quarta-feira, 11 de setembro de 2013

1889: Laurentino Gomes e o "professor injustiçado"


"Como um imperador cansado, 
um marechal vaidoso e
um professor injustiçado
contribuíram para o fim da Monarquia
e a Proclamação da República no Brasil."

Conhecido e reconhecido por duas obras de importância inegável publicadas nos últimos anos - "1808", sobre o estabelecimento da corte portuguesa, e "1822", sobre a Proclamação da Independência no Brasil - o jornalista Laurentino Gomes termina sua "trilogia" sobre três momentos históricos de nosso país com seu novo livro, "1889". Conforme adiantamos aqui, aguardávamos pelo sempre irônico e descontraído subtítulo, que citamos acima. Por ele, percebe-se que a Proclamação da República teve como personagens principais "o imperador cansado" - D. Pedro II - "o marechal vaidoso" - Deodoro da Fonseca - e o "professor injustiçado" - Benjamin Constant.

Interessante confirmar que o destaque que o autor concede à figura de Benjamin vai ao encontro de nossos registros históricos: de fato, Benjamin foi "o cabeça" - ou "a cabeça" - do movimento republicano. O mentor que toda revolução desta ordem precisa, promovendo discussões e reflexões acerca do momento em que se vive. Benjamim realizou inúmeras reuniões e encontros com os jovens militares de quem era Professor e Mestre para discutir a situação da farda - a chamada "Questão Militar", já abordada em post deste blog - e também para convocá-los a imaginar como seria o estabelecimento de uma república no país. Cabe ressaltar a crença de Benjamin no Positivismo* de Auguste Comte, que pregava a chegada ao chamado "Estado Positivo" que representaria "o progresso da humanidade". Portanto, nestas reuniões, os jovens oficiais absorviam ideias positivistas e também republicanas, abolicionistas e evolucionistas, o que os levava a desejar exigir seus direitos, contrariando o regime monárquico.

Laurentino Gomes em sua visita a nosso museu.


No capítulo dedicado à Benjamin Constant, com sua prosa leve e fiel aos fatos pesquisados, Gomes nos traz curiosidades sobre o "Fundador da República", tais como o fato de ter sido convidado pelo imperador D. Pedro para dar aulas de matemática a seus netos - coisa que Benjamin desistiu por não suportar o mau comportamento dos príncipes... Mas também demonstra como o tenente coronel, que não gostava da farda, teve importância capital nos rumos da mudança do regime. O autor destaca o trecho do livro do historiador José Murilo de Carvalho onde ele coloca Benjamin como "o catequista, o apóstolo, o evangelizador, o doutrinador, a cabeça pensante, o preceptor, o mestre, o ídolo da juventude militar". O livro evidencia portanto a importância de Benjamin Constant em nossa história, à época da proclamação, de modo inequívoco.

Mas 1889 não se prende aos personagens principais da república nascente. Gomes nos traz à mente o porquê de o novo regime não ter "contagiado" a população da época da mudança nem depois, inclusive nos nossos dias. O autor demonstra que os livros de história encontrados em qualquer escola mostram muito mais o período do Brasil monárquico e do Brasil imperial do que do Brasil republicano. Por outro lado, ressalta que, nos últimos anos, houve um real crescimento do interesse da população por sua história, o que só vem a contribuir para que sejamos uma pátria mais congruente com seu passado - fato a ser comemorado por todos, é claro.

O polêmico quadro de Bernardelli onde se destaca o Marechal Deodoro em detrimento
de figuras capitais para a Proclamação da República como Benjamin Constant e
Quintino Bocaiúva, relegados às sombras da tela.


O livro também faz um resgate importante da memória do período republicano: apesar de, no seu primeiro momento, o novo regime não ter provocado nenhum derramamento de sangue - foi um verdadeiro "passeio militar", segundo alguns autores citados - nos dez anos posteriores à 1889 o país passou por diversos conflitos regionais que sacrificaram muitos de seus cidadãos. Os episódios da Revolta da Armada e da Guerra de Canudos são lembrados como exemplos de consequências do estabelecimento de uma república distante de seu povo, proclamada quase que exclusivamente por uma "irritação" de um marechal somada à inação de um imperador. E estes são apenas alguns dos fatos que 1889 nos revela e esclarece. Em suas páginas é possível ter uma boa ideia das personalidades envolvidas no processo republicano, em como este acontecimento se deu e em suas repercussões. Sem dúvida, mais uma obra de alta qualidade de Laurentino Gomes.

Assista abaixo ao "trailler book":


Clique aqui para assistir a uma entrevista de Laurentino Gomes sobre o livro, realizada pelo programa "Literatura", da GloboNews.

*Leia nossos posts sobre o Positivismo.

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