segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Índios, república e positivismo: Rondon e sua herança no acervo do Museu Casa de Benjamin Constant - 2ª Parte

Marcos Felipe de Brum Lopes
(clique aqui para ler a primeira parte do texto

Máscara mortuária de Cândido Rondon, feita no dia de sua morte e preservada pela
Família Benjamin Constant. Museu Casa de Benjamin Constant, IBRAM/ MinC.
(Reprodução: Paulo Rodrigues)

A relação entre Rondon e a família de Benjamin é simbolicamente republicana e patriótica. Rondon presenteou a família do mestre com uma rede indígena ornada em arte plumária. No centro da rede, as penas lembram o brasão da República brasileira. No dia da morte de Rondon, em 5 de maio de 1958, foi feita uma máscara mortuária, preservada como relíquia entre os bens da família do Fundador da República.

Esses objetos são hoje peças do Museu Casa de Benjamin Constant. Para além de homenagens póstumas, eles nos dão boas pistas para entender que a proposta rondoniana se transformara em missão patriótica, republicana e redentora. Como afirma Carlos Augusto da Rocha Freire, Rondon reconhecia que as atividades de atração de índios “eram caudatárias das técnicas de contato e conquista instauradas pelos jesuítas ao criar aldeamentos à época colonial2. Portanto, Rondon reinventou um antigo modelo de autoridade religiosa sob os preceitos da chamada religião da humanidade, o Positivismo. Em que pese toda a distância entre o cristianismo dos jesuítas e o positivismo de Rondon, ambos compartilhavam a ideia de redenção, descrita por Juarez Távora como “o nobre esfôrço de catequese leiga de nossos índios – em que foi, sem dúvida, um pioneiro3. (grifo de minha autoria) 

Redentor e mártir, Rondon se tornou verdadeiro mito: 
    "O General Rondon é, como patriota, um caso único no seu meio e no seu tempo. (...) O seu clamor não cessou nunca, nem o seu esforço, nem a sua desmarcada coragem. Ha trinta annos que trabalha, que soffre, que sangra, e ha trinta annos que espera, sem desesperar, que a sua lição seja comprehendida. (...) O General Rondon votou a sua vida ao interesse publico, à causa egregia da Humanidade nos diversos aspectos que essa causa tomou no Brazil.
As relações de amizade a serem travadas com os índios eram um passo essencial na caminhada para incorporá-los à pátria, “com o fim de desbravar regiões ainda selvagens do território da nossa Pátria e entrega-las á vida civilizada".5

Os objetos e documentos hoje musealizados nos lembram que a questão indígena é antiga e problemática, com seus desdobramentos conflituosos ainda presentes em nossos dias. São rastros do contato e adaptação indígena aos processos históricos brasileiros. O Positivismo e a República tentaram resolver a presença e a herança indígena através da pacificação e incorporação dos índios à dita vida civilizada. Resta-nos considerar, sempre, se essas relações foram e têm sido realmente pacíficas e republicanas. 

2 FREIRE, Carlos Augusto da Rocha. “Sobre atração e pacificação de povos indígenas”. In.: ______ e GURAN, Milton. Primeiros Contatos. Atrações e pacificações do SPI. Rio de Janeiro: Museu do Índio, 2010, p.13

3 TÁVORA, Juarez. Carta a Esther de Viveiros. 29 de maio de 1956. In.: VIVEIROS, Esther de. Rondon conta sua vida. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1958, p.579



4 BANDEIRA, Alipio. “Um caso unico”. In.: Rondon. Rio de Janeiro, 1919, p.3 

5 MISSÃO RONDON. Apontamentos sobre os trabalhos realizados pela Comissão de Linhas Telegraphicas Estrategicas de Matto-Grosso ao Amazonas sob a direção do Coronel de Engenharia Candido Mariano da Silva Rondon de 1907 a 1915. Rio de Janeiro: Typ. do Jornal do Commercio, 1916,  p.23
 
 

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