quinta-feira, 28 de novembro de 2013

"Amor," - segunda parte

Marcos Felipe de Brum Lopes

Darcy Ribeiro, quando senador, apresentou projeto de lei alterando o lema da bandeira.

(leia o post anterior)

Talvez você não saiba, mas algumas pessoas já propuseram a discussão sobre o lema da bandeira do Brasil e a inclusão do “amor” para fazer companhia ao “ordem e progresso”. Outras discordaram. O que você acha?

A frase original, cunhada pelo filósofo positivista francês Augusto Comte, era “o amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim”. Quando a bandeira do Brasil república foi escolhida, entraram a ordem e o progresso, mas o amor ficou de fora. Vamos ver que figuras públicas participaram desse processo e quais se pronunciaram sobre o tema.

Século XIX
  • Raymundo Teixeira Mendes (1855-1927): matemático e positivista, coordenou a criação da bandeira do Brasil após a proclamação da República, ao mesmo tempo modificando e aproveitando a bandeira do império, que por sua vez havia foi feita a partir do desenho do pintor francês Jean-Baptiste Debret.

  • Décio Villares (1851-1931): pintor brasileiro do século XIX que pintou a bandeira do Brasil, sob os auspícios de Raymundo Teixeira Mendes. Aproximou-se do positivismo quando da sua estada na França e foi autor, entre outras obras, de retratos da família de Benjamin Constant (o Fundador da República) e do monumento ao positivista Júlio de Castilhos, em Porto Alegre.

  • Benjamin Constant (1837-1891): militar, matemático e professor, Benjamin Constant se aproximou do positivismo pelos seus estudos de matemática e participou da mudança do regime político do império para a república. Aprovou e apoiou junto a Deodoro da Fonseca a escolha da bandeira idealizada por Teixeira Mendes. Por sua influência junto à juventude militar no pré-1889 e sua atuação no Governo Provisório, recebeu postumamente o título de Fundador da República.
O cantor e compositor Jards Macalé é outra personalidade que está engajada na inclusão da palavra "Amor" no lema da bandeira brasileira.


Séculos XX e XXI
  • Darcy Ribeiro (1922-1997): antropólogo e político brasileiro, defendia a inclusão do amor na bandeira. Sobre a frase “ordem e progresso”, disse Darcy Ribeiro: “[Comte] nunca disse algo tão rude. Falava de ‘amor, ordem e progresso’, frase que eu proponho ser inscrita em nossa bandeira”. Para isso, combinou com José Sarney, então Presidente do Senado, a elaboração de emenda à constituição. Além da mudança do dístico da bandeira, Darcy Ribeiro planejou outra mudança: reduzir o nome do país apenas para Brasil, abandonando a designação República Federativa do Brasil. (RIBEIRO, Darcy. Confissões. São Paulo: Cia. das Letras, 1997, p.497)

Veja seu projeto de lei aqui:
https://www.facebook.com/media/set/?set=a.615884341791731.1073741831.605068736206625&type=1

  • Jards Macalé (1943-): músico que defende a inclusão do amor na bandeira nacional. Segundo ele próprio, numa entrevisto ao Cultura.rj: “É uma questão de verdade histórica. O (Auguste) Comte não escreveu: “Amor por princípio, ordem por base e progresso por fim”(?) Então porque cortaram o amor? Eu quero saber o porquê. Acho isso um absurdo. Eu quero colocar o amor na bandeira brasileira, essa é a minha missão. Não por uma questão de ponto de vista, mas poética. Uma questão político-poética. O amor é a maior arma política que existe”.

  • Carlito Maia (1924-2002): publicitário que defendeu o amor na bandeira do Brasil, teria escrito (segundo Eduardo Suplicy): “'Amor como base, a Ordem como meio e o Progresso como fim', tripé em que se apoiou o filosofo francês Augusto Comte (1798 – 1857) para sistematizar a filosofia do positivismo, abraçada pelos generais anti-monarquistas, desaguando na República dos Bananas (15/11/1889). Mas na hora do dístico do novo pavilhão nacional, a confa: queriam o tripé de Comte, sim, mas implicaram com o ‘Amor’ (‘parece coisa de viado’, teria dito um), daí só Ordem e Progresso. Se fossem Acordem e Progresso, até que eu topava, mas, não, e deu no que deu. Amputaram a perna do ‘Amor’ no tripé, sempre caindo pelas tabelas, claro, tripé com duas pernas não se mantém em pé. Venho lutando, faz tempo, com o precioso apoio de Otto Lara, para que o ‘Amor’ esteja não só no lema como no coração dos governantes (os que o têm). Acho, porém, que uma bandeira sem vermelho não tá com nada: que tal um coração bem vermelhão na parte superior do globo azul do auriverde pendão? Como homem de comunicação, estou certo de que renderia boas manchetes na imprensa mundial. ‘Brasil tem amor na bandeira!’ O Brasil da gente se amando adoidado, a luz no fundo do túnel – uma glória. Então, vocês aí do Congresso? Amor, Ordem e Progresso! Salve o Amor! Viva o Brasil!

O Senador Eduardo Suplicy foi o último a apresentar projeto de lei alterando a bandeira.
  •  Chico Alencar (1949-): político brasileiro, autor do Projeto de Lei nº 2.179, que altera a Lei nº 5.700 de 1971 com o objetivo de incluir a palavra amor na bandeira nacional. Para justificar sua proposta, Alencar afirma que: “Tal redução fez perder a essência do lema original, que procura resumir o positivismo como a religião do amor, a religião da ordem ou a religião do progresso. Em outras palavras: o amor procura a ordem e leva ao progresso; a ordem consolida o amor e dirige o progresso; o progresso desenvolve a ordem e conduz ao amor. A presente proposição pretende resgatar a essência do lema original do Positivismo nos dizeres da Bandeira Nacional (...)”.
Fonte: http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra;jsessionid=054E29D0F3C82D1845BCE609A395D69E.node1?codteor=173893&filename=Avulso+-PL+2179/2003)

  • Eduardo Suplicy (1941-): economista e político, defende a inclusão do amor na bandeira nacional: “Ordem e Progresso é o lema nacional da República Federativa do Brasil a partir do momento de sua formação. A expressão é utilizada como dístico da Bandeira Nacional do Brasil, que fora idealizada por Raimundo Teixeira Mendes e pintada, pela primeira vez, pelo artista Décio Villares. Contudo, os autores não foram felizes ao retirar do lema a sua palavra mais importante, que seria “amor”. Isso apequenou a Bandeira Nacional, de modo que nós a consideramos, de certa forma, incompleta.” 
Fonte: http://www.senado.gov.br/atividade/plenario/sessao/disc/getTexto.asp?s=244.2.54.O&disc=13/3/S
  • Pedro Taques (1968-): advogado e senador, posicionou-se contrário ao pleito de Chico Alencar e Eduardo Suplicy para incluir o amor na bandeira: “A República Federativa do Brasil não precisa do amor na Constituição. Precisa escrever na bandeira, quem sabe, mais honestidade, mais decência, mais trabalho, mais organização. Esse lema do Positivismo, do final e meados do século XIX, é histórico, mas não é científico, como nós todos sabemos. Agora, respeitando o Deputado que apresentou esse projeto, um congresso nacional e um país que precisam colocar na sua bandeira a expressão “amor”, o termo “amor”, o símbolo, o signo “amor”, isso pode ser motivo de piada no mundo todo. Eu quero expressar a V. Exª o meu respeito. Agora, a República Federativa do Brasil precisa de mais trabalho, mais decência. Nós todos temos que amar o próximo como a nós mesmos. Nós todos sabemos disso. Agora, nós temos muito mais o que fazer nesta Pátria do que projetos dessa qualidade”.

  • Cristovam Buarque (1944-): engenheiro, economista, educador e político, não apoiou o apelo de Eduardo Suplicy e Chico Alencar, defendendo a inclusão da frase “educação é progresso” na bandeira do Brasil, caso a ela fosse modificada: “de qualquer maneira, se fôssemos fazer uma bandeira para o povo brasileiro, seria preciso tirar tudo o que está escrito, porque dez milhões não sabem ler, ou seja, não conhecem a sua bandeira. Se misturarmos as letras Ordem e Progresso ou, se botar em qualquer outro idioma, eles vão achar que é a mesma bandeira. Os republicanos passaram quatro dias depois do dia 15 de novembro para saber onde é que estavam as estrelinhas no céu naquela noite. É por isso que ela tem aquela arrumação. E não perceberam que, naquela época, 75% dos brasileiros não sabiam ler. Portanto, não iam conhecer a sua bandeira. A maior prova de elitização que temos é a dos primeiros republicanos, positivistas, que escreveram o texto para um povo analfabeto, e, 123 anos depois, continuamos não só com o analfabetismo, mas com duas vezes mais analfabetos do que naquela época. Diminuiu a percentagem de 65% para 10%, mas o número cresceu. Então, vamos fazer uma bandeira que ajude o brasileiro a compreendê-la, sem nada escrito ou, alfabetizamos todos os brasileiros para escrever Ordem e Progresso, Amor ou o que seja. De qualquer maneira é um problema geométrico: é que não cabe mais uma palavra no pequeno espaço que nós temos”.

Bota amor nessa bandeira: movimento de base filosófica, moral e religiosa (inclinação ecumênica) pela inclusão do amor na bandeira do Brasil, criado por Bruno Silveira (advogado), Deodato Rivera (filósofo e cientista político) e Melina Ollandezos (professora e artista plástica).
http://www.botaamornessabandeira.com.br

Inclua amor na bandeira: movimento na internet pela inclusão do amor na bandeira, com abaixo-assinado.
http://incluaamornabandeira.org
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E você? Já votou na nossa enquete?


O amor deve estar na bandeira?
Sim
Não


2 comentários:

  1. Não se encontra explicação em pesquisas para a omissão da palavra amor antecedendo as palavras Ordem e Progresso. Leva dúvida: teria havido falta de consenso... Distração de quem a confeccionou, e deixaram por isso mesmo? Ou foi proposital da equipe...

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  2. Prezado José Aloísio,
    Por favor leia nosso post anterior - "'Amor,' - primeira parte" - onde há a explicação para a retirada da palavra 'amor' do lema da bandeira. Está em: http://museubenjaminconstant.blogspot.com.br/2013/11/amor-primeira-parte.html

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