quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Desvendando "A Pátria" de Pedro Bruno

Réplica de "A Pátria", conforme presente em nosso acervo.
Realizado em 1909 - 20 anos, portanto, após a Proclamação da República e da confecção de nossa bandeira - o quadro "A Pátria", de Pedro Bruno, ainda intriga muita gente. Desde considerações sobre quem está representado no quadro (filhos de Benjamin Constant? Crianças comuns? Tiradentes em um quadro? Marechal Deodoro?) até sobre o significado das posições de cada personagem retratado até do lugar e da bandeira em si, tudo é bastante discutido. Neste texto da museóloga Isabel Sanson Portella temos algumas respostas, além de uma análise das melhores sobre a obra, que se encontra no Museu da República, no Rio, com uma reprodução constante de nosso acervo. Confira:

"Pintura 'A Pátria' (1909)

No Brasil, a partir de meados da década de 1890, depois de superada a instabilidade dos anos iniciais da República, vamos encontrar uma série de edifícios públicos sendo reformados ou construídos, nos quais a arquitetura, a decoração de interiores, a pintura e a escultura se farão necessárias[...] O país se firmava como nação independente e republicana, e a arte era considerada um lugar privilegiado para pensar a sociedade. O desejo de modernidade, de participar da rota do progresso, tornar-se uma grande nação, desfazer a imagem do exotismo tropical, do atraso e da inércia, permeava as mentes esclarecidas. Esses ideais, ao lado de outros emblemas e símbolos nacionais, contribuíram expressivamente para a formação da ‘alma’ dos brasileiros.

Pedro Bruno, autor da obra.

Pedro Bruno passou a frequentar a escola Nacional de Belas Artes como aluno de Baptista da Costa e, em 1919, conquistou o Prêmio de Viagem ao Estrangeiro com aquela que talvez seja a sua famosa tela, “A Pátria”. Esta tela é uma alegoria, a máxima representação de uma expressão, de um sentimento da nação, mas também da construção do imaginário coletivo. Numa temática extremamente simbólica, Pedro Bruno utilizou-se de vários artifícios da técnica pictórica para a elaboração dessa tela, que hoje encontra-se na parede do salão Ministerial do Museu da República. Todos os que observam a pintura, mesmo os menos iniciados apreciadores de arte, não poderão deixar de se impressionar. Aproximando-se dessa obra de dimensões consideráveis (1,90 X 2,78 metros), percebe-se, em um primeiro momento, a construção de uma cena bucólica e familiar. A confecção da primeira Bandeira da República brasileira é uma alegoria ao nascimento do novo sistema de princípios positivistas no Brasil.

Com uma fatura impressionista, mas com iconografia complexa e rica em detalhes, a tela é invadida por uma luz intensa, que ilumina a criança com a bandeira, figura central do quadro. A cena formada principalmente por mulheres nos remete a Marianne (símbolo da Revolução Francesa). A mãe que alimenta o bebê (este representando a República que nasce), as várias crianças, as distintas gerações que formam essa nação, onde todos se empenham em oferecer suas contribuições. Quase dissolvido nas sombras, o velho, representa o passado. No quadro se destaca a luz intensa (a luz da República) contrastando com áreas de sombra. Uma sombra sem tristeza, pois esta simboliza um passado de glória. Alegoria, do grego 'allegoreno' ('allos', "outro" e 'agorein', "falar") significa 'falar de outro modo'; falar de outra coisa que não de si mesma. Já o símbolo, aproxima dois aspectos da realidade em uma unidade bem-sucedida ('sym', "conjunto'; 'ballein', "lançar", "colocar").


A obra exposta no Museu da República.

Pedro Bruno, em sua alegoria, não poderia deixar de mencionar as figuras de nossos heróis e mártires, símbolos da luta pela sobrevivência da Nação brasileira, estes representados ao fundo da tela: Tiradentes, Marechal Deodoro da Fonseca e Benjamin Constant. Tiradentes, representado no seu derradeiro momento (de camisolão e com a forca ao lado); Marechal Deodoro da Fonseca, aparece num típico retrato oficial e Benjamin Constant, traja a farda que usou na Guerra do Paraguai.O esplendor e o fausto da época do império cedem espaço à simplicidade do ambiente da casa popular brasileira: da esteira de palha onde repousa o bebê às damas, filhas e esposa de Benjamin Constant que, sentadas ao chão, costuram a Bandeira, símbolo máximo da nação.

Isabel Sanson Portella
Abril de 2009
(Fragmentos do texto original desenvolvido pelo Museu da República)

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