quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Curiosidades do século XIX: gomil e bacia




Gomil - jarra que guardava água - e bacia em louça, utilizados pela família
de Benjamin Constant, no "Quarto da Moça", em nosso Museu Casa.

Para quem hoje está acostumado a encontrar banheiros - públicos e privados - com água encanada para lavar as mãos, por exemplo, é difícil imaginar que, há pouco mais de 100 anos (em algumas cidades, até menos que um século...), não existia água na torneira deste ambiente... Aliás, sequer existiam torneiras!

Belíssimo gomil em faiança portuguesa.

Na verdade, diversas fontes nos informam que os hábitos de higiene que possuímos hoje são bastante recentes, de até depois dos anos 1930! A necessidade de possuir esses bons hábitos só foi retomada no século XVIII na Europa, por questões de saúde pública. É quando a ciência moderna prova à sociedade que cada um dos indivíduos é, sim, responsável pela saúde coletiva.

No final deste século - o XVIII - os arquitetos passaram a incorporar o banheiro como um cômodo em uma casa. Logo em seguida, no século XIX, os artefatos e objetos utilizados nos banheiros começa a possuir uma estética própria e são desenvolvidos em inúmeros materiais, de acordo com o poderio econômico de seus usuários: mármore, louça, metais, etc., são escolhidos para compor o banheiro de acordo com o pedido dos donos das casas.

Um lindo gomil em prata e cristal em bico de jaca.

Os banhos aconteciam em tinas - de madeira, de louça, de metal com louça, entre outros materiais - e os médicos ainda banhavam à força os doentes nos hospitais. Segundo citação dessa época, encontrada em livro do historiador norte americano Lawrence Wright, "não era difícil encontrar um sujeito que, tendo de enfrentar a experiência do primeiro banho, demonstrasse verdadeiro terror, gritasse, tentasse escapar da sensação de sufocamento e palpitação que a água fria proporcionava".

E a higiene pessoal diária?

Como os banheiros não eram "completos", era necessário um pote com água e algum objeto que recebesse a água a ser descartada. É daí que surge a dupla muito utilizada no século XIX: o gomil e a bacia. "Famoso" em penteadeiras ou toucadores, não era nem mesmo necessário ir até o banheiro para se utilizar do gomil para lavar-se: encontrava-se ali, ao lado da cama, no quarto de dormir.

Gomil e bacia em louça ou faiança, típicas da 'toilette' das senhoras no século XIX.
Fonte: blog "Anabela na Casa da Vovó"

O gomil era o jarro onde se guardava a água a ser utilizada. A bacia o acompanhava para receber a água já utilizada. Note-se que esse hábito já era de uma classe mais alta, mais esclarecida e portanto afeita às necessidades de se manter a higiene pessoal. E, deste modo, encontramos essas peças feitas com tanto requinte e beleza como vemos nas imagens desse post. Uma aristocrata poderia ter seu gomil e bacia feitos em mármore talhado. Se achasse muito pesado, poderia encomendá-lo em louça colorida e cheia de detalhes. Ou, para um aristocrata muito poderoso, nada menos que a prata seria utilizada para criar seus objetos de higiene pessoal.

Membro de uma burguesia ainda claudicante, nosso patrono e sua família possuíam sim, gomil e bacia para uso pessoal. Existem três conjuntos em nosso acervo: um em louça e dois em ágate (ferro esmaltado). Certamente mais peças puramente utilitárias, sem nenhum glamour especial. Acredita-se que, já nesta época - final do século XIX - a necessidade de se manter limpo era reconhecida e praticada das classes mais altas às menos favorecidas. Daí, a confecção dos apetrechos necessários a ela em materiais mais simples e baratos se tornou imperativa. Antes de serem peças de arte trabalhadíssimas, essas peças se tornaram corriqueiras e todos as deveriam possuir. Por isso o fabrico em massa, menos que a artesanía que confeccionava peças preciosas, começou a dominar em todas os lugares.

Modernamente, ainda encontramos o uso do gomil e da bacia em residências de alto luxo, ou até mesmo
castelos habitados por famílias pertencentes à antiga nobreza, como um luxo e uma sofisticação que
distingue quem os utiliza. As peças da imagem - Lavanda e gomil de asa perdida D. João V em prata
portuguesa - encontradas num site de leilão, são um exemplo do que se encontra nestas ocasiões.

É muito interessante conhecer os detalhes do dia a dia dos habitantes das cidades há pouco mais de 50 ou 60 anos. De 70 anos para trás, até mais ou menos o século XVIII, tornam-se ainda mais diferentes os hábitos e costumes diários de "gente como a gente". E, já sabemos, somente com o conhecimento deste passado é que teremos como buscar um futuro ainda melhor para as futuras gerações.

Bacia e gomil em porcelana, século XIX. Monograma de André Pinto Rebouças
Fonte: Museu Histórico Nacional.



Nota Importante: em que pese o ideal ser a utilização de um conjunto de gomil e bacia por pessoa - se pensarmos exclusivamente em higiene pessoal - há fontes que indicam que, em sua maioria, as famílias do século XIX destinavam um conjunto de porcelana ou louça para cada quarto, um de estanho para a sala de visitas e um de ágate na cozinha. 


Fonte:
"Banheiros" - trabalho de alunos da disciplina "Tecnologia de Edificação I", do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina - encontrado no site da universidade em http://www.arq.ufsc.br/arq5661/trabalhos_2007-2/banheiros - em 25/08/2014

Um comentário:

  1. Em fazendas do Rio grande do Sul, em algumas,mais antigas, ainda são utilizados o gomil e a bacia.
    Devido ao frio, é mais pratico se lavar no quarto do que ir ao quarto de banho.

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