terça-feira, 19 de novembro de 2013

"Amor," - primeira parte




Adaptação de texto do historiador Marcos Felipe de Brum Lopes 

O lema "Ordem e Progresso" é bastante conhecido do povo brasileiro pois figura na bandeira nacional. A maioria de nós, porém, desconhece que havia uma terceira palavra, companheira daquelas duas, na sentença original, positivista : “o amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim”, era o lema original que fazia parte dos pensamentos filosóficos do francês Augusto Comte, sintetizador da doutrina positivista, também chamada por seus adeptos de "Religião da Humanidade". Não é fácil a compreensão do significado dessa ideia dentro do pensamento positivista, pois remete à interpretação das fases evolutivas necessárias ao caminhar humano e também ao significado dos números na ciência suprema, a matemática.

Especificamente no caso da bandeira brasileira, a presença do dístico positivista – retirada a palavra "Amor" – aponta para o papel fundamental dos positivistas na virada do império para a república, sobretudo para a atuação de Benjamin Constant, matemático, educador e componente do Governo Provisório, e um dos propagadores da doutrina de Comte em nosso país.


O quadro "A Pátria", de Pedro Bruno, é uma alegoria à confecção da bandeira nacional.
Em face das diversas discussões à época da Proclamação da República, sobre como deveria ser a bandeira da nova nação, coube a Décio Villares renovar o velho símbolo imperial, dando a ele uma face nova, sem eliminar toda a sua carga simbólica. O pintor, positivista que era e já tendo pintado vários quadros da família de Benjamin Constant, recebeu instruções de Teixeira Mendes, principal liderança do Apostolado Positivista. Esta organização, na tarde do dia 15 de novembro de 1889, redigiu uma mensagem ao governo revolucionário, com a proposta de que “o governo provisório adotasse a divisa 'Ordem e Progresso', conforme as indicações de Augusto Comte”. Também Benjamin Constant teria afirmado em um encontro com o Apostolado que “a República não podia encontrar melhores luzes do que na Religião que se resume na fórmula: 'o amor por princípio, e a ordem por base; o progresso por fim' ”. Nada ficou registrado porém, sobre a ausência do "Amor" na configuração final da bandeira.

Mas diversas foram as reações contrárias à bandeira. O peso do positivismo, tácito na s palavras "Ordem e Progresso", era a razão da resistência de muitos. Até mesmo o Bispo do Rio de Janeiro teria se recusado a abençoar a bandeira pois, segundo ele, representava uma seita contrária ao catolicismo. Mas, a pergunta segue: por que teriam excluído o amor da tríplice equação positivista? Segundo Teixeira Mendes, entre outras várias coisas, para Comte, “o progresso é o desenvolvimento da ordem, como a ordem é a consolidação do progresso”. Além disso, o princípio seria o amor, e é possível se aproximar amor de fraternidade, palavra apreciada por todos os que se identificavam com a filosofia e a história da França.


Teixeira Mendes, um dos principais envolvidos na criação da bandeira da república nascente.

Diante do peso do amor fraterno na filosofia positivista, seria de se estranhar a ausência do amor na bandeira, já que os argumentos usados por Teixeira Mendes para justificá-la recorrem mais de uma vez às idéias de fraternidade e senso de coletividade em busca de um progresso ordeiro. Curiosamente, nem Mendes nem os outros compiladores da vida de Benjamin Constant, ou da doutrina positivista, explicam a razão da ausência do amor na bandeira, já que os argumentos que usam para defender o positivismo estejam notoriamente vinculados à ideia de fraternidade. No pensar de Teixeira Mendes, o lema comteano era regenerador e um resumo da política moderna.

Talvez o motivo de exclusão da palavra "Amor" (equivalente, na doutrina Positivista ao "viver para outrem"), tenha sido a vinculação que Comte estabeleceu entre a divisa e a participação feminina nas manifestações públicas. Segundo ele, a bandeira para serviços religiosos deveria apresentar a frase “o amor pro princípio, a ordem por base e o progresso por fim”, acompanhada da figura da humanidade (uma mulher de 30 anos com uma criança nos braços) e pintada em tela. A bandeira política, por sua vez, deveria ser verde, “comum a todo o ocidente. (...) A divisa principal do positivismo será, nesse caso, dividido em dois, mas igualmente significativos. Um lado da bandeira terá a divisa política e científica, Ordem e Progresso; o outro, a divisa moral e estática, Viver para Outrem. O primeiro será preferido pelos homens, o outro é especialmente adaptado às mulheres, que são então chamadas a participar nessas manifestações públicas de sentimento social”.
 
Sempre que Teixeira Mendes veio a público para defender a bandeira, afirmando que havia seguido às instruções do mestre Augusto Comte, não assume que obedeceu somente em parte o layout proposto pelo filósofo francês. Tiveram os positivistas receio de gerar discussões sobre a participação política das mulheres?


Obra da artista plástica Claudia Hersz, pertencente à Intervenção Artística "Amor,",
que acontece agoraem nosso museu casa. Veja como o "Amor", pode ficar bem
"no centro" da questão...
Se for o caso, vemos que as leis positivistas eram sagradas para o Apostolado, mas até certo ponto. A infalibilidade de Comte e sua síntese filosófica definitiva poderiam sofrer limitações no atos políticos, segundo contextos específicos. Entretanto, esse motivo aparente para a exclusão do amor – sua vinculação à participação política feminina – merece análise mais cuidadosa.

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Fizemos aqui uma resumida adaptação do texto de nosso historiador, Marcos Lopes - que você pode ler por inteiro no Facebook, clicando aqui. A partir de diversas considerações históricas sobre a supressão da palavra "Amor" do lema da bandeira nacional, a intenção é a de iniciar uma reflexão sobre se tal palavra deve ou não ser re-introduzida em nossa bandeira.

Nossa pretensão - e do Museu da República, que divide conosco a proposta de discutir o assunto - é a de apenas e tão somente "mexer", "instigar" as mentes mais abertas para o assunto, numa perspectiva cultural e histórica, sem qualquer caráter político.

Para tanto, além da exposição "Amor," que foi inaugurada no último domingo, dia 17, em nosso museu, é acompanhada da página de mesmo nome no Facebook, de modo a provocar a discussão e a manifestação dos interessados no tema, até o próximo dia 22 de dezembro. Todo este movimento estará acompanhado de uma enquete virtual, de modo que todos se manifestem, opinando se são a favor ou contra a inclusão da palavra "Amor" no lema da bandeira nacional.Assim que tal enquete for ao ar, avisaremos aqui.

Nossa esperança é a de renovar e de jogar luzes sobre um tema que já foi reconhecido e levado ao Congresso Nacional mais de uma vez, padecendo no entanto, da continuidade da discussão por parte de nossos representantes.

Continua...

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