sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Fantasmas de Benjamin Constant

Marcos Felipe de Brum Lopes

Hoje temos o prazer de publicar mais um texto de nosso historiador, Marcos Lopes, sobre as imagens, figuras e "fantasmas" de nosso patrono, Benjamin Constant. Aproveite!



Nosso historiador Marcos Lopes - o segundo da esquerda para a direita -
à mesa do evento no Museu Histórico Nacional.

Entre 21 e 23 de setembro de 2016, tive o prazer de participar do evento “Uma agenda para a fotografia”, realizado pelo GT de Cultura Visual, Imagem e História, da ANPUH-RJ. Nosso anfitrião foi o Museu Histórico Nacional, também unidade museológica do IBRAM. Lá reencontrei amigas e amigos de longa data, pessoas com quem convivi e trabalhei desde minha graduação em História na Universidade Federal Fluminense - UFF.

As organizadoras Teresa Bandeira de Mello (do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro) e Ana Maria Mauad (do PPGH e do LABHOI-UFF) me convidaram para participar da mesa “As instituições e a produção de imagens”, na qual tive o prazer da companhia competente e agradável de Aline Lacerda (FIOCRUZ) e Eduardo Costa (UNICAMP), sem esquecer de Claudia Heynemann (Arquivo Nacional), que mediou a conversa.

Bem, vamos dar um "tira-gosto" do que foi falado e discutido na mesa...

Pode não parecer, mas as instituições e as imagens têm uma relação bem mais rica do que a ideia de produção poderia sugerir. Pensamos, quase sempre, na pré-existência de uma instituição que, no âmbito das suas atuações, produz imagens com fins variados: documentação de atividades, arquivos institucionais recheados de fotografias, imagens de identificação de funcionários, etc. Os tipos de imagens são tão plurais quanto as naturezas das instituições. Mas é também possível que instituições sejam criadas a partir de imagens e figuras míticas e foi esse o caminho inverso que percorri, considerando como algumas imagens de Benjamin Constant foram produzidas e depois ressignificadas postumamente, quando alguns grupos políticos pensaram, pela primeira vez, que a “casa onde residiu e faleceu o Fundador da República” deveria ser transformada em museu.

Nesta viagem migratória entre visual e institucional, abstrato e material, temos que assumir uma visão multifocal. O foco institucional é o Museu Casa de Benjamin Constant e a República Brasileira. O foco visual é o próprio Benjamin Constant, suas figuras e sua imagem. Há também o foco na vida privada das fotografias, das figuras transformadas em metafiguras (imagens que aparecem dentro de outras imagens e que podem explicar a si mesmas), e das pessoas que as transformaram. O caminho, como disse, era inverso, porém não oposto. Olhando para as imagens, figuras verbais e visuais, podemos ver como foram moldadas por uma vontade política que durou mais de um século e ainda vive numa instituição estabelecida – e tombada – como patrimônio nacional.

De imagem a figura, num museu de documentos de toda a sorte. Conforme já sugeri em outro post, a elite política, principalmente o grupo dos positivistas, que fazer da casa de Benjamin Constant “um museu de documentos de toda sorte” que viria a monumentalizar a imagem do Fundador da República. Se você já é familiarizado com o tema, siga adiante. Caso queira conhecer melhor essa história, clique aqui.

O professor de literatura, historiador da arte e filósofo da imagem W. J. T. Mitchell me deu duas pistas para pensar as imagens de Benjamin Constant: uma é a distinção entre imagem e figura. A outra é que as figuras são “imagens migrantes” e “fantasmas”. Ele diz: “Figuras são os lares onde as imagens passam a residir, os corpos nos quais seus espíritos incarnam”. Há uma imagem geral e heroica do Fundador da República, produzida retoricamente pelos positivistas. A dimensão imaginária consubstancia-se em figuras, visualidades registradas em suportes materiais que circulam socialmente. Não há antes e depois: as figuras podem preceder certas imagens no tempo, pois o que ocorre é, de fato, uma ressignificação das mensagens de um lado para outro. Figuras de Benjamin Constant, em suportes materiais, foram usadas para dar uma dimensão visual à imagem construída pelo discurso do pós 15 de novembro de 1889. As mídias que suportaram essa nova imagem foram várias: pintura, fotografia, escultura, selos postais, broches, medalhas, e o próprio museu. A imagem institucional do Museu Casa de Benjamin Constant foi gerida e gestada ao longo do tempo, através dessas figuras. Numa outra passagem, Mitchell sugere que “[Uma] época histórica perturbadora [é] caracterizada por estranhas coincidências, repetições, duplos e fantasmas, e incertezas se os eventos são controlados por imagens fantásticas ou realistas, metáforas ou declarações literais sobre os fatos”. Parece um pouco macabro, mas podemos fazer uma ponte entre esses fantasmas de uma época perturbadora (uma transição de regime político, por exemplo, do qual Benjamin foi protagonista) e a afirmação positivista de que “os vivos são sempre e cada vez mais governados pelos mortos”. Os positivistas foram o grupo mais influente para a entronização de Benjamin Constant no panteão de heróis nacionais e, para isso, foi bastante conveniente que o Fundador da República tenha morrido cedo. Dentre os artistas que produziram as figuras de Benjamin estão Décio Villares e Eduardo de Sá, que contribuíram sobremaneira para a consolidação das imagens de Benjamin como Fundador da República. Essa imagem alegórica e abstrata partiu de figuras já existentes (fotografias do século XIX), se transmutando em várias outras figuras que migram de suporte para suporte, em diversos momentos da história, como aparições. Minha sugestão é que os positivistas e a própria família de Benjamin Constant não só cultivaram mas prepararam, guardaram diligente e deliberadamente, as imagens para que refletissem o valor patriótico que pensavam que o futuro museu deveria ter. Vejamos nas figuras a seguir como Benjamin aparece, migra e reaparece em vários suportes. Em breve continuaremos essa conversa... fantasmagórica!


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Dessa fotografia do fim do império, Décio Villares compôs o quadro de Benjamin, em 1892, um após seu falecimento. A mesma imagem aparece num selo de 1939, comemorativo da Proclamação da República.


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Nessa imagem de 1882, Benjamin aparece com sua família. Já na de 1892, depois de morto... também! Eles está no retrato em formato circular, a frente de seu filho.

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 Maria Joaquina, festejada pelos positivistas como a “veneranda viúva de Benjamin Constant”, posou para esta fotografia em 1891, ano da morte do marido. Ele, porém, não faltou à sessão fotográfica. Marcou presença no broche que a viúva usou para adornar sua indumentária.

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