quinta-feira, 24 de abril de 2014

Conhecendo Mario Baldi - parte 2

Leia o post anterior sobre o assunto

Continuando a primeira parte deste post, transcrevemos aqui a segunda parte do texto redigido por nosso servidor Marcos Lopes sobre seu trabalho de doutorado, onde focalizou a trajetória do fotógrafo austríco Mario Baldi em terras brasileiras. Vamos lá?

"O primeiro projeto fotográfico no Brasil e o vínculo de Baldi com o príncipe D. Pedro, filho da princesa Isabel, organizam algumas questões da tese, envolvidas com a busca de um lugar estável no campo de possibilidades fluido e sofrido como é o dos imigrantes. Cruzando narrativas com fotografias, faço um balanço da produção da primeira experiência de documentação de Baldi, nos anos 1920.


O jornal "A Noite" e a revista "A Noite Ilustrada": veículos brasileiros por onde circularam imagens de Baldi.


No trabalho tive a intenção de localizar a alteridade cultural em duas linguagens diferentes, a etnográfica e a fotojornalística. A ideia surgiu da atuação de Mario Baldi em projetos fotográficos e suas veiculações nas revistas ilustradas cariocas. A presença do fotógrafo entre os índios Bororo e os padres salesianos para produzir um filme sobre colonização dos religiosos (até hoje não localizado) gerou um conjunto de fotografias interessantes que ilustram os encontros culturais entre brancos e índios nos anos 1930.

Na medida em que Baldi apresenta as fotografias desse projeto ao mercado editorial brasileiro, destaco a publicação "A Noite Illustrada", suplemento do jornal "A Noite", que surge em 1930 e contrata Mario Baldi como fotógrafo. A revista A Noite Illustrada por si, somente poderia receber um estudo de caso, pois teve uma duração relativamente longa e é pouquíssimo citada na historiografia brasileira.


Centenária Índia da tribo Bororo clicada por Mario Baldi - circa 1935.

A segunda metade da tese é dedicada ao estudo de séries de fotografias representativas da diversidade cultural brasileira, levando-se em conta o agenciamento e circulação das imagens. O conceito chave nesta parte é o de imaginação geográfica, que considero ter estruturado não só os olhares e narrativas de Baldi, mas as tendências editoriais das revistas e as tradições visuais sobre o interior do Brasil. Nesses casos, são significativas as fotografias feitas para "A Noite" dos trabalhos do Serviço de Proteção ao Índio.

No final do texto fazemos uma viagem à Ilha do Bananal, em 1938, entre os índios Carajá. A ideia é analisar as imagens, sua circulação na imprensa e sua retomada ao longo dos anos 1940, quando são publicadas no livro de Mario Baldi. Com duas versões, uma brasileira ("Uoni-Uoni conta sua história", 1950) e outra alemã ("Uoni-Uoni oder die letzten Indianer am großen Wasser", 1952), o livro é um bom exemplo para entender o que Baldi pensava sobre a alteridade cultural e étnica no Brasil.

Como construção, cada ato fotográfico e cada pose contam uma história diferente. Não há fórmula ou rótulo fixo para uma fotografia. Se, por um lado, a câmera e a imagem técnica funcionam como uma extensão do olho do observador, uma prótese óptica que congela uma ideia, ela também testemunha reações, intervenções e ilustram – no sentido de esclarecer – as relações sociais das quais é o suporte.

A historiadora Ana Maria Mauad defende a ideia de que a história contemporânea pode ser contada em imagens, devido ao papel central que a fotografia desempenha na formação de uma memória compartilhada pelas sociedades. O que tentei alcançar no percurso deste trabalho foram os dois lados dessa relação: como as imagens feitas por Mario Baldi compuseram o repertório visual sobre a alteridade cultural no Brasil; e como o crescente uso da imagem técnica a fez passear pelos mais diversos suportes midiáticos, desde palestras ilustradas, revistas até a literatura, o que nos permite abordar, através de uma trajetória individual, a especificidade de uma experiência histórica."

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