quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

A República no Brasil - a conturbada sucessão do Imperador Pedro II

Veja aqui o primeiro post da série

Dom Pedro II: o imperador atormentado por sua sucessão.

Além das questões de peso que sacudiam o Brasil, havia também conjunturas internas à família imperial que ocupavam a mente da princesa Isabel e rodeavam o trono: a sucessão do reinado. Para muitos, a saída da crise não significava uma revolução ou mudança radical de regime político. Um sucessor talvez desse novos ânimos ao império. Há algum tempo doente, D. Pedro percebia que alguns grupos se mexiam para determinar quem seria o próximo ocupante do cargo máximo que ele até ali ocupava. O imperador não tinha herdeiros diretos, havia enterrado dois filhos e suas duas filhas, Leopoldina e Isabel, poderiam gerar o herdeiro para o trono. Isabel, mais velha, não conseguia engravidar e a possibilidade de ela mesma assumir o trono gerou muita discussão.

O Conde D´Eu: casado com a princesa Isabel, possível herdeiro do trono a contragosto de muitos.

Esse era, na verdade, um dos problemas que o império tinha que administrar junto aos militares. Na linha de sucessão, aparecia a princesa Isabel e o odiado príncipe consorte, o Conde d’Eu, um militar com fama de intruso e oportunista no seio do exército. Apoiavam o controverso casal a chamada "Guarda Negra", grupo de ex-escravos que tinham verdadeira adoração pela princesa, a redentora. Entre os monarquistas, havia aqueles que defendiam um III Reinado sob o comando de Isabel e Gaston, o Conde d’Eu. Chamados "legitimistas", compunham uma pequena corte que rodeava a princesa e o conde, ávidos por pequenos jantares para os quais iam com convites de privilégio. O "Diário de Notícias", jornal da época, resumiu as questões que envolviam o casal: “Essa preeminência da casa estrangeira sobre a dinastia nacional colocará o príncipe consorte numa situação ilegítima, abusiva, malquistadora, obrigada do regime de intrigas, da corrupção e da força. Em resultado, o desdém e a impopularidade se repartirão entre a princesa anulada e o príncipe invasor”. A casa estrangeira era a d’Orleans, que parecia mostrar suas garras sobre o trono tropical. Carola, supersticiosa e beata: assim era vista a princesa Isabel entre seus inimigos liberais, que a ridicularizaram depois de ter recebido do papa Leão XIII um presente em contrapartida da obediência ao pontífice.

Leopoldina, irmã mais nova e mais bonita, casou-se com um nobre europeu, bem relacionado com várias casas nobres do Velho Mundo. Do casamento nasceu Pedro Augusto de Saxe-Coburgo. Pedro Augusto era uma figura controversa e era visto pela tia Isabel como uma desgraça. Ela mesma havia casado mais cedo, mas não conseguia dar ao pai um neto. Depressivo e com arroubos de loucura, Pedro Augusto andava nas sombras da casa imperial a se aproveitar da impopularidade dos tios, flanava pela Corte a angariar apoios e posava de príncipe ilustrado e progressista. Chegou a receber apoio de republicanos e também de proprietários de terras que, descontentes com a Abolição, pareciam querer se vingar de Isabel.

Dom Pedro Augusto, filho da princesa Leopoldina, irmã da princesa Isabel: o chamado "príncipe maldito" desejava suceder seu avô, Dom Pedro II, no trono do império.

Esse grupo foi chamado de "Partido Pedrista". Não era propriamente um partido, e sim um grupo de articulações que apoiava Pedro Augusto, o príncipe dandy, esperança da casa de Saxe-Coburgo de ter um império na América. O jovem era odiado e amado por sua família: admirado pelo avô, que apoiava seus estudos científicos de engenharia e mineralogia, e detestado por Isabel, que via nele uma ameaça que a afastaria do trono.

Um exemplo dessa disputa familiar eram os nomes dos netos do imperador. Quando Isabel teve seu primeiro filho, chamou-o também de Pedro. O Pedro de Isabel passou a ser um tormento para Pedro Augusto, já que o imperador parecia apoiar o neto mais novo para sucedê-lo. Sobre que "pedra" se ergueria o III Reinado?

Porém, por mais que o nascimento de Pedro "mão seca" (assim era chamado o filho da princesa Isabel, por causa de uma deficiência na mão esquerda) tenha trazido algum alento à libertadora dos escravos, Pedro Augusto ainda assombrava os desejos que ela alimentava pelo trono. Quem o herdaria? Isabel e d’Eu? Pedro Augusto, aquele a quem o trono fora prometido desde jovem e que via seu lugar ameaçado pelo primo, o outro Pedro? D. Pedro II permanecia quieto, ambíguo. Na crise política envolviam-se proprietários de terras, políticos, jornalistas, militares e estudantes. O clima de instabilidade invadia a casa imperial, como descreve a historiadora Mary Del Priore:


Dentro do grande salão, o clima era de choro e ranger de dentes. Os raios de sol poente que entravam pelas largas janelas de cantaria incendiavam a cabeça branca do imperador e os cabelos cor de mel do príncipe. No sangue de ambos, fermentava uma única questão: o destino do império. Para o velho, fim. O melancólico fim. Para o jovem, a legitimidade. Legitimidade prometida desde a tenra infância. Legitimidade que lhe foi usurpada quando nasceu seu primo, Pedro, o príncipe do Grão-Pará, e o avô deixou de considera-lo seu herdeiro legítimo. Legitimidade que poderia ser recuperada mesmo sob uma república. Aquela da qual ele seria o monarca soberano”. 
(in "O Príncipe Maldito", p.230)


Os próximos dias que anunciariam o desfecho e o destino dos imperiais, já viam o raiar do sol.

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