sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Curiosidades: barba, cabelo e bigode no século XIX

Direto do acervo: o afiador de navalhas de Benjamin Constant
Um dos objetos que mais estimula a curiosidade dos visitantes de nosso museu é o afiador de navalhas que pertenceu a Benjamin Constant, que você vê na imagem acima. Ele fica no banheiro da casa museu, próximo a outros objetos do tipo, mas há sempre alguém "fascinado" por este aparelho em especial.

Trata-se de um modelo muito simples, onde se acomoda a lâmina da navalha num compartimento com pedra e, girando-se a manivela, a lâmina vai se afinando, voltando a estar amolada para um próximo uso.

Deste hábito de barbear-se em casa de nosso patrono, pesquisamos como eram as barbearias da cidade no século XIX, e ficamos sabendo fatos bastante curiosos sobre estes estabelecimentos.

Barbearia no século XIX.


É bom dizer que o ofício de barbeiro no século XIX se confundia com outros, tais como dentista e "sangrador", ou seja, aquele que "sangrava" as pessoas para curá-las de algum mal. As chamadas "sangrias" eram um remédio dos mais comuns no século XIX, mas sua execução não era atribuída ao médico que a prescrevia. Conforme diz Blach:

"Nesse sentido, um dos recursos mais utilizados nesse período era a sangria. Apesar disso, considerava-se a sangria um ramo da arte da cirurgia, que por sua vez, sendo uma atividade manual e que lidava diretamente com sangue, era desvalorizada em relação à medicina, uma “arte liberal”, que eximia o médico d e tocar no doente, senão para verificar o pulso. (BARRADAS, 1999) 

Desde a Idade Média, as pessoas que desempenhavam a sangria associavam-se em confrarias e pertenceriam a camadas sociais inferiores. No Brasil do século XIX, essa hierarquia das artes de curar se mantinha. Assim, naquele contexto, não havia ninguém mais apropriado para desempenhar as atividades de 'sarjar, sangrar e aplicar sanguessugas e ventosas' do que os escravos e os forros." 

E, como reforça Dantas:

"O exercício do ofício dos barbeiros remonta a Antiguidade Clássica, os usos, funções e atribuições do termo passaram por diversas transformações ao longo da História. Inicialmente o barbeiro, ou como era mais usual, o cirurgião-barbeiro acumulava um espectro de funções mais amplo do que na contemporaneidade:

[...]faziam barbas, raspavam, cortavam e aparavam cabelos e unhas; também faziam benzeduras, curativos, extrações de cravos, espinhas e furúnculos, vendiam raízes que serviam como espécies de remédios e, ainda, realizavam operações cirúrgicas. Além de sangrar, sarjar, aplicar bichas, ventosas e sanguessugas. (SILVA, s/d. s/n).

Com o passar do tempo o embate entre médicos e dentistas – ligados a formalização destas profissões junto às universidades – e os cirurgiões-barbeiros cuja profissão era perpetuada por meio da oralidade e da tradição, levou gradativamente a redução considerável do espectro de funções dos barbeiros. Já no século XIX suas atribuições já estavam oficialmente restritas ao corte de cabelos e barba e deste então esta tradicional profissão vem se adaptando e reinventando ao longo dos anos através das vicissitudes do tempo."

É possível notar que o panorama para senhores do trato de nosso patrono, Benjamin Constant, numa barbearia, não era dos melhores. Portanto era necessário - e bem mais confortável - possuir instrumentos para realizar em casa o que fosse necessário. Interessante notar como esta profissão, aos poucos, foi se tornando o que é hoje - e como a população masculina hoje em dia, de todas as classes sociais, voltou a frequentar as barbearias.

Fontes:
BLACH, Matheus. "Ofício dos barbeiros em BH: barba cabelo bigode" - encontrado na Revista Virtual "Sobre História" em http://www.sobrehistoria.org/oficio-dos-barbeiros - em 19/08/2014

DANTAS, Rodrigo Aragão. "A Trajetória de um Barbeiro Carioca Oitocentista" - encontrado no site da Sociedade Brasileira de História da Ciência - SBHC, nos Anais do 13º Seminário Nacional de História da Ciência e da Tecnologia, 2012 - em http://www.sbhc.org.br/resources/anais/10/1343073087_ARQUIVO_Atrajetoriadeumbarbeirocariocaoitocentista.pdf - em 19/08/2014

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