quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A República no Brasil - os primeiros passos

Veja aqui o segundo post da série
 

O marechal Deodoro da Fonseca: republicano por falta de alternativa.

No último texto de nossa pequena série sobre "A República no Brasil", vimos que a família imperial andava às voltas com questões internas, intrigas de família e lutas pela sucessão de D. Pedro II. O imperador tinha que administrar os conflitos entre seus descendentes e também entre seus subordinados. Multiplicavam-se os boatos, críticas da imprensa e as ameaças ao império. O sol republicano já lançava seus primeiros raios por detrás dos montes da Corte.

Alguns intelectuais e líderes políticos se preparavam, uns para defender o regime vigente, outros para proclamar a República. O marechal Deodoro da Fonseca, que antes demonstrara repulsa ao republicanismo, logo se veria diante de novas situações. Bernardina, filha de Benjamin Constant, percebia que seu pai se ocupava com reuniões noturnas e retornava tarde para casa. De Deodoro não se pode dizer que era um republicano. Sua convicção com a monarquia vinha muito mais de princípios do que de orgulho do império. Não considerava o exército uma instituição valorizada. Via-se a si mesmo desprestigiado e odiava o Conde d’Eu, com quem lutou no Paraguai. As coisas entre o marechal e a Princesa Isabel também não iam nada bem, pois haviam nutrido desavenças durante o período de regência da princesa, quando substituiu o pai doente.

A família imperial: logo no dia 17 de novembro de 1889 embarcaram num navio a caminho da Europa.

O dia 15 de novembro de 1889 chegou como muitos outros antes dele. Tinha tudo para ser um ordinário dia, o que de fato foi para muita gente num Brasil de dimensões continentais. A boataria corria solta. Dizia-se que Deodoro e Benjamin estavam para ser presos, que o ministro da guerra teria sido morto e que o Visconde de Ouro Preto, presidente dos ministérios, seria substituído por Silveira Martins, um inimigo de Deodoro.

Diante de tudo isso, o marechal foi convencido pelos revoltosos de que deveria liderar o golpe. Assim o fez, num episódio até hoje caricato: estaria mesmo doente? Desejava realmente proclamar a República? Teria dado vivas à República ou ao imperador? E o povo? Há quem diga que assistiu a tudo bestializado...

Em cima, a bandeira supostamente desenhada por Debret para o Império. Abaixo à esquerda, bandeira do Império, utilizada a partir de 1822. E a direita, a bandeira da república.

Instituído o governo provisório, a família imperial foi obrigada a deixar o Brasil, abatida por sentimentos de frustração, ira e incredulidade. Não haveria III Reinado! “Acaso sairemos fugidos?”, perguntava o imperador em protestos contra a rapidez com que eram levados embora. Ruíam os castelos, tanto o de Isabel quanto o de Pedro Augusto. D. Pedro II recusou a ajuda de custo que os novos líderes do país lhe ofereceram, para a viagem e estabelecimento na Europa.

Mudaram algumas figuras do poder. Propagava-se que, doravante, quem mandaria seria o povo, que acabara a opressão, o beija-mão e poder moderador. Já surgiam os heróis da República, alguns que nem republicanos eram, como o próprio proclamador Deodoro. Benjamin Constant começava a ser tratado como o "patriarca da República", em razão do discipulado que – diziam – exercia sobre os alunos da Escola Militar. Bordava-se a bandeira do Brasil, empresa levada ao cabo pelas filhas de Benjamin Constant depois de muita discussão: mudariam ou não as cores do império? Mudaria ou não o desenho de Debret?

Estampa história da época da proclamação da república registrando o fato.

Em meio às mais diversas questões, Benjamin Constant tinha um objetivo pessoal que levou consigo durante seus dois últimos anos de vida: reformar o ensino no Brasil. Certa vez afirmou que “o engrandecimento da República repousa essencialmente sobre a educação”. Muito se esforçou para isso, recusou trabalhos que poderiam lhe trazer prestígio e, antes de morrer, conseguiu submeter o projeto de reforma do ensino público brasileiro. Seu falecimento ocorreu pouco antes de ser promulgada a primeira constituição republicana, de 1891. Nela, Benjamin recebeu o título de "Fundador da República". Nela, também, teve início a história do nosso museu, a Primeira Casa da República

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

18 de dezembro: Dia do museólogo

Museólogos cuidando de acervo.
Comemoramos hoje o dia do museólogo e decidimos prestar uma pequena homenagem através deste post a estes profissionais que trabalham com o material vivo de nossa cultura sob inúmeras formas, esclarecendo algumas coisas que pouco se sabe - ou, que pouco se entende - entre a população de nosso país sobre esta bela profissão.

Organizar exposições visualmente atraentes e com conteúdo interessante é um dos trabalhos do museólogo. Na imagem, o Museu do Miojo, no Japão.



  • O que é ser museólogo? Segundo o COFEM (Conselho Federal de Museologia), "o museólogo atua na área de cultura e patrimônio, voltado especialmente para a preservação, investigação e comunicação dos bens culturais, materiais ou imateriais de uma sociedade". Isto quer dizer que o trabalho do museólogo não se concentra apenas nos museus, nem mesmo apenas se preocupando em preservar objetos históricos. Ele também pode divulgar o acervo com o qual trabalha para que todos tomem conhecimento de sua importância na cultura de um país, território, nação ou, até mesmo a nível mundial. O trabalho de pesquisa é sempre incessante e envolve o conhecimento de descobertas, teses e trabalhos de outros pesquisadores que atingem ou tocam seu trabalho.

    Importante enfatizar que o museólogo trabalha com bens culturais materiais, isto é, objetos de arte, históricos, tecnológicos, fósseis, etc. e também com imateriais, como danças, cânticos, cerimônias, modos de fazer artesanato, modo de preparo de pratos típicos, entre outras diversas "coisas" que não podem ser exibidas ou guardadas num acervo, mas que fazem parte da cultura de uma sociedade. Esta é uma nova faceta do trabalho do profissional e, em nosso país, há muito a ser feito em termos da preservação destes "saberes e fazeres".

  • Futuro "Museu do Futebol do Mineirão", estádio principal da capital de Minas, Belo Horizonte.



  • Como trabalha um museólogo? Além do trato com o acervo no dia a dia de museus, instituições de pesquisa, museus de empresas, parques, zoológicos, galerias de arte, centros de documentação e memória, entre outras instituições, o museólogo também planeja e organiza exposições - enfatizando um ou outro aspecto de uma coleção, ou de várias - propaga o conhecimento que obtém através de ações educativas junto a grupos específicos como trabalhadores, estudantes ou a população de uma determinada região, administra museus ou qualquer das instituições onde trabalha, leciona seu aprendizado em universidades e treina pessoas. Enfim: uma atividade ágil, variada, permeada de novidades e não algo estático, imutável ou "antigo" como normalmente se imagina.


  • Moças participando da festa do Reisado em Sergipe: patrimônio imaterial brasileiro.


  • Como é o trabalho em museologia no Brasil de hoje? Há tempos os museus deixaram de ser vistos simplesmente como um espaço que guarda peças antigas, desconectadas do cotidiano da população e da atualidade. Hoje, os museus já são encarados como espaços de conservação e preservação de coleções de caráter cultural a técnico-científico, que dialogam com seu público e que difundem conhecimento, além de contribuirem para o desenvolvimento de setores como o turismo e a geração de empregos. Em levantamento feito pelo Cadastro Nacional de Museus, existem no Brasil hoje 3.025 museus, dado publicado pelo Instituto Brasileiro de Museus - IBRAM em 2010. "É um campo em expansão, com franco desenvolvimento e singular organização", afirma Maria Cristina Oliveira Bruno, museóloga e coordenadora do programa de pós-graduação Interunidades em Museologia da Universidade de São Paulo (USP). Nos últimos anos houve mudanças significativas na área: em 2003 foi instituída a Política Nacional de Museus e, em 2009, foram criados o Estatuto dos Museus e o IBRAM, uma autarquia vinculada ao Ministério da Cultura, que coordena a Política Nacional de Museus.


  • Em resumo, o museólogo é um profissional que deve ser bastante dinâmico, atualizado, que conheça bem da história de seu objeto de trabalho ou estudo, e da história em geral, de modo a poder desenvolver a cada dia mais o potencial cultural com o qual lida. Trata-se de uma área em expansão em nosso país e ainda muito pouco conhecida. Museus voltados para comunidades específicas, etnografia, de ciência e tecnologia, meio ambiente, a ecologia e a sustentabilidade, além de sítios arqueológicos, jardins botânicos, aquários e coleções particulares são novos locais de trabalho que precisam de profissionais que saibam lidar com seus bens culturais. Até mesmo legalmente o país já firmou a obrigatoriedade da existência de um museólogo por museu em seu quadro de colaboradores. Se você é jovem, gosta de conhecer sobre arte, cultura e história e é bastante curioso, talvez esta seja a sua futura área de trabalho!

    E parabéns a todos os museólogos!

    Fonte: Periódico "Ciência e Cultura", da SBPC.

    quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

    A República no Brasil - a conturbada sucessão do Imperador Pedro II

    Veja aqui o primeiro post da série

    Dom Pedro II: o imperador atormentado por sua sucessão.

    Além das questões de peso que sacudiam o Brasil, havia também conjunturas internas à família imperial que ocupavam a mente da princesa Isabel e rodeavam o trono: a sucessão do reinado. Para muitos, a saída da crise não significava uma revolução ou mudança radical de regime político. Um sucessor talvez desse novos ânimos ao império. Há algum tempo doente, D. Pedro percebia que alguns grupos se mexiam para determinar quem seria o próximo ocupante do cargo máximo que ele até ali ocupava. O imperador não tinha herdeiros diretos, havia enterrado dois filhos e suas duas filhas, Leopoldina e Isabel, poderiam gerar o herdeiro para o trono. Isabel, mais velha, não conseguia engravidar e a possibilidade de ela mesma assumir o trono gerou muita discussão.

    O Conde D´Eu: casado com a princesa Isabel, possível herdeiro do trono a contragosto de muitos.

    Esse era, na verdade, um dos problemas que o império tinha que administrar junto aos militares. Na linha de sucessão, aparecia a princesa Isabel e o odiado príncipe consorte, o Conde d’Eu, um militar com fama de intruso e oportunista no seio do exército. Apoiavam o controverso casal a chamada "Guarda Negra", grupo de ex-escravos que tinham verdadeira adoração pela princesa, a redentora. Entre os monarquistas, havia aqueles que defendiam um III Reinado sob o comando de Isabel e Gaston, o Conde d’Eu. Chamados "legitimistas", compunham uma pequena corte que rodeava a princesa e o conde, ávidos por pequenos jantares para os quais iam com convites de privilégio. O "Diário de Notícias", jornal da época, resumiu as questões que envolviam o casal: “Essa preeminência da casa estrangeira sobre a dinastia nacional colocará o príncipe consorte numa situação ilegítima, abusiva, malquistadora, obrigada do regime de intrigas, da corrupção e da força. Em resultado, o desdém e a impopularidade se repartirão entre a princesa anulada e o príncipe invasor”. A casa estrangeira era a d’Orleans, que parecia mostrar suas garras sobre o trono tropical. Carola, supersticiosa e beata: assim era vista a princesa Isabel entre seus inimigos liberais, que a ridicularizaram depois de ter recebido do papa Leão XIII um presente em contrapartida da obediência ao pontífice.

    Leopoldina, irmã mais nova e mais bonita, casou-se com um nobre europeu, bem relacionado com várias casas nobres do Velho Mundo. Do casamento nasceu Pedro Augusto de Saxe-Coburgo. Pedro Augusto era uma figura controversa e era visto pela tia Isabel como uma desgraça. Ela mesma havia casado mais cedo, mas não conseguia dar ao pai um neto. Depressivo e com arroubos de loucura, Pedro Augusto andava nas sombras da casa imperial a se aproveitar da impopularidade dos tios, flanava pela Corte a angariar apoios e posava de príncipe ilustrado e progressista. Chegou a receber apoio de republicanos e também de proprietários de terras que, descontentes com a Abolição, pareciam querer se vingar de Isabel.

    Dom Pedro Augusto, filho da princesa Leopoldina, irmã da princesa Isabel: o chamado "príncipe maldito" desejava suceder seu avô, Dom Pedro II, no trono do império.

    Esse grupo foi chamado de "Partido Pedrista". Não era propriamente um partido, e sim um grupo de articulações que apoiava Pedro Augusto, o príncipe dandy, esperança da casa de Saxe-Coburgo de ter um império na América. O jovem era odiado e amado por sua família: admirado pelo avô, que apoiava seus estudos científicos de engenharia e mineralogia, e detestado por Isabel, que via nele uma ameaça que a afastaria do trono.

    Um exemplo dessa disputa familiar eram os nomes dos netos do imperador. Quando Isabel teve seu primeiro filho, chamou-o também de Pedro. O Pedro de Isabel passou a ser um tormento para Pedro Augusto, já que o imperador parecia apoiar o neto mais novo para sucedê-lo. Sobre que "pedra" se ergueria o III Reinado?

    Porém, por mais que o nascimento de Pedro "mão seca" (assim era chamado o filho da princesa Isabel, por causa de uma deficiência na mão esquerda) tenha trazido algum alento à libertadora dos escravos, Pedro Augusto ainda assombrava os desejos que ela alimentava pelo trono. Quem o herdaria? Isabel e d’Eu? Pedro Augusto, aquele a quem o trono fora prometido desde jovem e que via seu lugar ameaçado pelo primo, o outro Pedro? D. Pedro II permanecia quieto, ambíguo. Na crise política envolviam-se proprietários de terras, políticos, jornalistas, militares e estudantes. O clima de instabilidade invadia a casa imperial, como descreve a historiadora Mary Del Priore:


    Dentro do grande salão, o clima era de choro e ranger de dentes. Os raios de sol poente que entravam pelas largas janelas de cantaria incendiavam a cabeça branca do imperador e os cabelos cor de mel do príncipe. No sangue de ambos, fermentava uma única questão: o destino do império. Para o velho, fim. O melancólico fim. Para o jovem, a legitimidade. Legitimidade prometida desde a tenra infância. Legitimidade que lhe foi usurpada quando nasceu seu primo, Pedro, o príncipe do Grão-Pará, e o avô deixou de considera-lo seu herdeiro legítimo. Legitimidade que poderia ser recuperada mesmo sob uma república. Aquela da qual ele seria o monarca soberano”. 
    (in "O Príncipe Maldito", p.230)


    Os próximos dias que anunciariam o desfecho e o destino dos imperiais, já viam o raiar do sol.

    terça-feira, 11 de dezembro de 2012

    UPP Tabajaras visita nosso museu

    O pequeno grupo no interior de nosso museu.

    Foi um dia muito especial na vida das crianças da Ladeira dos Tabajaras e do Morro dos Cabritos, comunidades de Copacabana atendidas pela UPP Tabajaras desde janeiro de 2010: com o apoio da UPP, um pequeno grupo veio visitar nosso museu, conhecer um pouco sobre a vida e o dia a dia de Benjamin Constant, passear pela chácara, observar nosso mirante e sentir o verde da natureza de nosso parque ao seu redor.

    Nossa colaboradora Raquel Rosa mostra à pequena visitante como funciona nosso berçário de mudas.

    A parceria para viabilizar a visita foi feita diretamente por nosso Núcleo Educativo Cultural que se empenha em alargar cada vez mais o espectro de visitantes de nossa instituição. E, neste momento de pacificação, quando as comunidades começam a ter o poder de aproveitar sua cidade como um todo, queremos estar presentes junto a elas proporcionando aos moradores - em especial as crianças - momentos de conhecimento e lazer.

    Momento de aprendizagem e diversão em nosso caramanchão.

    É um trabalho difícil mas certamente muito recompensador. Perceber no rosto de cada um dos pequenos visitantes o prazer de estar num lugar novo, nunca antes visto, e poder perguntar, comentar, falar sobre um mundo muito além de seu lugar de moradia é altamente gratificante para nossos educadores. Estamos em tratativas para trazer outros grupos de UPPs e abertos ao contato de todas as que se interessarem a fazer uma visita ao nosso Museu Casa!

    O grupo com acompanhamento dos integrantes da UPP e com nossas educadoras, Cintya Callado (de blusa lilás) e Raquel Rosa (de blusa verde).

    sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

    Duas vezes "Entre Dias"

    Conforme publicamos anteriormente, a exposição "Entre Dias", de Renata Casimiro, esteve montada em nosso caramanchão no período da 6ª Primavera de Museus, e entre os dias 14 de novembro e 2 de dezembro, em comemoração ao Mês da Proclamação da República. Surpresa para muitos visitantes, divertida para outros, foi um belo momento de interação entre o público e folhas soltas do "Diário de Bernardina", filha de Benjamin Constant, que registrou momentos de bastidores da mudança de regime no qual seu pai teve participação crucial.


    Neste vídeo, gravado pela própria idealizadora da intervenção, você pode ver um pouquinho da montagem e da paisagem final no espaço, além de curtir a música que foi executada no momento da visitação.

    terça-feira, 4 de dezembro de 2012

    A República no Brasil

    "Proclamação da República", 1893, óleo sobre tela de Benedito Calixto. Acervo da Pinacoteca Municipal de São Paulo.

    Completamos neste último mês de novembro 122 anos da Proclamação da República, evento ocorrido no Rio de Janeiro, cidade que, naquele 15 de novembro de 1889, viveu suas últimas horas como Corte do Império do Brasil.

    Todos lembramos – uns mais, outros menos – dos grandes períodos da história do Brasil, representados naquela “linha do tempo” desenhada pelos professores, antes com giz, hoje com pilot ou mesmo com recursos digitais. Colônia, Império e República, cada uma das partes com suas subdivisões, ciclos econômicos, fatos e rupturas que dinamizavam a linha condutora da história.

    Este recurso didático deveria facilitar nossa compreensão e, de alguma maneira, o faz. Mas é sempre difícil explicar como a linha “pula” de um período a outro. Que fatores têm o poder de perturbar a continuidade das coisas que pareciam tão “calmas” e “assentadas” nessa linha do tempo? Enfim, o que representou e o que poderia ter representado o 15 de novembro de 1889, dia ao mesmo tempo ordinário e singular que mudou – será? – os rumos da linha histórica do Brasil?

    ... nenhuma instituição política parecia estar mais forte do que a monarquia.


    A frase de Mary Del Priori (em "O Príncipe Maldito", pág. 147) encontra-se numa calorosa descrição do retorno de D. Pedro II ao Brasil em agosto de 1888, depois de uma temporada na Europa para cuidar da saúde. É impossível imaginar, salvo em retrospectiva, como fazemos agora, que pouco mais de um ano depois, estaria D. Pedro II partindo novamente para a Europa, agora definitivamente e com toda a família. No mesmo ano de 1888, Deodoro da Fonseca, nosso Proclamador, chegou a afirmar que uma República seria, além de coisa impossível, uma verdadeira desgraça para o Brasil. (Del Priori, in opus cit., pág. 150).

    Bem, a República nasceu em 1889 e nenhum fato pode explicar sozinho todo o processo. Nosso objetivo aqui é o de apresentar algumas histórias, conjunturas e fatores, alguns conhecidos e outros nem tanto, para a compreensão desse curioso período da história do Brasil.

    O Marechal Deodoro, nosso "proclamador" retratado por Henrique Bernardelli no quadro "Proclamação da República"

    Comecemos com aquelas conjunturas que de alguma maneira passam pelas salas de aula há muito tempo, as três grandes questões do 2º Reinado: Religiosa, Militar e Abolicionista.

    • A Questão Militar: os militares do Exército Brasileiro estavam descontentes com a proibição, imposta pelo império, pela qual seus oficiais não podiam manifestar-se na imprensa sem prévia autorização do Ministro da Guerra. Os militares não possuíam autonomia na tomada de decisão sobre a defesa do território, estando sujeitos às ordens do imperador e do Gabinete de Ministros, formado por civis, que se sobrepunham às ordens dos generais. Assim, no império, a maioria dos ministros da guerra eram civis. Além disso, frequentemente os militares do Exército Brasileiro sentiam-se desprestigiados e desrespeitados. Nesta questão, nosso patrono, Benjamin Constant teve participação decisiva: tanto efetuava discursos onde explicitava os problemas e o descontentamento dos militares, quanto defendia a classe como podia, em todas as situações, demonstrando sua insatisfação com a forma com que a carreira militar era gerida pelo império, totalmente baseada em critérios personalistas ao invés de se apoiar em mérito e antiguidade. A Guerra do Paraguai – da qual Benjamim participou – deixou ainda mais evidente aos militares a desvalorização de suas carreiras profissionais, já que haviam lutado pelo Império e não alcançaram o prestígio e valorização que esperavam aos olhos do imperador.

    A Princesa Isabel e a "la grosse question".

    • A Questão Religiosa: tinha como origem a submissão da Igreja Católica, enquanto instituição, ao Estado. Esta hierarquia vinha desde o período do Brasil Colônia, se manteve após a independência e significava, na prática, que todas as ordens vindas do Papa deveriam ser previamente aprovadas pelo imperador, antes que entrassem em vigor no Brasil. Uma desobediência dos bispos de Olinda e Belém do Pará, que resolveram seguir por conta própria uma ordem do Papa Pio IX, levou-os a prisão, o que agravou a situação. Após uma intervenção do Duque de Caxias, resolveu-se a questão, mas a imagem do império desgastou-se junto à Igreja Católica.
    • A questão abolicionista: era forte desde a abolição do tráfico negreiro em 1850, mas encontrava resistência entre as elites agrárias tradicionais do país. Diante das medidas adotadas pelo Império para a gradual extinção do regime escravista, essas elites reivindicavam do Estado indenizações proporcionais ao preço total que haviam pago pelos escravos a serem libertados por lei. Com a decretação da Lei Áurea em 1888, sem realizar a indenização desejada pelos grandes proprietários rurais, o império perdeu seu último pilar de sustentação: os antigos proprietários de escravos. A própria princesa Isabel, que assinou a Lei Áurea em 13 de maio de 1888, percebera que tinha dado um grande passo rumo ao fim do império, tratando o problema, em correspondência com seu pai, como “la grosse question” (“a grande questão”).
    Mas não era esse o único problema que ocupava a mente da princesa...