quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Iniciada a Segunda Fase da Obra de Restauração do Museu

Escavação na alameda de entrada para instalação de infraestrutura.

No início do mês de agosto iniciamos as atividades da Segunda Fase da Obra de Restauração do museu, que engloba várias melhorias para nossas edificações e a infraestrutura. Complementando a primeira fase – que restaurou a casa histórica – esta etapa compreende uma série de ações dentro de nosso espaço.

Início do preparo do terreno na área dos novos banheiros públicos.


Com cronograma previsto para durar 12 meses, as atividades já estão acontecendo a pleno vapor em nosso parque como é possível verificar nas imagens desta nota. Escavações, recortes e abertura de passagens subterrâneas para a nova infraestrutura de cabeamento de elétrica, telefonia, hidráulica, dados e reaproveitamento de água das chuvas serão instalados nestes primeiros meses, além do início da requalificação do platô inferior do parque, com novas escadas, passarelas e rampas de acesso. Foram iniciadas também as obras do alicerce da futura área de apoio à administração.

Áreas abertas para instalações de recolhimento de água das chuvas.

Mas ainda há muito a ser feito: restauro completo da casa anexa, a Casa de Bernardina, de onde gerenciamos todo o museu, equipando-a de modo a receber com mais conforto nossos visitantes e servidores; Escritórios com infraestrutura moderna, uma nova área reserva técnica, um sala de consulta para pesquisadores, uma pequena sala multiuso e uma bilheteria serão adaptadas neste prédio, além de espaços para almoxarifado, vestiários e uma pequena área de refeições.

Valas abertas para passagem de novas tubulações.


Será feita também uma renovação em todo o parque, com a recuperação das trilhas e alamedas, novos bancos, escadas e passarelas, canteiros, muros de arrimo e jardins refeitos, novos bebedouros e banheiros públicos, além de iluminação noturna.

Por hora, continuamos aqui em nosso blog e em nossa página do Facebook, inclusive na página específica - www.facebook.com/ObrasRestauroMCBC - criada para falar sobre as obras restauração, divulgando quando relevante, o que acontece por aqui. Manteremos o contato com a comunidade de modo contínuo através de nossos e-mails e mídias sociais na internet, sempre à disposição para recados e mensagens. 

quinta-feira, 13 de junho de 2019

5ª Edição do Circuito Sítios Históricos da República na 17ª Semana de Museus

Neste ano o Circuito se iniciou no Centro Cultural da Light que faz parte da nova Rede Cultural Campo de Santana.


O Museu Casa de Benjamin Constant e o Museu da República realizaram, na 17ª Semana Nacional de Museus, de 13 a 17 de maio últimos, a 5ª Edição do Circuito Sítios Históricos da República. Lançado em 2009, o projeto completou 10 anos e já atendeu a centenas de participantes, tendo, também, capacitado guias de turismo e professores. Em 2019, celebramos a primeira década do projeto e retornamos com mais uma edição e novas parcerias, agora integrando a Rede Cultural Campo de Santana. Criada em 2018 a partir da interlocução entre o Curso de Turismo da UniRio, o Museu Casa de Benjamin Constant e o Museu da República, a rede congrega várias instituições da região e tem o objetivo de promover, em conjunto, a proteção, valorização e a governança da Praça da República. Além de ser o sítio histórico da Proclamação da República, é naquela praça que está localizada a maior área verde com centro da cidade: o Campo de Santana, tombado como patrimônio.

Desta vez visitamos o Centro Cultural Light, que apresentou aspectos do início do século XX vinculados à expansão da energia elétrica que marcou as primeiras décadas da República. Dali caminhamos até a Faculdade Nacional de Direito, da UFRJ. No trajeto, o museólogo e guia de turismo Andre Angulo, do Museu da República, abordou a riqueza arquitetônica do entorno do Campo de Santana, com suas fachadas Art Decó, Neoclássicas e ecléticas.

Imagem dentro da Faculdade Nacional de Direito da UFRJ, um prédio icônico do Centro do Rio.


Os alunos extensionistas do projeto “Conhecendo a Faculdade Nacional de Direito” mediaram a visita ao Palácio do Conde dos Arcos, que abrigou o Senado Imperial e Republicano. Prédio também histórico por ser a casa da Faculdade Nacional de Direito da UFRJ. Sob muita chuva, mas sem perder a empolgação, saímos da FND e nos dirigimos ao Campo de Santana, onde fomos recebidos pela Fundação Parques e Jardins. Ali ouvimos sobre a história do campo e de seus aspectos paisagísticos.

O dia era de chuva, mas o grupo foi até o Monumento a Benjamin Constant, dentro do Campo de Santana.


No centro dessa notável área verde, está localizado do Monumento a Benjamin Constant. Inaugurado em 1926 onde hoje passa a Avenida Presidente Vargas, o conjunto escultórico de matriz positivista foi transferido para seu local atual em 1949. O historiador Marcos Brum, do Museu Casa de Benjamin Constant, mediou a visita abordando alguns dos muitos simbolismos do monumento. Por fim, nos dirigimos ao Centro Cultural Museu da Casa da Moeda. Ali visitamos três exposições, todas mediadas pela excelente equipe da casa: Quando nem tudo era gelo, mostra oriunda do Museu Nacional; Nota Real, sobre a trajetória das cédulas do Plano Real, incluindo aspectos de segurança; e a mostra de longa duração do museu, com acervo próprio. Vale ressaltar que o Centro Cultural Museu da Casa da Moeda está localizado no prédio do primeiro museu do país, o Museu Real. Fundado em 1818, foi a República que o transferiu para a Quinta da Boa Vista, já como Museu Nacional, tão querido de todos nós.

E o passeio terminou nos salões de exposição do Centro Cultural Museu da Casa da Moeda, novo valioso ponto de cultura no centro do Rio.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Nova Rede de Cultura

Logomarca da nova rede de cultura.

Nosso museu sempre está em busca de parcerias para fomentar uma de nossas missões institucionais, qual seja a de "estimular ações culturais em seu território". Desde o fim de 2018 estamos associados a uma nascente rede de cultura: a Rede Cultural do Campo de Santana. Congregando várias instituições da região e com o objetivo de promover em conjunto a proteção, a valorização e a governança da Praça da República, onde está localizado a maior área verde do Centro - o Campo de Santana, que, por sua importância, é tombado como patrimônio histórico artístico e paisagístico pelo Estado do Rio de Janeiro e pela União. São instituições tais como a Centro Cultural da Casa da Moeda, o Centro Cultural da Light, a Casa de Deodoro, a Fundação Parques e Jardins, o Museu do Corpo de Bombeiros, o Palácio do Itamaraty, entre outras que estão começando a juntar esforços no sentido da preservação e valorização da região.

Um dos motivos pelos quais estimulamos a criação desta rede encontra-se o chamado "Circuito Sítios Históricos da República", criado pelo Museu da República e pelo nosso museu. O circuito tem como principal interesse a valorização dos lugares vinculados à proclamação e consolidação da República brasileira. Através de um roteiro turístico orientado, promovemos a visitação e a interpretação destes sítios históricos que estão localizados da cidade do Rio de Janeiro. Lançado em 2009, o projeto completa 10 anos e já atendeu a centenas de participantes, tendo, também, capacitado guias de turismo e professores. Em 2019, celebramos a primeira década do projeto e retornamos com mais uma edição, agora integrando a Rede Cultural do Campo de Santana, para que juntos pensemos o desenvolvimento e consolidação do turismo de interesse histórico, artístico, museológico e cultural.

Monumento a Benjamin Constant no Campo de Santana.


Além dos pontos turísticos obrigatórios do circuito que se localizam bem na região do Campo de Santana como a Casa de Deodoro e o Palácio do Itamaraty, temos, na Praça da República, um monumento erigido em homenagem a Benjamin Constant. Tal monumento foi idealizado, financiado e erguido pelos Positivistas desde 1893, e inaugurado em 1926. Cheio de simbolismos, uma das curiosidades da obra é que o conjunto escultórico que destaca Benjamin Constant e Maria Joaquina, sua esposa, é fruto da fundição de dois canhões, um brasileiro e outro paraguaio. A razão do ato, ocorrido na década de 1920, foi enfatizar a necessidade de reparação das perdas paraguaias na Guerra da Tríplice Aliança e concretizar a fraternidade entre as duas nações sul-americanas.

Algumas caminhadas tem sido realizadas com guias de turismo para propagação da história de região e acreditamos que, com o passar do tempo, o turismo histórico do centro do Rio contará com mais esta atração bem consolidada e reconhecida por muita gente.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Educação no MCBC: de Benjamin Constant aos dias de hoje



É bastante apropriado falarmos sobre o quesito EDUCAÇÃO em nosso museu. Dos tempos de Benjamin Constant, até os nossos dias, é possível dizer que é um assunto que sempre esteve em destaque nesta casa. Como esquecer que nosso Patrono e Fundador da República sempre a teve como preocupação principal? Sua frase mais importante, declarada já na proclamação da nascente nação, “O engrandecimento da República repousa essencialmente sobre a educação”, é a que o distingue perante outros herois da república. Como esquecer sua paixão por ser professor e seu interesse em estar sempre junto a seus alunos? Como deixar de lado sua preocupação em educar suas filhas, e letrá-las todas, numa época que cabia às mulheres aprender apenas os ofícios do lar e do casamento?

Sua militância, se podemos usar a palavra, era a ciência e a educação. Benjamin Constant tinha um objetivo pessoal que levou consigo durante seus dois últimos anos de vida: reformar o ensino no Brasil. Muito se esforçou para isso, recusou trabalhos que poderiam lhe trazer prestígio e antes de morrer conseguiu submeter o projeto de reforma do ensino público brasileiro.

Visita teatralizada com atores encenando a vida de Benjamin Constant e sua esposa.


Assim sendo, desde a montagem, passando pela fundação e no dia a dia de nosso museu, a educação não poderia ter um lugar de menor importância. Por ser um museu histórico é claro que esta característica seria forte, mas sempre coube ao setor educativo um certo destaque.

Muitas foram as iniciativas educativo culturais focadas principalmente na educação infantil realizadas em nosso museu casa. De visitas mediadas a encenações teatralizadas, passando por materiais de apoio didático com os quais as turmas de alunos, auxiliadas por nossos mediadores e orientadores educativos sempre foram estimulados a aumentar seu conhecimento. E por termos um enorme parque natural, isto ainda foi mais intensificado/incentivado. A horta orgânica, as mudas, a reciclagem e a sustentabilidade, o conhecimento sobre as plantas e flores, os microorganismos do solo, os pequenos animais da fauna de nosso parque, tudo isso pode ser visto em um breve passeio pelo parque.

Caderno educativo preparado para crianças.
Nosso setor educativo desenvolveu três circuitos museais para facilitar a visitação e o guiamento das visitas: República, Família e Meio Ambiente são os eixos temáticos que podem ser escolhidos por cada visitante para saber mais profundamente a respeito de algum assunto que permeia a história de Benjamin Constant e da Família Botelho de Magalhães. Além disso todos podem ser treinados. Há material para treinamento de professores, guias de turismo, mediadores do dia a dia do museu, sem falar do caderno educativo criado especialmente para o público infantil que visita o museu. Há também folders gratuitos distribuídos ao todos os visitantes e catálogos que podem ser adquiridos contando em detalhes sobre nossos acervos, casa, parque e circuitos de visitação. São realmente materiais de apoio sempre atualizados que contribuem para o sucesso de qualquer visita.

Sempre recebemos grupos e preparamos visitas com eixos temáticos especiais, especialmente escolas. Neste período de obras temos feito o possível para atender a pesquisadores apenas com nossos acervos documental, fotográfico e bibliográfico disponíveis, mas assim que estivermos reabertos, toda a museografia estará revista e ainda mais 'vívida', se é que assim podemos dizer, de forma a atender nossos objetivos. Muita coisa está sendo construída para que o museu se apresente de forma ainda mais vibrante. Estamos certos de que o eixo educativo cultural de nosso museu ainda será mais interessante.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Vamos pra Geórgia? Sim, por que não? – parte III

Na parte final, as discussões técnicas do evento. Confira!

Uma das palestras da Conferência.

Bem, resta falar da parte técnica, já que nem tudo são flores - nem uvas... Um dos objetivos da missão foi promover a atualização do debate sobre educação e ação cultural em museus, comparando o état de l'art em âmbito internacional com a realidade brasileira. Nesse sentido, algumas constatações foram feitas:

1. Conquanto existam definições consensuais sobre o conceito de educação, há incerteza quanto ao de ação cultural. Numa definição oferecida no evento por Theodorus Meereboer, "educação é o processo de auxiliar as pessoas para aprender, formar suas próprias identidades em contextos sociais, tornando-se cidadãos responsáveis. Nesse processo, somos mais mediadores e menos professores detentores do saber" (Meereboer, Bridge the gap, how the SET model helps museums with cultural action and activism). Meereboer defendeu que os museus construam e sigam modelos que fomentem engajamento social e aprendizado participativo. Mesmo com essa proposta interessante, Meereboer e outros participantes não fizeram grande distinção entre ação cultural e ativismo, o que leva a duas novas constatações:

a) uma rejeição da ideia de ação cultural por parte daqueles que veem no conceito uma herança marcadamente francesa da década de 1960 (esses foram os mais críticos das discussões conceituais e do Vocabulary lançado no evento);

b) uma separação entre ação cultural e ativismo apenas entre aqueles que assumem uma perspectiva marcadamente paulofreireana*, para quem educação sem teoria da cultura redunda em mero ativismo. Nesses casos, a ação cultural é valorizada na medida em que não está descolada dos processos educativos (ainda que não sejam a mesma coisa), ou seja, não são pensadas e realizadas com o caráter efêmero dos ativismos culturais, mas procuram promover transformações duradouras e com desdobramentos sociais perceptíveis.

*Nota: Paulo Freire foi um educador, pedagogo e filósofo brasileiro. É considerado um dos pensadores mais notáveis na história da pedagogia mundial, tendo influenciado o movimento chamado pedagogia crítica. É também o Patrono da Educação Brasileira.

2. Comparando os movimentos internacionais em torno da educação em museus, avalio que o Brasil encontra-se num grau de maturidade mais avançado que boa parte dos países que ainda não dispõe de uma política pública estruturada para o campo. Boa parte das experiências de sucesso apresentadas são iniciativas das instituições museológicas, sem necessariamente fazerem parte ou seguirem políticas públicas pensadas coletiva e democraticamente nas sociedades. Todas estão conectadas com noções de museus com propósitos sociais, porém pude observar que muitos projetos limitam as ações educativas ao relacionamento com as escolas, e as ações culturais são aquelas que abrangem o público mais diversificado.

Quanto a essa questão, a PNEM do Brasil distingue claramente entre as duas coisas, não entendo educação como ação cultural. Entretanto, por assumir os marcos conceituais paulofreireanos e os da museologia social, supera a noção de museus como extensões da escola, entendendo-o como espaço a ser articulado com a educação formal, mas com capacidade e necessidade de autonomia para atuar no meio cultural onde habita, inclusive como unidades de resistência aos processos antidemocráticos e autoritários que vêm ganhando espaço nas escolas brasileiras e, de fato, na sociedade. No Brasil, temos definido estas ações no marco da democracia participativa, que deve caracterizar também os museus. Isto está claramente manifesto na PNEM:


“O planejamento participativo deve ser visto como um jogo, meio e fim, onde todos os lados das micro e macropolíticas institucionais ou das organizações sociais ficam expostos. Mas, sem dúvida, ele é parte de uma prescrição terapêutica emergencial para o contemporâneo. Os planejamentos participativos devem ser reconhecidos como instrumentos de luta contínua, mediação e transformação da realidade social dentro de uma estrutura viva com lentes multifocais que contemplem suas singularidades, considerando caso a caso os riscos de contaminação microfascista presentes nas relações humanas. (Ibram, Caderno da Política Nacional de Educação Museal, p. 92)”

Fiquei orgulhoso dos meus colegas que participaram ativamente da confecção da PNEM. A demanda para traduzir o documento para os idiomas do ICOM é motivo de festa e indicador de que estamos no caminho certo. Esta ação, no meu entender, pode ser executada em parceria com outros países interessados, na medida em que se encontram atualmente necessitados de uma política mais sistematizada de educação em museus. Devem-se negociar as condições e atribuições de cada parte na confecção dessas versões.

Termino encorajando a todos para que os projetos dos setores educativos do Ibram busquem fomento nos editais do CECA. As regras estão disponíveis na plataforma do órgão e contemplam Best Practices and Research ('Melhores Práticas e Pesquisa', respectivamente)

Finalmente, devo registrar minha satisfação por ter participado do evento. Uma imersão de 5 dias nas questões educativas dos museus, a partir de experiências tão diversas e ricas, apresentou várias possibilidades de trabalho e novos desafios para o trabalho no museu onde atuo. É necessário valorizar o esforço do Ibram em oferecer essa oportunidade, bem como reafirmar a necessidade de mais editais semelhantes que possam contemplar outros colegas do campo museológico brasileiro. Ah, sim e reforçando: O IBRAM FICA!

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Vamos pra Geórgia? Sim, por que não? – parte II

Nesta segunda parte Marcos Brum, nos conta um pouco mais sobre o evento que tomou parte e sobre a cidade de Tbilisi, capital da Geórgia. Acompanhe!

A mesa de abertura da Assembleia Geral do CECA-ICOM deste ano.


Como ocorre anualmente, parte do evento foi dedicado à Assembleia Geral do CECA-ICOM, na qual foram apresentados os resultados alcançados no último ano, os projetos em andamento e as proposições para o próximo ano. Por causa do momento sensível e crítico que enfrentávamos no Brasil, no campo dos museus, ‘garimpei’ alguns minutinhos para falar na assembleia. Agradeço o espaço oferecido pela diretoria do CECA para que apresentássemos a situação vivida pelo Ibram em 2018, que tinha suas atividades e políticas na iminência de sofrerem preocupante esvaziamento.

Muito se perguntou, ao longo do evento, sobre as causas, o impacto e as providências tomadas no Brasil quanto ao incêndio do Museu Nacional. A assembleia foi uma ótima oportunidade para que pudéssemos expor a questão, articulando-a com a Medida Provisória 850/2018, que extinguia o Ibram e criava a Abram – Agência Brasileira de Museus. Propus uma Moção de Apoio ao Instituto Brasileiro de Museus que, aprovada na Assembleia Geral, acabou com a seguinte configuração:

“Moção de Apoio

A Comissão de Educação e Ação Cultural do Conselho Internacional de Museus, tomando conhecimento da crise no setor museológico brasileiro, expressa sua profunda preocupação com a extinção do Instituto Brasileiro de Museus, Ibram. A Política Nacional de Museus e a Política Nacional de Educação Museal, realizadas pelo Ibram em diálogo com diversos especialistas dos museus, são marcos para o campo e fonte de inspiração para a comunidade de museus ICOM, espalhados por todo o mundo. A Assembléia Geral do CECA, reunida em 27 de outubro de 2018 em Tbilisi, Geórgia, vota e aprova esta moção de apoio.”

O impacto das notícias foi considerável, tendo em vista que nos dias anteriores os representantes do Brasil no evento haviam apresentado a Política Nacional de Educação Museal e o público havia manifestado o desejo e a demanda para que o Caderno da PNEM fosse traduzido para as línguas oficiais do ICOM (inglês, francês e espanhol). Diversos participantes manifestaram o desejo de enviar, da parte de suas instituições e governos (quando fosse o caso), documentos que apoiassem a manutenção do Ibram, reconhecendo nossas contribuições para o campo museológico internacional.


Visita ao Museu de História de Talavi
Área externa do museu, cercado por muralhas.
 
O último dia do evento foi reservado à excursão ao Vale Kakheti. Neste tour pudemos visitar três unidades museológicas diferentes, componentes do Museu Nacional da Geórgia (trata-se de um museu polinucleado): Sighnaghi, Tsinandali e Telavi. Foram destacados aspectos marcantes da história arqueológica, política e artística da Geórgia, através de exposições com linguagens variadas e inovadoras.

Visita ao Museu Sghnaghi: exposição do pintor Niko Pirosmani.
Setor de arquelogia do museu.

Vale mencionar os processos de restauro pelos quais passaram os sítios históricos do país, a partir de 2004. A concepção de intervenção georgiana é bem mais tolerante que a brasileira, permitindo a substituição total de materiais arquitetônicos, muitas vezes permitindo que novas soluções fiquem aparentes, mesmo em prédios tombados.

Palácio e residência do Rei Erackle II, restaurado em 2004.


A Geórgia é considerada o berço do vinho. Segundo pesquisas, o achado arqueológico mais remoto que testemunha a cultura da uva foi achado no país. O Vale Kakheti é exatamente a região do vinho e tivemos a oportunidade de visitar a vinícola Shumi, que ainda mantém características do método antigo de produção georgiano. Nesta ocasião, os habitantes e trabalhadores locais foram nossos mediadores, inclusive apresentando uma oficina de produção de pães segundo as tradições regionais.

Vinícola Shumi, no Vale Kakheti. Clique para ver maior.
O método georgiano de produção conta com vasos de barro enterrados no solo,
onde a uva fermenta por 6 meses. Clique para ver maior.
Após este período, o vinho envelhece nos barris de madeira. Clique para ver maior.
Continua...


quarta-feira, 3 de abril de 2019

Vamos pra Geórgia? Sim, por que não? – parte I

Mais um belo texto de nosso historiador Marcos Brum, contando sobre uma rica viagem que fez a serviço para um país muito pouco conhecido: a Geórgia. Mais não dizemos. Leiam e deliciem-se!

A cidade de Tbilisi vista do parque Kartlis Deda.


Uma das iniciativas mais interessantes do Ibram em 2018, foi a de promover a participação de servidores em eventos internacionais. Por meio de um edital que contemplou seis servidores, o Ibram esteve presente em três meetings da área de museus, dois nos Estados Unidos da América e um na Geórgia.

Muralhas antigas da cidade, fachadas com varandas...

... e prédios da era soviética (ao centro da imagem). Ao fundo, um prédio espelhado, ainda em construção.



Ué? Como assim? A Geórgia não fica nos EUA? Fica, mas não é dessa que estou falando. Trata-se da Geórgia, o país, aquela faixa de terras férteis e belas que separam a Rússia do Azerbaijão e da Turquia. Foi para lá que eu me “despenquei”, mais precisamente para a capital Tbilisi, em companhia do museólogo e amigo Andre Angulo, do Museu da República. Fomos selecionados para fazer parte da Conferência Anual do Comitê de Educação e Ação Cultural, que é um braço do Conselho Internacional de Museus – o ICOM.

Seminário onde estudou o georgiano e futuro líder soviético Josef Stalin.


O principal fator de importância da missão foi a natureza e a temática do evento, que se dedicou à reflexão sobre educação e ação cultural numa perspectiva histórica, explorou velhos e novos significados e deu destaque para experiências de museus ao redor do mundo. O evento ocorreu no ano em que o Ibram lançou o Caderno da Política Nacional de Educação Museal (PNEM), o que nos permitiu comparar, avaliar e divulgar o trabalho seminal que o Ibram tem desempenhado no Brasil.

O “difícil” alfabeto georgiano em placa da Academia de Artes de Tblisi e nosso historiador. Clique para ver maior.


Tbilisi é um lugar feito para não ser esquecido, cheio de surpresas. A língua, para início de conversa, bem, não tem início de conversa em georgiano, a não ser que você tenha um pouco de conhecimento em... georgiano! Sim, o idioma é especificamente daquele país, não tem correlatos e conta com um alfabeto próprio. São variações de, basicamente, três símbolos ou 'scripts'. A escrita é linda, mesmo sem poder ler, deu para admirar.


Fachadas de Tbilisi antiga: as varandas são marcas da presença persa na região,
incorporadas ao estilo georgiano de arquitetura.


A cidade ainda preserva trechos da sua configuração antiga, muralhas, algumas ruínas, fundações e tanques de banho. Em alguns locais, a arquitetura é um verdadeiro palimpsesto temporal. Muros da antiguidade e medievo convivem com construções em estilo persa e prédios com uma configuração cara ao período soviético. As varandas são hoje entendidas como característica típica dos prédios georgianos, entretanto foram incorporadas à vida urbana a partir da presença persa na região. Assim, podem-se ver semelhanças entre casas georgianas e iranianas, com suas varandas adornadas e, ainda hoje, com os tapetes persas. Elas podem ser reformuladas segundo materiais e estilos modernos.

Continua...