virtuais que o museu e os demais participantes têm endereço na internet.  E agora tem o apoio da UNESCO.

A semana se estende de hoje até o próximo domingo, dia 25/06/2017. Para acompanhar basta ter um perfil no Twitter e acompanhar os tweets do evento, que serão marcados com a hashtag #MuseumWeek, ou através das hashtags temáticas de cada dia, conforme abaixo:

- Segunda, 19/06 #FoodMW - Alimentação, alimentos, comida

- Terça, 20/06 #SportsMW - Esportes

- Quarta, 21/06 #MusicMW - Música

- Quinta, 22/06 #StoriesMW - Histórias e estórias de nosso museu e contadas por aqui

- Sexta, 23/06 #BooksMW - Livros e publicações importantes ou ligadas à nossa instituição

- Sábado, 24/06 #TravelsMW - Viagens ligadas ao nosso museu

- Domingo, 25/06 #HeritageMW - Herança cultural tangível e intangível, conteúdos e acervos

Neste ano há uma novidade: foi escolhido um tema central que é a MULHER e todos os assuntos tratados relativos a elas serão marcados com a hashtag #WomenMW: destacaremos várias histórias notáveis de nosso museu a respeito desse tema.

As atividades, o cotidiano e as curiosidades de diversos museus, centros e casas de cultura, além de vários outros equipamentos culturais de todo o mundo estarão disponíveis para que cada um possa conhecer um pouquinho sobre estas instituições.

Aproveite! Siga-nos em nosso Twitter: www.twitter.com/museu_bconstant

#MuseumWeek

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Histórias controversas no Museu Casa de Benjamin Constant


Marcos Felipe de Brum Lopes

Estamos em obras, vocês sabem. Mas em plena Semana Nacional de Museus, não poderíamos deixar de fazer um pequeno registro. E nosso historiador, Marcos Lopes, mais uma vez nos brinda com um de seus ótimos textos sobre o tema da semana: acompanhe!


Cartaz da Semana de Museus deste ano


Em meio à 15ª Semana Nacional de Museus de 2017, que traz como tema os “Museus e Histórias controversas: dizer o indizível em museus”, ofereço o meu “pitaco” ao conjunto de reflexões que estão ocorrendo por aí.

Todas as famílias têm seus casos e suas casas. Se alguém se projeta para além da média dos mortais e sua casa vira museu, seus casos acabam se musealizando junto. Bem, os museus não são mais – na verdade nunca foram – aqueles lugares em que tudo cabe, tudo se mostra. Se na nossa genealogia os “gabinetes de curiosidades” figuram como locais onde se achavam muitas coisas justapostas e entrelaçadas, os museus sempre mostram e cobrem, lembram e olvidam, falam e calam. Não se pode expor tudo, muitas vezes, não se deve.

Tem coisas que a família de Benjamin Constant mostrou, outras cobriu. O Museu Casa de Benjamin Constant, como instituição, fez questão de lembrar vários aspectos históricos, deliberadamente olvidando outros mais. As esferas do patrimônio histórico nacional, como o IPHAN, falou, mas também calou. Nada de novo, como dizia uma professora dos meus tempos de graduação em História, “a vida é feita de escolhas”.

Estou agora me ocupando de uma pesquisa exatamente sobre as escolhas feitas pela família de Benjamin Constant, pelo Museu Casa de Benjamin Constant e pelo IPHAN, desde a fundação da República. Não é uma história cultural ou política da República, mas uma história daquilo que nós, como instituição e como gente que participa e decide, construímos e demolimos num museu que quer ter um lugar na cena nacional.

O primeiro passo foi apresentado no seminário “Uma agenda para a fotografia”, promovido pela ANPUH-RJ e LABHOI-UFF, que aconteceu no Museu Histórico Nacional em 2016. Naquela ocasião, o insólito título da minha fala foi “Migrantes e fantasmas: as imagens de Benjamin Constant” - veja post a respeito aqui - e busquei mostrar que, a despeito do pobre repertório de imagens que sobreviveu de Benjamin Constant, sua imagem heroicizada pelos positivistas migrou de suporte para suporte, de figura para figura, aparecendo, como aparição fantasmagórica, inclusive na exposição do museu.

A próxima tentativa de dizer um indizível será mais ambicioso, e quem puder me fazer a honra, compareça e ouça mais alguns palpites no XXIX Simpósio Nacional de História, da mesma ANPUH, que ocorre em Brasília em julho próximo, com o tema “Contra os preconceitos: história e democracia”. Segue abaixo um "tira-gosto":

"Após a morte de Benjamin Constant Botelho de Magalhães, em 1891, a memória de sua vida e a casa onde veio a falecer povoaram as discussões políticas da República que nascia. Por sua vida e morte, tanto os elementos abstratos que representava (civismo e regeneração) quanto a dimensão material de sua existência (sua casa) foram apropriados pelos viventes para a construção de um patrimônio nacional republicano. Nesse processo, podemos identificar o papel das imagens e a forma como elas foram instrumentalizadas para transformar uma residência oitocentista num museu histórico. A proposta é articular tipos variados de produções e efeitos visuais, desde a imagem mental, passando pela mítico-religiosa até as fotografias e as cores das fachadas, para delinear uma interpretação histórica do Museu Casa de Benjamin Constant.

Benjamin Constant Botelho de Magalhães, o próprio: o primeiro a dar referências
para a construção do espaço simbólico que é nosso museu casa.


Os dois personagens principais, Benjamin Constant Botelho de Magalhães, o Fundador da República, e Benjamin Constant de Magalhães Fraenkel, o neto, forneceram as primeiras referências para a construção do museu enquanto espaço simbólico. O primeiro, através da sua carreira intelectual e papel político na Proclamação da República, mas sobretudo pela imagem mítica que ganhou, postumamente, dos positivistas brasileiros. O segundo por suas sketches, desenhos, fotografias e descrições das memórias que tinha da “casa de vovô”, que serviram para recompor os ambientes físicos do prédio que virava museu, na década de 1970.


Mas o que isso tem a ver com esta Semana de Museus e os indizíveis da história? Bem, na década seguinte, a residência de Benjamin Constant passava por uma de suas obras de restauração (já havia sido restaurada e, em parte, demolida nos anos 1970). As referências sobre o que restaurar, o que retirar e que cores usar nas fachadas eram conflitantes e as discussões em torno delas apontam para os significados historicamente construídos da memória e da história, compartilhados e disputados pelos profissionais do patrimônio, como arquitetos e museólogos do IPHAN. Um desses profissionais, não sei se era positivista, certa vez disse: “o referido estudo [de cores] pautou-se sobre informações orais transmitidas pelo neto de Benjamin Constant (...); as informações orais não são consideradas fontes fidedignas e muito menos científicas, principalmente quando o registro data da infância, além de já termos constatado que os depoimentos do neto nem sempre correspondem à realidade comprovada”. (IPHAN, 6ª S.R., Informação nº 337/89)

Benjamin Constant de Magalhães Fraenkel, o neto, na foto, ainda criança: foi o segundo personagem
a prover, através de desenhos, fotografias, descrições e memórias, uma base sobre a qual se
recomporia os ambientes físicos do prédio que virou museu sobre a vida de seu avô.


Na medida em que os argumentos, de lado a lado, se apoiavam em boa medida em imagens e narrativas, no que se podia dizer com fidelidade, e o que era dito mas não era verdade, o processo é uma interessante plataforma de observação para uma cultura visual essencialmente histórica, pois indicam escolhas de indivíduos e instituições que, ao atribuírem historicidade aos objetos, modelam os espaços republicanos de vivência social e as dimensões, também visuais, da experiência cultural de visitar um museu nacional. No fim das contas, um museu comunica, bem ou mal. Mas é necessário vasculhar arquivos para descobrir os desditos."