quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Uma casa para a República


 


Nossa série de três pequenos textos sobre os antecedentes e a Proclamação da República (veja aqui o primeiro deles), publicada no fim de 2012, terminou lembrando que a morte de Benjamin Constant foi seguida da construção da imagem heroica, a ponto de ter recebido o título de "Fundador da República". Lembramos, também, que esses fatos foram os marcos fundadores do nosso museu que, ainda que tenha sido aberto ao público em 1982, foi pensado pouco tempo depois da Proclamação da República. Neste e no próximo post nos dedicaremos a trabalhar as ideias de "museu casa" e as razões históricas pelas quais passamos a denominar nosso museu de “a primeira casa da República”.

Os museus casa são instituições museológicas que, em determinado período histórico, serviram como residência de uma pessoa e, no mais das vezes, de sua família. Seus edifícios foram originalmente construídos para moradia e não para que abrigassem acervos preserváveis ou contassem histórias relevantes. A transformação de residências em museus, em muitos casos, preserva e tenta conjugar as duas práticas sociais de morar e rememorar, o que justifica o binômio museu-casa e, habitualmente, o faz devido à relevância história de seus moradores, reconhecida por uma sociedade por diversas razões.

Este processo transforma as casas residenciais em monumentos erguidos às suas próprias sociedades. Além de monumentos, os museus casa são documentos, pois, ao articular a narrativa biográfica do seu patrono com seus edifícios, seu entorno e seus acervos, reconhecem sua trajetória como suporte de relações sociais históricas. Redefinir o museu casa como monumento/documento é essencial para caracterizá-lo como museu de história, caso que se aplica ao Museu Casa de Benjamin Constant. Vejamos como isso acontece, em nosso caso.

Lápide fixada na fachada da casa que foi de Benjamin Constant, hoje nosso museu casa.

Mais de uma vez Benjamin Constant sinalizou que recusaria ser o líder máximo do governo, deixando claro que não disputaria as eleições para Presidente da República, caso fosse indicado para a corrida eleitoral. Esse é um dos indícios de que Benjamin nunca desejou estar na mira de holofotes ou ser olhado como heroi. Sua militância, se podemos usar a palavra, era a ciência e a educação. Benjamin Constant tinha um objetivo pessoal que levou consigo durante seus dois últimos anos de vida: reformar o ensino no Brasil. Certa vez afirmou que “o engrandecimento da República repousa essencialmente sobre a educação". Muito se esforçou para isso, recusou trabalhos que poderiam lhe trazer prestígio e antes de morrer conseguiu submeter o projeto de reforma do ensino público brasileiro. Porém, a vontade individual é, não raro, sobrepujada pelo triunfo da vontade coletiva e, nesse caso, política.

O título de Fundador da República, outorgado a Benjamin pelo Congresso Nacional, dois dias após seu falecimento, e também registrado nas Disposições Transitórias da Constituição de 1891, a primeira da era republicana, coroou o que o historiador Renato Lemos chamou de "entronização de Benjamin no panteão de heróis nacionais". Além do título, a Carta previu o destino da última residência do homenageado:

O Governo federal adquirirá para a Nação a casa em que faleceu o Doutor Benjamin Constant Botelho de Magalhães e nela mandará colocar uma lápide em homenagem à memória do grande patriota - o fundador da República” (Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, Disposições Transitórias, Artigo 8º, 24 de fevereiro de 1891)

O trecho é precedido pela oferta do governo de uma pensão vitalícia a D. Pedro II que, “a contar de 15 de novembro de 1889, garanta-lhe, por todo o tempo de sua vida, subsistência decente". Ao mesmo tempo em que lembra o último imperador, faz surgir a figura do fundador do regime que pôs fim ao Império.

Quando lembramos que a residência de Deodoro também recebeu uma placa memorativa do seu ato proclamador, podemos imaginar que a elite política produzia os sítios históricos da República, vinculando-os às figuras públicas do novo regime. No caso de Benjamin Constant, nada melhor que a morte como convite à uma entronização que ultrapassou a demarcação física de sua residência como um lugar histórico, gerando a primeira iniciativa museológica da República brasileira. No próximo post apresentaremos alguns episódios interessantes que marcaram esse tempo em que se construía uma casa para a República.

(continua no próximo post)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigada por comentar. Sua visita é muito importante para nós!