quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Uma piscina diferente

Esquema desenhado por Benjamin Constant Fraenkel, neto de Benjamin Constant, 
mostrando canteiros e a piscina da casa, onde hoje há o pátio interno.
Nosso museu casa ainda nos reserva muitas surpresas. Uma delas é saber que, no atual pátio interno da casa, havia uma "piscina" - ou um "tanque", como se chamava à época, já que era um elemento utilizado para banhos de higiene, e não para o lazer e o hedonismo, como as piscinas domésticas dos dias de hoje. Esta informação consta das narrativas de Benjamin Constant Fraenkel, filho de Aldina e Karl Fraenkel, neto de nosso patrono Benjamin Constant, em carta dirigida à nossa primeira museóloga e diretora, Hercília Canosa Viana. Veja abaixo como Fraenkel descreveu o espaço:

"A piscina, de frente à porta da cozinha que dava para área, tinha uma porta por baixo da escada do sobradinho, e subia-se uma escadinha de uns quatro degraus. Era a piscina cercada por uma parede larga, cuja parte lateral do morro ainda se conserva. O fundo era de ladrilhos de cerâmica vermelha, portuguesa, como os de cozinha, e tão vulgares naqueles tempos em todas as cozinhas. Era também cercada de venezianas pintadas de verde, e havia um espaço de uns 50 centímetros entre elas e o telhado de telhas canal. Existia também uma ducha de chicote.

Em seguimento à piscina, dois tanques amplos, com uma lage em declive e preparada para a esfrega da roupa, e fronteiros ao quarto de empregadas. Ao centro da área havia um canteiro elevado, aproximadamente de uns... 1,50 m por 4,50 m, cercado por um muro de 50 cm de alto por 30 cm de largo. Entre o muro e o canteiro, uma cerca de ripas terminadas em ponta, com altura de 80 cm, era pintada do mesmo verde das venezianas da piscina. Um tamarineiro, dentro do cercado, dava alguma sombra e poucos tamarinos (sic). Jasmins do céu, um pé de babosa e algum mato, acompanhavam o tamarineiro. O pé de babosa me chamava a atenção porque era usado por algumas empregadas para o cabelo, e para mim todas as plantas e os seus usos eram grande novidade.
"

Percebe-se ainda que existia também um sobrado sobre a casa, que foi modificada pela família várias vezes, durante o período em que permaneceu como usufruto de Maria Joaquina,esposa de Benjamin Constant, e de suas filhas, antes de ser entregue ao Estado para ser transformada em museu. A piscina e os tanques descritos por Fraenkel também foram removidos em uma destas obras.

Pátio interno onde ficava a "piscina tanque", atualmente.

Observe-se ainda um dado curioso: a família Constant se banhava com roupas e protegida dos olhares dos empregados por venezianas montadas ao redor da "piscina-tanque". A proteção feita com venezianas era necessária para manter o devido pudor que fazia parte da moral daqueles tempos, mesmo estando vestidos. Ou seja: não se "brincava na piscina" como nos dias que correm. Na época, os banhos eram difíceis, pois não havia água encanada - o que só foi acontecer na casa da família Constant no início do século XX - e era normal que a família se banhasse, para fins realmente higiênicos, em um tanque ou piscina a isto destinados.

Temos planos para realizar escavações sugeridas pelo próprio Fraenkel e recuperar o espaço da piscina transformando-o em um local de exposição com mais dados sobre os costumes da época. Cremos que será uma grata surpresa recuperarmos um elemento tão comum e, ao mesmo tempo, tão exótico, numa casa do século XIX.

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