quarta-feira, 29 de julho de 2015

Curiosidades do século XIX: mechas de cabelos

Cabelos de Benjamin Constant Botelho de Magalhães, cortados por ocasião
de sua morte, em 1891.

Um dos itens guardados em nosso acervo bastante curiosos são as mechas de cabelos dos membros da família de Benjamin Constant. Encontramos várias, identificadas ou não, elementos de uma época em que era uma tradição guardar um "pedacinho" da pessoa, do que apenas sua lembrança. Fato é que os cabelos sempre foram ligados ao misticismo, aos ritos e crenças religiosos tradicionais ou pagãos, à vida e à morte do ser humano. Dos músculos de Sansão - cujos cabelos eram como um "concentrador de forças" - às tranças - que eram verdadeiras cordas - feitas dos longos e claros cabelos de Rapunzel, o mito é bastante conhecido, reconhecido e - ainda hoje - alimentado.

Mecha de cabelos de Maria Joaquina, viúva de Benjamin Constant,
cortada por ocasião de sua morte em 1921.


Em sua tese de doutorado "Tramas de afeto e saudade: em busca de uma biografia dos objetos e práticas vitorianos no Brasil oitocentista", a professora Irina Santos explica que, "os cabelos tornaram ímpares os indivíduos e passaram a figurá-los. Cachos ou mechas cortadas das cabeleiras foram guardados e dedicados como relíquias raras e valiosas, (...)como parte imutável do corpo de uma pessoa querida e testemunho de momentos e vínculos afetivos."

Mecha dos cabelos do Dr. Claudio Luiz da Costa, sogro de Benjamin Constant.


Outra explicação sobre este hábito foi dada pelo professor de Mitologia, Astrologia e Artes Cid Marcus em seu blog: "uma tradição importante é a que liga os cabelos e as unhas ao poder vital e à força do homem, neles se concentrando as virtudes e propriedades do ser. Para muitos, essa tradição está na base do culto das relíquias de santos e o costume de conservar, como lembrança, uma mecha de cabelos que tenha pertencido a um ente amado ou os primeiros dentes de leite de uma criança.". Falando nisso, encontramos em nosso acervo, várias mechas dos cabelos das crianças da família.

Mecha dos cabelos de Olympia Costa Gonçalves Dias, viúva de Gonçalves Dias,
cunhada de Benjamin Constant.

Neste post destacamos apenas algumas delas para chamar a atenção sobre este hábito que remonta a séculos - pois a guarda de fios de cabelos existia desde a antiga civilização clássica grega. No entanto, o costume não teve continuidade no século XX: segundo a conclusão da tese da professora Irina "com o passar do tempo, o cabelo não voltou a ser considerado material adequado para significar as relações de afeto entre as pessoas, tampouco material conveniente para a confecção de objetos elegantes. O nojo a este material veio afastando os objetos de afeto e saudade do cotidiano e do que veio sendo considerado normal e de bom gosto, e os aproximou do bizarro ou excêntrico." E, de fato, atualmente, tornou-se "bizarro e excêntrico" ao menos observar este costume tão antigo.

Notas:
1 - Leia aqui um interessante post sobre uma caderneta feita por Maria Joaquina, esposa de BC, para presentear seu marido, que continha fios de seus próprios cabelos;

2 - A tese da professora Irina Santos deu destaque a esta caderneta confeccionada por Maria Joaquina, já que se trata de uma peça que registra um hábito do século XIX. Em visita a nosso Museu, a professora pode avaliar de perto esta verdadeira "joia de afeto", ou seja, um objeto confeccionado intencionalmente para manter vivas as recordações de uma relação afetiva, das mais importantes de nossa história.

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