sexta-feira, 23 de agosto de 2013

A fotografia no século XIX -os primórdios - parte II

*Texto de Marcos Felipe de Brum Lopes, historiador

Leia a primeira parte deste post

O daguerreótipo não era apenas uma imagem fotográfica. Era uma encenação e uma exposição social. A placa de metal, depois que recebia a imagem, era colocada cuidadosamente num estojo adornado. O possuidor de um daguerreótipo poderia abrir o estojo sempre que tivesse uma visita em sua residência, mostrando uma imagem posada, altiva e imponente. Uma das características da fotografia do século XIX era que seus produtores, modelos e admiradores a tinham como espelho da realidade. O status necessário ao locus social da burguesia encontrara o lugar ideal para sua existência: a superfície de um daguerreótipo. O estúdio fotográfico era o santuário onde a magia acontecia, com seus cenários repetidores de um mundo externo que se reproduzia dentro de uma sala. Como descreveu a fotógrafa e socióloga Gisèle Freund, “o estúdio do fotógrafo torna-se assim no armazém de acessórios de um retrato onde, para todos os papeis sociais, são preparadas máscaras de caráter”.

Hércule Florence, pioneiro da fotografia no Brasil.

Já o calótipo abriu as portas à experimentação da fotografia como imagem de repetição. Talbot perseguiu três etapas da fotografia: exposição, fixação e reprodução. Ele foi o primeiro a publicar um livro com originais fotográficos, em 1844. O sugestivo nome da obra era "The pencil of nature" ("O lápis da natureza"), fazendo eco à afirmação de Daguerre de que a fotografia dá à natureza a capacidade de se reproduzir, com a diferença de que o calótipo permitia uma reprodução ao infinito. O calótipo produzia um positivo por contato, ou seja, o negativo era colocado num “sanduíche” de vidro e exposto à luz solar em contato com um papel salgado.

Toda a história que leitor acaba de conhecer ocorreu entre os anos de 1826, com Niépce, e 1844 com o livro de Talbot. França e Inglaterra monopolizam a invenção da fotografia. Ou será que não...?

O que o leitor diria se afirmássemos que a fotografia foi descoberta no Brasil? Mais: a fotografia foi descoberta no interior do Estado de São Paulo, por um francês de uma expedição científica russa. Seu nome era Hércule Florence, desenhista e riscador da Expedição Langsdorff, patrocinada pelo governo russo. Depois de finda a expedição, que permaneceu no Brasil de 1824 até 1829, Florence veio a morar em Campinas, quando esta ainda se chamava Vila de São Carlos.

Fotografia feita por Florence no interior do Brasil.
Fonte: http://8a2-historiadafotografia.blogspot.com.br

Florence tinha ansiedades similares às de Talbot, pois, como desenhista naturalista, precisava reproduzir com fidelidade o que via com olhos científicos. Em condições sempre transitórias típicas de expedições, deveria gastar o menor tempo possível com seus desenhos. Somando a isso seus conhecimentos das propriedades sensíveis à luz de certos elementos químicos, Florence começou a experimentar e acabou desenvolvendo algo que chamou de fotografia. Vale o registro: durante muito tempo o neologismo foi atribuído ao filósofo britânico John Herschel, que teria cunhado o termo "photography" em 1839. Ocorre que Hercule Florence, em 1834, utilizou a mesma palavra para descrever as imagens que produzia precariamente no interior do Brasil.

Em que consistia o processo fotográfico de Florence? Em primeiro lugar, o francês teria tentado um processo parecido com o de Daguerre: uma câmera obscura e um papel sensibilizado dentro dela. Devido a precariedade de sua câmera, que permitia a entrada desmesurada de luz, Florence decide abandoná-la e passa a utilizar a impressão direta da luz solar. Imagine o leitor um papel banhado em nitrato de prata; um pedaço de vidro em que Florence desenhava com tinta preta (uma mistura de goma arábica e fuligem socada). Florence então posicionava o vidro sobre o papel e expunha ambos à luz solar. As partes pintadas do vidro não permitiam a passagem da luz, ao passo que os raios luminosos que passavam pelas áreas transparentes do vidro produziam uma imagem no papel sensível. Finalmente, a imagem era fixada mediante um curioso banho de urina, já que a amônia era um eficaz fixador. A esse processo Florence, um inventor no exílio, denominou-o como fotografia.

Ilustração de índio Apiaká, datada de 1828, feita por Hercule Florence
no âmbito da Expedição Langsdorf.
Fonte: http://pib.socioambiental.org

Hércule Florence não obteve sucesso junto à comunidade científica para divulgar suas descobertas. Concomitantemente Daguerre recebia aplausos e dinheiro do outro lado do Atlântico. Numa roda de amigos, Florence recebe a notícia recentemente publicada no Jornal do Commércio, de que a fotografia teria sido descoberta. O que não era novidade alguma para ele foi descrito ironicamente pelo inventor frustrado e exilado: “... sabe do belo descobrimento que acaba de fazer-se? Oh! É admirável! Um pintor de Paris achou o meio de fixar as imagens na câmera escura. Li isso no Jornal do Commercio! Ele coloca no seu interior uma placa de prata, impregnada de um sal que muda de cor, pela ação da luz, e chegou até a obter duas ou três cores”.

Vê o leitor que o Brasil tem seu lugar nesta história plural e de episódios superpostos. Os franceses do século XX não se alegraram com a divulgação, nos anos 1970-1980, das descobertas de Florence, há muito esquecidas e resgatadas pelo historiador e fotógrafo Boris Kossoy. O Brasil não poderia retirar da Europa a honra de ser o berço da fotografia, pensavam os franceses. As histórias das fotografias são um bom exemplo de que a História não é um consenso, tampouco mera narrativa do passado, mas um campo de disputa e conflito, de rememorações e silenciamentos. Não se pode obter uma única e unívoca fotografia do passado.

Clique aqui para ler o próximo post desta série: as técnicas

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigada por comentar. Sua visita é muito importante para nós!