quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Uma jarra com um "segredo"

Uma jarra em cristal com alça trabalhada: não é linda?

Dos muitos objetos curiosos e diferentes de nosso acervo, esta jarra em vidro cristal, de origem francesa, tem uma curiosidade especial: além do compartimento para reter o líquido a ser servido, na parte posterior, próximo à alça, existe um outro compartimento, acessado pela lateral da peça. Este recôndito era utilizado para acomodar gelo, tornando a bebida principal gelada.

Veja o "segredo": um compartimento separado para gelo.

Tal "tecnologia" do século XIX tem um porquê: o gelo viajava em navios que saíam dos pólos para as mais diferentes regiões do planeta, incluindo o Brasil, claro. Em geral, o gelo que chegava ao Rio de Janeiro vinha do pólo sul, ou de regiões frias mais ao norte, como a Patagônia Argentina - obviamente devido à proximidade com a cidade. As pedras de gelo se sujavam e, portanto, não eram "potáveis", e se degelassem se tratavam de água de má qualidade. Por este motivo o segredinho da bela jarra em cristal era o de separar o gelo do líquido a ser consumido de forma prática, simples e eficiente, resfriando o líquido sem contaminá-lo.

Note que a jarra era francesa, portanto tal "tecnologia" era utilizada em todo o globo (e o gelo vinha dos pólos!). Interessante, não?

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Uma piscina diferente

Esquema desenhado por Benjamin Constant Fraenkel, neto de Benjamin Constant, 
mostrando canteiros e a piscina da casa, onde hoje há o pátio interno.
Nosso museu casa ainda nos reserva muitas surpresas. Uma delas é saber que, no atual pátio interno da casa, havia uma "piscina" - ou um "tanque", como se chamava à época, já que era um elemento utilizado para banhos de higiene, e não para o lazer e o hedonismo, como as piscinas domésticas dos dias de hoje. Esta informação consta das narrativas de Benjamin Constant Fraenkel, filho de Aldina e Karl Fraenkel, neto de nosso patrono Benjamin Constant, em carta dirigida à nossa primeira museóloga e diretora, Hercília Canosa Viana. Veja abaixo como Fraenkel descreveu o espaço:

"A piscina, de frente à porta da cozinha que dava para área, tinha uma porta por baixo da escada do sobradinho, e subia-se uma escadinha de uns quatro degraus. Era a piscina cercada por uma parede larga, cuja parte lateral do morro ainda se conserva. O fundo era de ladrilhos de cerâmica vermelha, portuguesa, como os de cozinha, e tão vulgares naqueles tempos em todas as cozinhas. Era também cercada de venezianas pintadas de verde, e havia um espaço de uns 50 centímetros entre elas e o telhado de telhas canal. Existia também uma ducha de chicote.

Em seguimento à piscina, dois tanques amplos, com uma lage em declive e preparada para a esfrega da roupa, e fronteiros ao quarto de empregadas. Ao centro da área havia um canteiro elevado, aproximadamente de uns... 1,50 m por 4,50 m, cercado por um muro de 50 cm de alto por 30 cm de largo. Entre o muro e o canteiro, uma cerca de ripas terminadas em ponta, com altura de 80 cm, era pintada do mesmo verde das venezianas da piscina. Um tamarineiro, dentro do cercado, dava alguma sombra e poucos tamarinos (sic). Jasmins do céu, um pé de babosa e algum mato, acompanhavam o tamarineiro. O pé de babosa me chamava a atenção porque era usado por algumas empregadas para o cabelo, e para mim todas as plantas e os seus usos eram grande novidade.
"

Percebe-se ainda que existia também um sobrado sobre a casa, que foi modificada pela família várias vezes, durante o período em que permaneceu como usufruto de Maria Joaquina,esposa de Benjamin Constant, e de suas filhas, antes de ser entregue ao Estado para ser transformada em museu. A piscina e os tanques descritos por Fraenkel também foram removidos em uma destas obras.

Pátio interno onde ficava a "piscina tanque", atualmente.

Observe-se ainda um dado curioso: a família Constant se banhava com roupas e protegida dos olhares dos empregados por venezianas montadas ao redor da "piscina-tanque". A proteção feita com venezianas era necessária para manter o devido pudor que fazia parte da moral daqueles tempos, mesmo estando vestidos. Ou seja: não se "brincava na piscina" como nos dias que correm. Na época, os banhos eram difíceis, pois não havia água encanada - o que só foi acontecer na casa da família Constant no início do século XX - e era normal que a família se banhasse, para fins realmente higiênicos, em um tanque ou piscina a isto destinados.

Temos planos para realizar escavações sugeridas pelo próprio Fraenkel e recuperar o espaço da piscina transformando-o em um local de exposição com mais dados sobre os costumes da época. Cremos que será uma grata surpresa recuperarmos um elemento tão comum e, ao mesmo tempo, tão exótico, numa casa do século XIX.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Visita ilustre em nosso museu: Laurentino Gomes

Laurentino Gomes, jornalista, repórter e editor do jornal O Estado de São Paulo e da revista Veja. É também membro titular da Academia Paranaense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.


Aclamado pela crítica e pelo público devido a seus importantíssimos livros "1808" e "1822", Laurentino Gomes esteve em visita a nosso museu em fins de janeiro para conhecer a casa de um dos principais personagens de seu futuro livro: "1889". O autor está finalizando o escrito e ficou bastante satisfeito ao entrar em contato com o mundo de Benjamin Constant - um dos principais articuladores da mudança de regime, segundo ele - e perceber o que ainda temos preservado de sua memória e dia a dia. Sorridente e descontraído, Laurentino visitou também nosso acervo histórico e nossa biblioteca, de onde sairão alguns elementos iconográficos para a nova obra.

Os livros anteriores.

Estamos curiosos para saber qual será o subtítulo do novo livro, já que os anteriores tanto sucesso fizeram: em "1808" Laurentino destaca "Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil". E em "1822", "Como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil - um país que tinha tudo para dar errado". Quem viver verá!

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Noel Positivista


Nascido no Rio de Janeiro de 1910, Noel Rosa foi sambista, cantor, compositor, bandolinista e violonista, consagrado como um dos maiores e mais importantes artistas da música no Brasil. Sua contribuição para a legitimação do samba de morro no "asfalto", ou seja, entre a classe média e o rádio, principal meio de comunicação em sua época, é inegável.

Criado no bairro carioca de Vila Isabel, filho de um comerciante e de uma professora, Noel era de família de classe média, tendo estudado no tradicional Colégio São Bento, o que facilitou o acesso destes ritmos, antes pouco considerados no panorama das artes e da música brasileira, aos colegas e amigos de Noel. Curiosamente, em parceria com o poeta e jornalista Orestes Barbosa , criou a música "Positivismo", cuja letra pode ser vista abaixo:

Positivismo

Noel Rosa e Orestes Barbosa

A verdade, meu amor, mora num poço
É Pilatos lá na Bíblia quem nos diz
E também faleceu por seu pescoço
O autor da guilhotina de Paris

A verdade, meu amor, mora num poço
É Pilatos lá na Bíblia quem nos diz
E também faleceu por seu pescoço
O infeliz autor da guilhotina de Paris

Vai, orgulhosa, querida
Mas aceita esta lição:
No câmbio incerto da vida
A libra sempre é o coração

O amor vem por princípio, a ordem por base
O progresso é que deve vir por fim
Desprezastes esta lei de Augusto Comte
E fostes ser feliz longe de mim

O amor vem por princípio, a ordem por base
O progresso é que deve vir por fim
Desprezastes esta lei de Augusto Comte
E fostes ser feliz longe de mim

Vai, coração que não vibra
Com teu juro exorbitante
Transformar mais outra libra
Em dívida flutuante

A intriga nasce num café pequeno
Que se toma pra ver quem vai pagar
Para não sentir mais o teu veneno
Foi que eu já resolvi me envenenar

Segundo informações do "Portal Educar Brasil", tal música foi composta pelos autores pensando nas mudanças que aconteciam no Brasil no início dos anos 30. O tema - um homem pobre foi abandonado por sua amada em troca de uma vida de maior conforto e luxo - trata-se de uma crítica social, já que, nessa época, o progresso era a ideia fortemente difundida e diretamente vinculada às aquisições materiais.

Há gravações de Noel executando tal música e Jards Macalé - ator, cantor e compositor carioca - a regravou em 2003. Curta o vídeo:

 


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Um sublime conspirador

(continua do post anterior)

O deputado Demétrio Ribeiro.
O movimento de memória impulsionado pela elite política de então tem no projeto de Demétrio Ribeiro um bom exemplo. Submetido ao Congresso Nacional, propunha a transformação da casa de Benjamin Constant em um museu. Como o prédio fora deixado em usufruto da viúva, Maria Joaquina, situação aliás também garantida pela Carta de 1891, Demétrio Ribeiro sugeria que, após a morte de Maria Joaquina, fosse a casa “convertida em um museu de documentos de toda a sorte relativos à vida e feitos do ínclito cidadão”.

Estavam em jogo fatores decisivos para a formação da memória do regime, seja ela ancorada em lugares ou mesmo em pessoas. No caso de Benjamin Constant, ocorreram as duas coisas: foi vinculado ao patriotismo (“... grande patriota”), à cidadania (“... ínclito cidadão”) e à trajetória dos verdadeiros heróis (“... vida e feitos”); o ambiente em que vivia, sua residência de pedra e cal, ultrapassaria a função de casa, doravante ocupante de uma dimensão imaginária.

A referida lápide prevista pela Constituição de 1891 foi instalada apenas em 1937 mas, além de lembrar que ali morava Benjamin, retornou aos termos da Carta Magna para justificar a aquisição da casa para a Nação, um conceito caro ao Estado Novo. Já em 1958, Carlos Drummond de Andrade deu o parecer sobre a possibilidade de tombamento da casa como patrimônio. Novamente, aparece o texto de 1891:

"Estabelecida pela constituinte de 91 a historicidade da edificação, onde viveu e acalentou seus ideais republicanos aquele ilustre intelectual e homem público, resta apenas concretizar no Livro de Tombo próprio a inscrição respectiva."

As iniciais "A.M.S.C." em uma das sacadas do museu.

A musealização de Benjamin Constant foi incorporada também pela família do Fundador da República, que permaneceu na residência até o início do processo de abertura do museu. Construída por volta de 1860, a casa apresenta em uma de suas sacadas com grade de ferro as iniciais "A.M.S.C.", remetendo a Antonio Moreira Souza Costa, construtor e primeiro proprietário do prédio, foi totalmente ressignificada pela memória familiar, embebida da imagem pública de Benjamin fundada nos primórdios da República:

"Quando da primeira vez que vim, os quartos no corredor estavam ocupados: à direita, de quem se dirigia para a sala de jantar, o primeiro era da Tia Leopoldina, o segundo, o que foi de meu Avô, estava minha Avó. Nesse, que tinha as letras A.M.S.C., ouvi meu Tio Marciano dizer que significam “Aqui Morou Sublime Conspirador".

As palavras de Benjamin Fraenkel, neto de Benjamin Constant, registradas em uma carta à primeira diretora do museu, são emblemáticas do rico desenrolar da memória e suas ressignificações históricas. A ideia de que Benjamin Constant foi o Fundador da República incorporou sua imagem às vivências familiares e, por que não, às materialidades de uma casa, agora museu casa.

Maria Joaquina, esposa de Benjamin Constant, a primeira "museóloga" de nosso museu.
Aquilo que Benjamin Constant produziu, suas fotografias, cartas, discursos e livros, assim como os documentos familiares, hoje presentes no Arquivo Histórico do museu, testemunham o cuidado que teve a primeira guardiã da memória do patrono, sua viúva, Maria Joaquina. Seus descendentes, como ela, preservaram o acervo, esperando que a ideia latente de um museu pudesse se concretizar. Certamente lembravam e relembravam que era esse o destino da casa, vislumbrado por razoes específicas da República que surgia no fim do século XIX.

Hoje assumimos o museu como a primeira casa da República não desejando assim um distanciamento dos outros sítios históricos que representam esse período histórico, mas sim demarcando um processo dinâmico que compreendeu outras casas e figuras públicas. Convidamos, assim, a todos, para que venham conhecer os detalhes dessa rica história, colocando em perspectiva crítica as características que definem o espaço museal como historicamente relevante, como monumento e documento, tanto para os republicanos do fim do século XIX, quanto para aqueles que participaram da sua trajetória no século XX e também para a sociedade brasileira do século XXI.