quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Água para todos

A palestra de Pablo del Arco em nossa área verde: muitos interessados.

A chamada "crise hídrica" tem dominado o noticiário nacional - sem esquecer de citar exemplos de escassez ou falta de água em diversos lugares do mundo - e também perpassa o dia a dia das universidades e seus acadêmicos, pesquisadores e empresários, e muitos especialistas em climatologia ou em novas formas de captação ou de economia de água. Todos trabalhando de modo intenso numa crise que parece ser a principal, dentre as várias decorrentes do desequilíbrio ecológico pelo qual o planeta passa. Água é base para a vida, todos sabem. E, do valor pago pelo abastecimento - que vem aumentando continuamente - até a falta do bem precioso na torneira de casa, tudo preocupa ao cidadão comum.

Pensando nisso, inúmeras associações e organizações vêm participando ativamente da pesquisa e da experimentação de alternativas de captação de água, mormente da chuva, que pode ser aproveitada em várias atividades domésticas - descarga de banheiros, limpeza de pisos e calçadas, rega de canteiros e jardins, lavagem de carros, entre outras que representam cerca de 50% do consumo de água nas cidades. E um grupo pequeno de pessoas já possui algumas soluções bastante razoáveis neste terreno. É o caso do coletivo carioca "Águas de Março", formado por profissionais de engenharia e construção civil, entre outras áreas pertinentes. Durante a última Semana de Museus, em maio deste ano - como você pode ver neste post - tivemos uma palestra inicial sobre o assunto, sobre a qual nos fala Pablo del Arco, participante do grupo e facilitador presente deste pequeno encontro. Confira:

" 'Águas de Março' é o nome fantasia da Rede Carioca de Captação de Água de Chuva. Somos um coletivo que tem por objetivo principal divulgar e implementar tecnologias de captação de água de chuva de baixo custo no Rio de Janeiro e redondezas. Acreditamos que desta forma podemos contribuir a um maior empoderamento dos cariocas na gestão dos seus recursos hídricos, e a uma maior resiliência da cidade e de seu entorno ao problema.


A essência do sistema de captação: a água de chuva é coletada na calha, as folhas e
outros resíduos são descartados num filtro, as primeiras águas de cada chuva - que
limpam a atmosfera e o telhado - são descartadas automaticamente, e o resto
da água, de melhor qualidade, é armazenada no reservatório.

Participamos da Semana de Museus, que teve como tema "Museus para uma Sociedade Sustentável", através de uma apresentação no Museu Casa de Benjamin Constant, em parceria com a Rede Ecológica de Santa Teresa.

Na conversa foi abordada a relação entre o nosso papel como consumidores, o desmatamento, a mudança do clima e a crise hídrica. Neste contexto, foi introduzido o conceito de "Água Virtual" como ferramenta para guiar nossas escolhas de consumo, assim como algumas tecnologias de redução do consumo doméstico de agua.


Um reservatório simples como este serve para acumular a
água da chuva reaproveitando-a em qualquer residência.

Apresentamos o papel empoderador dos sistemas de captação de agua de chuva, como ferramenta para aumentar a resiliência da população perante a falta de água. Foram apresentadas também as bases técnicas para se desenhar um sistema de captação de água de chuva tecnicamente correto (seguindo a NBR 15.527:2007 da ABNT). Finalmente foi brevemente explicada a tecnologia de captação de agua de chuva de baixo custo que utilizamos, além da indicação de alguns links e referências para os presentes."

O filtro e o sistema de descarte de aguas pluviais.




Foi muito proveitoso saber que novidades e soluções para a crise que se apresenta à nossa porta neste momento, e que se configura como grande ameaça em tempos de seca - seja no inverno, seja no verão - já estão disponíveis e sistematicamente organizadas de modo a disseminar este conhecimento para todos. Foi um prazer (e um alívio!), receber a palavra do "Águas de Março" em nosso parque. Teremos outras ocasiões como esta. Aguarde!

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Recuperando a memória Positivista

Marcos Felipe de Brum Lopes 

A Igreja Positivista ou Templo da Humanidade: aqui no Rio situada à Rua Benjamin Constant,
no bairro da Glória, vizinho a Santa Teresa, onde fica a casa em que viveu
o Fundador da República.

O museu é uma das clássicas instituições que criamos para preservar os vestígios do que fomos, do que somos e do que podemos nos tornar. Não somente voltados para o passado, os museus são hoje lugares plurais, abertos às inovações e com missões sociais. Preservamos, conservamos, mas também criamos e produzimos.

Nesta conjugação do que foi e do pode vir a ser, o Museu Casa de Benjamin Constant voltou-se, nesses últimos meses, para uma antiga parceira: a Igreja Positivista do Brasil – veja um primeiro post a respeito aqui. Muitos fatores nos aproximam desta esquecida igreja, que tenta hoje reerguer-se. Basta dizer que Benjamin Constant foi um dos fundadores do Movimento Positivista organizado no Rio de Janeiro, que daria origem ao que ficou conhecido como “Apostolado Positivista”, responsável pela construção do Templo da Humanidade, sede da igreja. A rua onde se encontra o templo chama-se Benjamin Constant, no bairro da Glória, não muito distante da casa onde residiu e faleceu o Fundador da República.

Equipes do MCBC e da Igreja Positivista junto ao busto de Benjamin Constant, em nosso museu


A Igreja Positivista do Brasil faz parte do Circuito Sítios Históricos da República, um projeto de nosso museu em parceria com o Museu da República, que tem como tema a história republicana mediada pelos lugares de memória que marcaram a transição entre os regimes políticos no fim do século XIX. Isso se deve ao fato de que os positivistas assumiram como missão a organização da república brasileira, opinando publicamente sobre diversos assuntos de interesse social, como a separação entre a Igreja e o Estado, a liberdade de culto religioso e o casamento civil. Como tinham vários representantes na elite política, os positivistas tiveram um papel relevante nas primeiras décadas da era republicana.

Tombado como patrimônio cultural Brasileiro, o Templo da Humanidade sofreu um desabamento do telhado em 2009, e desde então seu acervo corre sério risco de se perder. Para evitar um desastre maior, o Museu Casa de Benjamin Constant participou de uma força-tarefa para inscrever o acervo da Igreja Positivista no edital Memória do Mundo, da UNESCO. O trabalho foi realizado por uma equipe multidisciplinar e contou com servidores e estagiários do IBRAM, IPHAN, INEPAC e da Superintendência de Museus do Estado do Rio de Janeiro.

O trabalho, já em andamento.

Nesta primeira fase, catalogamos as publicações feitas pela Igreja Positivista - que revelam sua peculiar produção intelectual, desde discussões filosóficas até questões práticas para a sociedade, como a vacinação obrigatória no início do século XX. Este é o conjunto de documentos que concorre ao edital da UNESCO, uma chancela importantíssima para que o acervo do Templo da Humanidade seja preservado de maneira ideal.

O Museu Casa de Benjamin Constant firmará, ainda em 2015, um Acordo de Cooperação com a Igreja Positivista do Brasil, para tratamento do acervo documental e produção de um inventário para futuras pesquisas. Temos orgulho de poder cumprir com nossa missão institucional, que é a de divulgar e pesquisar o contexto no qual viveu Benjamin Constant e cooperar com outras instituições em projetos de preservação do patrimônio. Assim, nos voltamos para documentos do passado, mas com o objetivo de produzir novas possibilidades de conhecimento, a partir de novas ferramentas e novos questionamentos.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Um final de semana de muita criatividade!

Pesquisa e fotos: Ariana Santos e Yasmim Silveira 
Técnicas em turismo

Argila, pigmentos coloridos, pinceis e papel foram os materiais utilizados
na Oficina de Barrogravura de Cristina Felício.


O fim de semana do Arte de Portas Abertas - evento artístico cultural organizado anualmente pela Chave Mestra - Associação dos Artistas Visuais de Santa Teresa - é sempre muito animado em nosso bairro: desde as centenas (quiçá milhares) de visitantes vindos de todos os pontos da cidade para visitar os ateliers dos artistas plásticos aqui instalados, até uma miríade de vendedores ambulantes que se instalam, literalmente, em todo cantinho de calçada, muita gente ligada em arte, cultura, festa, comes e bebes típicos dos boêmios bares e restaurantes daqui, e até mesmo nas barganhas oferecidas pelas lojinhas do bairro, vem passear em Santa Teresa.

Neste ano, aliando uma chuva fina com um trecho de obras no "centro nervoso" do bairro - o Largo do Guimarães - esperava-se menos gente: o que não se confirmou. Vieram todos: curiosos, turistas de longe e de perto, artistas de outros bairros, entre muitos outros. Gente interessada em coisa bonita e diferente, "garimpando" além de peças e objetos de arte, um bocado do "fruir artístico" ou, do vivenciar a arte.

Gente de todas as idades esteve presente na Oficina de Barrogravura,
criando a matriz em barro e a gravura em papel.

E para oferecer um pouco desta parte, tão escassa em toda a cidade, recebemos nada menos que três oficinas de arte, conforme anunciamos neste post. No sábado e no domingo (dias 25 e 26/07), à tarde, Cristina Felício mostrou como se trabalha com Barrogravura, e envolveu muita gente, de todas as idades, na criação de matrizes de argila e gravuras coloridas.

Lembrando da importância dos trabalhos feitos com as mãos, Cristina informou que está de mudança entre ateliers localizados aqui mesmo no bairro, e que viu na oficina uma oportunidade de dividir seu conhecimento, além de doar todos os materiais necessários à atividade, pois eles não serão mais utilizados em seu novo endereço, a Casa Amarela. Mariá Rocha, uma das participantes da oficina, disse estar feliz em "descobrir outras técnicas artísticas", já que trabalha com materiais reciclados na criação de bijuterias e outros objetos.

Uma das participantes da oficina de domingo à tarde exibindo
seu "Painel Poético" criado na oficina: retalhos, agulha, linhas e criatividade.  

No domingo, o trio formado pela artesã e bordadeira Miriam Freitas, e pelas arte educadoras Beth Araújo e Martha Loureiro do Ateliê Baú de Panos, comandou duas outras oficinas: pela manhã foi a vez dos menores se ocuparem de retalhos, linhas, botões e outros aviamentos para criarem brinquedos de pano. À tarde os mais velhos se inspiraram em Santa Teresa para criarem "Paineis Poéticos" igualmente com tecidos reaproveitados.


O grupo trabalha com reaproveitamento de retalhos, a maior parte vindos do trabalho no atelier de moda e arte, mas aceita doações de materiais de costura para realizar regularmente oficinas em escolas municipais através do programa "Segundo Turno Cultural", realizado em parceria com as secretarias de Cultura e de Educação do município, entre outros espaços. O projeto estimula a imaginação e interatividade, engajando pessoas de todas as idades, e abre espaço para a criação de verdadeiras maravilhas com materiais, à primeira vista, sem utilidade e destinados ao descarte. Daí saem bonecas, jogos e livros de pano, painéis decorativos, acessórios infantis, tudo concebido com retalhos e com a criatividade dos participantes, orientados pelas três entusiasmadas artistas professoras.

Bonequinhos feitos pelas crianças da Oficina de Brinquedos de Pano.


Martha Loureiro afirmou que foi sua primeira participação no evento "Portas Abertas", e que gostou muito de participar, percebendo grande interesse por parte do público que aqui esteve, e que pretende voltar nos próximos anos.

O resultado das oficinas foi tão positivo, que já estamos pensando numa próxima vez. Afinal de contas o "Portas Abertas" só acontece uma vez no ano, mas nossa criatividade está presente o ano inteiro, brotando como pode entre momentos de trabalho, estudo e outras obrigações do dia a dia.