terça-feira, 15 de abril de 2014

Conhecendo Mario Baldi - parte 1

Entre os índios Bororo de Mato Grosso. 1934-35. Coleção Mario Baldi, Weltmuseum Wien.
Criar uma tese de doutorado partindo do pouco ou quase nada que se sabe a respeito de um assunto não é um desafio dos mais fáceis. Mas existem pessoas que, pelo prazer do saber, se dedicam a elas com todo afinco. Conforme noticiamos no início deste mês, nosso historiador Marcos Lopes é um desses apaixonados pelo conhecimento que decicidiu pesquisar a trajetória do fotógrafo austríaco Mario Baldi para nos mostrar o quanto ainda desconhecemos nossas próprias raízes, nosso próprio povo. Pedimos a ele então que elaborasse um texto bem básico e bem simples sobre sua tese a respeito, para que divulgássemos ainda mais o conhecimento sobre Baldi. Marcos nos preparou um texto magnífico e bem detalhado sobre todo o assunto. Leia a primeira parte a seguir:

"A pesquisa sobre o fotógrafo e jornalista austríaco Mario Baldi, que viveu no Brasil a partir de 1921 até 1957, começou sem aviso prévio. Em 2006, quando buscava documentos para uma pesquisa encomendada sobre um bairro rural da cidade de Teresópolis, num pequeno arquivo público, me deparei com algumas fotografias de 1922 que representavam tropeiros de batatas, com suas mulas. Eram imagens feitas pelo austríaco e que, como soube em seguida, faziam parte de uma coleção de milhares de fotos pouco catalogadas e nunca antes estudadas.


Nosso historiador Marcos Lopes, acompanhado pelo fotógrafo Leonardo Wen, analisando fotos de Mario Baldi.


Mario Baldi, nascido na Áustria e falecido no Brasil, foi um fotógrafo esquecido após a morte e amplamente desconhecido até meados da década de 2000. Alguns fatores contribuíram para isso, como as circunstâncias da sua morte e a trajetória dos seus documentos, fotografias e negativos. Durante os anos de 1954 e 1956, Etta Becker-Donner, então diretora do Museu de Etnologia de Viena (atual Weltmuseum), visitou o Brasil a fim de fazer trabalhos de campo etnográficos, linguísticos e arqueológicos no território de Rondônia. Na ocasião, adquiriu de Mario Baldi 30 fotografias produzidas entre os índios Bororo, Carajá e Tapirapé e levou para Viena a primeira fração da produção do fotógrafo. Em 1959, dois anos depois o trágico falecimento do fotógrafo entre os Tapirapé, o museu vienense recebeu parte de sua herança. Ainda que as condições deste envio e recebimento não estejam completamente esclarecidas, há boas chances de o prévio encontro entre Becker-Donner e Baldi ter contribuído para o deslocamento de parte da coleção para a Áustria. A parte do material recebido por Viena era composto por 386 objetos etnográficos da tribo dos Carajá e o que parecia ser seu arquivo fotográfico: quatorze caixas contendo ampliações ordenadas tematicamente, folhas-contato organizadas em cartões, mais de dez mil negativos e uma quantidade pequena de diapositivos. Apesar das inscrições esporádicas no verso das ampliações, o acervo não dispunha de informações documentais escritas, o que fez com que fosse catalogado de maneira primária, ainda que o seu valor e interesse tenham reconhecidos a partir do conteúdo visual da coleção.


Indiozinho Carajá retratado próximo à câmera de Baldi.


Passados quase 30 anos e sem o conhecimento do museu vienense, no fim dos anos 1980 o Serviço do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural (SPHAC) da Secretaria de Cultura da Prefeitura de Teresópolis (cidade do interior do Estado do Rio de Janeiro) recebeu, do escritor e médico Arthur Dalmasso (1920–2006), a outra parte da herança de Mario Baldi. A doação de Dalmasso incluía não só ampliações fotográficas e folhas-contato, mas também artigos ilustrados, cartas, diários e toda sorte de documentos próprios dos arquivos pessoais.

Nesta época, o SPHAC estava ainda começando suas atividades no campo da preservação dos acervos históricos da cidade de Teresópolis, cidade por onde Baldi circulou e residiu nos últimos anos da sua vida. O conjunto dos seus documentos foi o primeiro a compor um fundo arquivístico completo da instituição. A professora Regina Rebello, responsável pela recepção da doação e pela organização preliminar do material, observou que o acervo se tratava de uma preciosidade para a história local, pois continha relatos sobre a região serrana do Estado do Rio de Janeiro, especialmente sobre Teresópolis, feitas na década de 1920 por Baldi. Além disso, a diversidade cultural brasileira representada em milhares de fotografias de diversas regiões do país e um inédito diário da Primeira Guerra Mundial completavam o tesouro histórico e cultural que seria doravante preservado. Hoje sabemos que existem mais de 7.000 fotografias (entre contatos fotográficos e ampliações) na parte brasileira da coleção Mario Baldi.


Folha de Contato de Mario Baldi sobre os índios Carajá, datada de 1938, pertencente
ao Acervo Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural de Teresópolis.

A Tese de Doutorado em História Social que acabo de defender tem como título "Mario Baldi: fotografias e narrativas da alteridade na primeira metade do século XX". Minha intenção foi estudar como Baldi representou a alteridade cultural no Brasil, ou seja, como via, fotografava e narrava a existência de indivíduos que eram considerados “diferentes” e, mesmo assim, faziam – ou deveriam fazer – parte de um mesmo Brasil. Nesse sentido, selecionei as imagens e reportagens que tratavam dos índios brasileiros."

Continua...

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