sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Um menino descreve o Plano Inclinado

Benjamin Constant Fraenkel, criança e ainda de cachinhos, sentado
na escadinha de acesso ao alpendre da casa de seus avós maternos.

Por ocasião dos levantamentos feitos para abertura do Museu Casa de Benjamin Constant, a museóloga Hercília Canosa Viana manteve correspondência com um dos netos de Benjamin Constant: Benjamin Constant Fraenkel, filho de Aldina e Karl Fraenkel, relata o que viu e viveu em casa do avô que não chegou a conhecer. Seu contato mais próximo com a figura de nosso patrono fora sua avó, Maria Joaquina, ainda viva quando o pequeno Fraenkel nasceu. Em uma de suas cartas à "Dona" Hercília, Fraenkel fala sobre o Plano Inclinado, que foi a forma como ele chegou, pela primeira vez, vindo da Europa, onde nascera, à casa de seu avô, Benjamin, em Santa Teresa, onde passava férias. Veja que belo relato de um meio de transporte esquecido pelo tempo e pela história, da cidade e do bairro, a partir das memórias de um homem que o utilizou ainda menino:

"(...) Chegamos, enfim, ao querido Rio. Ainda não havia o cais. O navio ficava ao longe e uma grande quantidade de barcos, com gente que vinha esperar os parentes e amigos, outros, com frutas para vender aos passantes, lanchas, todos fazendo um barulho tão grande, um falatório todo em português, que eu não me lembrar quem é que foi ao nosso desembarque e como cheguei ao Plano Inclinado!

Lembro-me só que tudo para mim foi uma surpresa, uma grata surpresa! O Plano Inclinado, de tantas recordações, foi demolido! Parecia que havia sido feito especialmente para a casa de meu Avô.

Para se tomar o Plano Inclinado, entrava-se por um corredor de uns quinze metros de extensão que corria ao lado da ladeira do Castro, e dela separada por um gradil de ferro. No fim desse corredor havia uma escada de uns dez ou doze degraus. No alto dessa escada havia um patamar de madeira onde uma outra escada de madeira, de uns quatro degraus, dava acesso para um outro patamar, mais estreito, e onde encostava o bondinho do Plano.

O bondinho devia ter uns sete ou oito bancos, com portinholas que eram fechadas, para garantia dos passageiros...

Quem abria e fechava as portinholas era o encarregado de cobrar as passagens que fazia também as manobras, travando e destravando os freios. A linha era uma só até o ponto em que se bifurcava para dar passagem ao outro bondinho, que descia. Um subia, outro descia, em sentido contrario, amarrados por um cabo de aço que era guiado por uma grande roldana horizontal, no alto do morro, e por diversas roldanas verticais situadas entre os dormentes.

O trajeto durava cinco minutos e o horário era de meia em meia hora. O bondinho, em seu percurso, atravessava dois viadutos, um logo ao sair da estação de baixo e ficava sobre a Ladeira do Castro, o outro, era uma ponte suspensa, de ferro, uma obra interessante, aliás, da qual existem algumas fotografias.

Logo ao chegar à segunda ponte descortinava-se a acolhedora e simpática casa de meu Avô e a grande chácara. Ainda hoje, passados mais de setenta anos, conser- nitidamente a vista do conjunto, tanto antes das obras executadas, como depois delas, dos dois prédios que lá existiam.

E, não é de admirar, que essa vista se gravasse, em quem via a sua terra pela primeira vez, tão linda e tão diferente das outras em que vivera e onde se falava, para qualquer lado que se virasse a língua sonora e familiar, que só ouvira em sua casa.

Na estação de cima, o maquinista que movimentava as máquinas, fazia-o quando o condutor do bonde mostrava, lá de baixo, um grande disco, que era branco de um lado e vermelho do outro, para avisar à estação terminal se tudo estava pronto ou não. À noite, uma luz se agitava no lugar do desvio.

Quando bondinho chegava ao ponto terminal o condutor abria porta por porta e os passageiros, quasi
(sic) todos, saiam para tomar o outro bonde, elétrico cujo destino final era Paula Matos.

Os passageiros que não tomavam o elétrico, quase todos se dirigiam para a casa do meu Avô, ou para a rua do Triunfo e passavam por uma pequena ponte, transversal à linha do Plano Inclinado.

Depois da ponte havia um portão de ferro, em cujas pilastras a minha Avó mandara colocar as letras B e C. Do portão, uma escadinha dava para uma rampa que passava pela casa que depois foi reformada pelo meu tio, o Marechal Serejo.

Ao meio da rampa havia um desvio que servia de entrada para essa casa, colocada parte sobre o morro e cuja parte de baixo parecia ter sido uma cocheira com suas largas portas, o que justifica também a larga rua de paralelepípedos, desde a varanda da frente até o largo portão da Rua Monte Alegre.

Parece-me, assim, que essa casa era a residência do cocheiro, do antigo dono, e que também vigiava a entrada. Do outro lado da rampa, (uma escadinha de uns três degraus levava a) um jardim, abaixo do nível da casa (para ele, se descia por uma escada
[a sudoeste] uns 3 degraus), cercado, e que dava para o leito do Plano Inclinado."

2 comentários:

  1. Amei este relato tão esclarecedor sobre o Plano Inclinado que levava até a casa de Benjamim Constant.

    ResponderExcluir
  2. De fato é algo muito especial, não é Adua?
    Gratos pela visita e pelo comentário.

    ResponderExcluir

Obrigada por comentar. Sua visita é muito importante para nós!