sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Um sublime conspirador

(continua do post anterior)

O deputado Demétrio Ribeiro.
O movimento de memória impulsionado pela elite política de então tem no projeto de Demétrio Ribeiro um bom exemplo. Submetido ao Congresso Nacional, propunha a transformação da casa de Benjamin Constant em um museu. Como o prédio fora deixado em usufruto da viúva, Maria Joaquina, situação aliás também garantida pela Carta de 1891, Demétrio Ribeiro sugeria que, após a morte de Maria Joaquina, fosse a casa “convertida em um museu de documentos de toda a sorte relativos à vida e feitos do ínclito cidadão”.

Estavam em jogo fatores decisivos para a formação da memória do regime, seja ela ancorada em lugares ou mesmo em pessoas. No caso de Benjamin Constant, ocorreram as duas coisas: foi vinculado ao patriotismo (“... grande patriota”), à cidadania (“... ínclito cidadão”) e à trajetória dos verdadeiros heróis (“... vida e feitos”); o ambiente em que vivia, sua residência de pedra e cal, ultrapassaria a função de casa, doravante ocupante de uma dimensão imaginária.

A referida lápide prevista pela Constituição de 1891 foi instalada apenas em 1937 mas, além de lembrar que ali morava Benjamin, retornou aos termos da Carta Magna para justificar a aquisição da casa para a Nação, um conceito caro ao Estado Novo. Já em 1958, Carlos Drummond de Andrade deu o parecer sobre a possibilidade de tombamento da casa como patrimônio. Novamente, aparece o texto de 1891:

"Estabelecida pela constituinte de 91 a historicidade da edificação, onde viveu e acalentou seus ideais republicanos aquele ilustre intelectual e homem público, resta apenas concretizar no Livro de Tombo próprio a inscrição respectiva."

As iniciais "A.M.S.C." em uma das sacadas do museu.

A musealização de Benjamin Constant foi incorporada também pela família do Fundador da República, que permaneceu na residência até o início do processo de abertura do museu. Construída por volta de 1860, a casa apresenta em uma de suas sacadas com grade de ferro as iniciais "A.M.S.C.", remetendo a Antonio Moreira Souza Costa, construtor e primeiro proprietário do prédio, foi totalmente ressignificada pela memória familiar, embebida da imagem pública de Benjamin fundada nos primórdios da República:

"Quando da primeira vez que vim, os quartos no corredor estavam ocupados: à direita, de quem se dirigia para a sala de jantar, o primeiro era da Tia Leopoldina, o segundo, o que foi de meu Avô, estava minha Avó. Nesse, que tinha as letras A.M.S.C., ouvi meu Tio Marciano dizer que significam “Aqui Morou Sublime Conspirador".

As palavras de Benjamin Fraenkel, neto de Benjamin Constant, registradas em uma carta à primeira diretora do museu, são emblemáticas do rico desenrolar da memória e suas ressignificações históricas. A ideia de que Benjamin Constant foi o Fundador da República incorporou sua imagem às vivências familiares e, por que não, às materialidades de uma casa, agora museu casa.

Maria Joaquina, esposa de Benjamin Constant, a primeira "museóloga" de nosso museu.
Aquilo que Benjamin Constant produziu, suas fotografias, cartas, discursos e livros, assim como os documentos familiares, hoje presentes no Arquivo Histórico do museu, testemunham o cuidado que teve a primeira guardiã da memória do patrono, sua viúva, Maria Joaquina. Seus descendentes, como ela, preservaram o acervo, esperando que a ideia latente de um museu pudesse se concretizar. Certamente lembravam e relembravam que era esse o destino da casa, vislumbrado por razoes específicas da República que surgia no fim do século XIX.

Hoje assumimos o museu como a primeira casa da República não desejando assim um distanciamento dos outros sítios históricos que representam esse período histórico, mas sim demarcando um processo dinâmico que compreendeu outras casas e figuras públicas. Convidamos, assim, a todos, para que venham conhecer os detalhes dessa rica história, colocando em perspectiva crítica as características que definem o espaço museal como historicamente relevante, como monumento e documento, tanto para os republicanos do fim do século XIX, quanto para aqueles que participaram da sua trajetória no século XX e também para a sociedade brasileira do século XXI.

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