quarta-feira, 21 de junho de 2017

As filhas de Benjamin Constant

Filho, filhas e viúva e Benjamin Constant
De pé, da esquerda para a direita: Benjamin Constant Filho - aqui com 21 anos - Alcida e Bernardina
Sentadas: Aldina, Aracy, Maria Joaquina e Adozinda. Foto de 1 de fevereiro de 1892
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6 de outubro (domingo)
Mamãe, Alcida e eu fomos jantar com Aldina; papai também foi, 
porém foi primeiro visitar o João e achou-o melhor. A Clara 
também foi à casa de Aldina, para visitar Araci. Meu padrinho
também jantou lá.(...)

Excerto de "O Diário de Bernardina", pequena publicação organizada
por Celso Castro e Renato Lemos, com base no diário de Bernardina
Botelho de Magalhães, filha de Benjamin Constant.

São com descrições de um dia a dia de família assim que “O diário de Bernardina”, pequeno livro compilado a partir do diário da quarta filha de Benjamin Constant, nos cativa para um mundo muito diferente do nosso, em fins do século XIX, quando nosso patrono vivia com suas filhas e filhos no centro do Rio de Janeiro de então. Professor de matemática de vários colégios e militar de carreira, Constant estava bem no meio do processo da Proclamação da República mas sua família vivia o cotidiano comum às famílias da época. Suas filhas levavam vidas de moças educadas para casar, próprio daquela época, e observavam os acontecimentos. Uma diferença as distinguia das demais, além do fato de serem filhas do futuro "Fundador da República": todas sabiam ler e escrever, exigência do pai, o que não era comum a todas as moças da época, mesmo as de classe mais alta.

O casal Botelho de Magalhães teve cinco moças e três rapazes. Infelizmente nenhum dos meninos sobreviveu. Mas elas sim, foram a real descendência de nosso patrono. Vejam alguns poucos detalhes a respeito de cada uma delas:

Aldina Constant Botelho de Magalhães (na foto, a de nº 5), a primeira, nascida em 1864, casou-se com o alemão Karl Fraenkel, teve cinco filhos, e veio a falecer em 1938;

Adozinda Constant Botelho de Magalhães (na foto, a com o nº 2), nascida em 1866, casou-se com Alvaro Joaquim de Oliveira, com quem teve nove filhos, e faleceu em 1942;

Alcida Constant Botelho de Magalhães (na foto, a de nº 4), nascida em 1869, casou-se com José Bevilaqua, com quem teve 11 filhos. Bevilaqua foi um dos principais responsáveis pela família após a morte de Benjamin Constant. O casal ficou na casa da família e cuidou da matriarca, Maria Joaquina, até seu falecimento, em 1921. Um dos  netos é avô do Gal. Pery Constant Bevilaqua, figura da maior importância na família na década de 1960. Alcida faleceu em 1957;

Bernardina Constant Botelho de Magalhães (na foto, a nº 3), nascida em 15 de abril de 1873, casou-se com João Albuquerque de Serejo, com quem teve 10 filhos. Autora do um diário que citamos acima, onde registrou o dia a dia de sua família e também durante o período da Proclamação, o que o torna um documento histórico importante. É das figuras mais conhecidas da família por isto mesmo. Construiu uma casa ao lado da casa da família que se chama “Casa de Bernardina”, hoje sede de nosso museu. Falecida em 1928, apenas 7 anos após sua mãe, Maria Joaquina;

Aracy Constant Botelho de Magalhães (na foto, a nº 1), nascida em 1882, perdeu seu pai com apenas 9 anos. Não se casou, portanto não teve filhos. Residiu na casa da família desde seu nascimento até sua morte em 1961, contando com 79 anos. Após seu falecimento, seu sobrinho neto, o Gal. Pery, solicita ao SPHAN o retorno do terreno e das casas para a União com vistas à transformação no futuro Museu Casa de Benjamin Constant.

Seus irmãos, que não sobreviveram, tiveram as seguintes breves biografias:

Leopoldo H. de Magalhães, primeiro filho homem que nasce em 1870, logo depois de Alcida, falece no ano seguinte.

Benjamin Constant Filho, nasce em 1871, tem uma vida curta e um tanto conturbada, falece em 1901, aos 30 anos, sem se casar nem deixar herdeiros, em circunstâncias não esclarecidas. É o que aparece na foto acima com as irmãs.

Claudio Botelho de Magalhães , nasce em 1875, antes de Aracy, mas igualmente não resiste às doenças infantis da época e falece logo em 1878.

Ainda precisamos de muita pesquisa (e muitos pesquisadores...) para esquadrinhar todo o universo de fotos, cartas e documentos guardados em nossos acervos histórico, fotográfico e também museológico para percebermos o tanto que essas meninas, moças e mulheres têm a nos dizer com o legado de pequeninos trabalhos em costura, bordado e muitos escritos. As partituras de suas valsinhas, polcas e outras músicas para piano e violino, seus bilhetes, mesmo os corriqueiros, seus comentários, suas brincadeiras e risadas que ainda hoje estão por aqui, guardadas em tantos guardados. A força de mulheres que construíram a história de uma família que é particular, mas que também é de muitos. Exemplo para os seus, e para todo um povo.

Leia neste post sobre "O Diário de Bernardina"

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Uma história do Museu Casa de... Maria Joaquina

Maria Joaquina da Costa Botelho de Magalhães: esposa, mãe, "matrona",
dona de casa e até "primeira museóloga" de Benjamin Constant

Não, não se trata de uma campanha pela mudança do nome do nosso museu. Porém, na #MuseumWeek 2017, é uma justa homenagem que fazemos a ela, Maria Joaquina da Costa Botelho de Magalhães. Os dois últimos sobrenomes ela adquiriu quando se casou com Benjamin Constant Botelho de Magalhães, quando tinha apenas 15 anos de idade. Filha de Claudio Luis da Costa, irmã de Olympia Bittencourt da Costa, cunhada do poeta Gonçalves Dias, Maria Joaquina é figura de imensa importância para nós.

Quando Benjamin Constant faleceu, em 1891, muita gente tratou de prestar-lhe as mais efusivas homenagens. E muito do que louvava a memória de Benjamin lembrava também o papel “inspirador” da sua esposa. Pense bem: Maria Joaquina passara a vida ao lado de um professor de matemáticas, diretor de escolas, um positivista cuja paixão era a educação. Chega a crise do Império, Benjamin se vê no centro das discussões sobre os rumos do Brasil. Em novembro de 1889, o professor organiza, junto com outros companheiros, o golpe final à Monarquia. Ela vê seu marido passar de professor a Ministro da Guerra, e depois da Instrução Pública.

Em 1891, logo no começo do ano, Benjamin morre. Passa de Ministro a Patriarca e Fundador da República brasileira, quantas honras! Até um museu foi projetado por um político da época, Demétrio Ribeiro, que deveria funcionar na última casa de Benjamin. Maria Joaquina começa, então, seu trabalho de organização e preservação da memória do esposo: faz a lista de bens deixados por ele, autentica documentos, empresta e recolhe fontes históricas junto aos biógrafos de Benjamin. Será que ela foi a primeira museóloga do nosso museu? Bem que poderíamos começar a pensar que sim.

Até porque, entre a morte de Benjamin e a sua própria, em 1921, ela cuidou de muito mais. A casa onde hoje é o museu foi mantida, dizem algumas testemunhas, numa disciplina amorosa, mas rígida. Como afirmou um jornal da época, Maria Joaquina era uma digna “matrona”. Mas que se diga a verdade: por muito tempo as mulheres foram reconhecidas somente pelo papel que desempenhavam em casa, no cuidado dos filhos, na gerência do lar. Nada de surpreendente, sobretudo quando se fala de uma esposa de positivista do final do século XIX. Hoje queremos fazer mais do que isso, quando mais não seja, ao menos para trazer ao debate (sempre republicano) a centralidade das mulheres em todos os aspectos da vida em sociedade.

Teríamos um museu bem diferente se não fosse Maria Joaquina, e sempre fomos dirigidos por mulheres. Essa é outra história que ainda vamos contar. Mas uma coisa é certa: se houve uma guardiã da memória que iniciou tudo isso, o nome dela é Maria Joaquina. Esse museu também é casa dela.

Museum Weew 2017



Nesta semana estaremos participando novamente da Museum Week 2017: evento virtual instituído pelo Twitter - rede social que permite aos usuários enviar e receber atualizações pessoais de outros contatos, em textos de até 140 caracteres - também chamado de microblogging - "acontece" primeiramente nesta mídia, mas se espalha por os sites, mídias sociais e endereços virtuais que o museu e os demais participantes têm endereço na internet.  E agora tem o apoio da UNESCO.

A semana se estende de hoje até o próximo domingo, dia 25/06/2017. Para acompanhar basta ter um perfil no Twitter e acompanhar os tweets do evento, que serão marcados com a hashtag #MuseumWeek, ou através das hashtags temáticas de cada dia, conforme abaixo:

- Segunda, 19/06 #FoodMW - Alimentação, alimentos, comida

- Terça, 20/06 #SportsMW - Esportes

- Quarta, 21/06 #MusicMW - Música

- Quinta, 22/06 #StoriesMW - Histórias e estórias de nosso museu e contadas por aqui

- Sexta, 23/06 #BooksMW - Livros e publicações importantes ou ligadas à nossa instituição

- Sábado, 24/06 #TravelsMW - Viagens ligadas ao nosso museu

- Domingo, 25/06 #HeritageMW - Herança cultural tangível e intangível, conteúdos e acervos

Neste ano há uma novidade: foi escolhido um tema central que é a MULHER e todos os assuntos tratados relativos a elas serão marcados com a hashtag #WomenMW: destacaremos várias histórias notáveis de nosso museu a respeito desse tema.

As atividades, o cotidiano e as curiosidades de diversos museus, centros e casas de cultura, além de vários outros equipamentos culturais de todo o mundo estarão disponíveis para que cada um possa conhecer um pouquinho sobre estas instituições.

Aproveite! Siga-nos em nosso Twitter: www.twitter.com/museu_bconstant

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Histórias controversas no Museu Casa de Benjamin Constant


Marcos Felipe de Brum Lopes

Estamos em obras, vocês sabem. Mas em plena Semana Nacional de Museus, não poderíamos deixar de fazer um pequeno registro. E nosso historiador, Marcos Lopes, mais uma vez nos brinda com um de seus ótimos textos sobre o tema da semana: acompanhe!


Cartaz da Semana de Museus deste ano


Em meio à 15ª Semana Nacional de Museus de 2017, que traz como tema os “Museus e Histórias controversas: dizer o indizível em museus”, ofereço o meu “pitaco” ao conjunto de reflexões que estão ocorrendo por aí.

Todas as famílias têm seus casos e suas casas. Se alguém se projeta para além da média dos mortais e sua casa vira museu, seus casos acabam se musealizando junto. Bem, os museus não são mais – na verdade nunca foram – aqueles lugares em que tudo cabe, tudo se mostra. Se na nossa genealogia os “gabinetes de curiosidades” figuram como locais onde se achavam muitas coisas justapostas e entrelaçadas, os museus sempre mostram e cobrem, lembram e olvidam, falam e calam. Não se pode expor tudo, muitas vezes, não se deve.

Tem coisas que a família de Benjamin Constant mostrou, outras cobriu. O Museu Casa de Benjamin Constant, como instituição, fez questão de lembrar vários aspectos históricos, deliberadamente olvidando outros mais. As esferas do patrimônio histórico nacional, como o IPHAN, falou, mas também calou. Nada de novo, como dizia uma professora dos meus tempos de graduação em História, “a vida é feita de escolhas”.

Estou agora me ocupando de uma pesquisa exatamente sobre as escolhas feitas pela família de Benjamin Constant, pelo Museu Casa de Benjamin Constant e pelo IPHAN, desde a fundação da República. Não é uma história cultural ou política da República, mas uma história daquilo que nós, como instituição e como gente que participa e decide, construímos e demolimos num museu que quer ter um lugar na cena nacional.

O primeiro passo foi apresentado no seminário “Uma agenda para a fotografia”, promovido pela ANPUH-RJ e LABHOI-UFF, que aconteceu no Museu Histórico Nacional em 2016. Naquela ocasião, o insólito título da minha fala foi “Migrantes e fantasmas: as imagens de Benjamin Constant” - veja post a respeito aqui - e busquei mostrar que, a despeito do pobre repertório de imagens que sobreviveu de Benjamin Constant, sua imagem heroicizada pelos positivistas migrou de suporte para suporte, de figura para figura, aparecendo, como aparição fantasmagórica, inclusive na exposição do museu.

A próxima tentativa de dizer um indizível será mais ambicioso, e quem puder me fazer a honra, compareça e ouça mais alguns palpites no XXIX Simpósio Nacional de História, da mesma ANPUH, que ocorre em Brasília em julho próximo, com o tema “Contra os preconceitos: história e democracia”. Segue abaixo um "tira-gosto":

"Após a morte de Benjamin Constant Botelho de Magalhães, em 1891, a memória de sua vida e a casa onde veio a falecer povoaram as discussões políticas da República que nascia. Por sua vida e morte, tanto os elementos abstratos que representava (civismo e regeneração) quanto a dimensão material de sua existência (sua casa) foram apropriados pelos viventes para a construção de um patrimônio nacional republicano. Nesse processo, podemos identificar o papel das imagens e a forma como elas foram instrumentalizadas para transformar uma residência oitocentista num museu histórico. A proposta é articular tipos variados de produções e efeitos visuais, desde a imagem mental, passando pela mítico-religiosa até as fotografias e as cores das fachadas, para delinear uma interpretação histórica do Museu Casa de Benjamin Constant.

Benjamin Constant Botelho de Magalhães, o próprio: o primeiro a dar referências
para a construção do espaço simbólico que é nosso museu casa.


Os dois personagens principais, Benjamin Constant Botelho de Magalhães, o Fundador da República, e Benjamin Constant de Magalhães Fraenkel, o neto, forneceram as primeiras referências para a construção do museu enquanto espaço simbólico. O primeiro, através da sua carreira intelectual e papel político na Proclamação da República, mas sobretudo pela imagem mítica que ganhou, postumamente, dos positivistas brasileiros. O segundo por suas sketches, desenhos, fotografias e descrições das memórias que tinha da “casa de vovô”, que serviram para recompor os ambientes físicos do prédio que virava museu, na década de 1970.


Mas o que isso tem a ver com esta Semana de Museus e os indizíveis da história? Bem, na década seguinte, a residência de Benjamin Constant passava por uma de suas obras de restauração (já havia sido restaurada e, em parte, demolida nos anos 1970). As referências sobre o que restaurar, o que retirar e que cores usar nas fachadas eram conflitantes e as discussões em torno delas apontam para os significados historicamente construídos da memória e da história, compartilhados e disputados pelos profissionais do patrimônio, como arquitetos e museólogos do IPHAN. Um desses profissionais, não sei se era positivista, certa vez disse: “o referido estudo [de cores] pautou-se sobre informações orais transmitidas pelo neto de Benjamin Constant (...); as informações orais não são consideradas fontes fidedignas e muito menos científicas, principalmente quando o registro data da infância, além de já termos constatado que os depoimentos do neto nem sempre correspondem à realidade comprovada”. (IPHAN, 6ª S.R., Informação nº 337/89)

Benjamin Constant de Magalhães Fraenkel, o neto, na foto, ainda criança: foi o segundo personagem
a prover, através de desenhos, fotografias, descrições e memórias, uma base sobre a qual se
recomporia os ambientes físicos do prédio que virou museu sobre a vida de seu avô.


Na medida em que os argumentos, de lado a lado, se apoiavam em boa medida em imagens e narrativas, no que se podia dizer com fidelidade, e o que era dito mas não era verdade, o processo é uma interessante plataforma de observação para uma cultura visual essencialmente histórica, pois indicam escolhas de indivíduos e instituições que, ao atribuírem historicidade aos objetos, modelam os espaços republicanos de vivência social e as dimensões, também visuais, da experiência cultural de visitar um museu nacional. No fim das contas, um museu comunica, bem ou mal. Mas é necessário vasculhar arquivos para descobrir os desditos."

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

MUSEU CASA DE BENJAMIN CONSTANT FECHADO PARA RESTAURAÇÃO A PARTIR DE 2 DE JANEIRO de 2017



Comunicamos que a partir da próxima segunda feira, dia 2 de janeiro de 2017, o Museu Casa de Benjamin Constant estará fechado à visitação pública por aproximadamente um ano. Serão executadas obras de Restauração da casa onde residiu o “Fundador da República”, restabelecendo a integridade de seu patrimônio arquitetônico tombado.

Os trabalhos têm duração prevista de um ano enquanto uma importante restauração nas coberturas das edificações que compõem o conjunto arquitetônico da antiga chácara, além de uma revisão das esquadrias e pisos, e de um nivelamento do pátio central serão executados por empresa especializada. Deste modo, todo o parque estará interditado para visitas por questões operacionais e de segurança.

Nossa equipe de servidores estará executando serviços internos e portanto o museu não estará vazio. Caso seja preciso, entre em contato conosco através da página no Facebook especialmente criada para que possamos mostrar como está o andamento do trabalho aqui dentro e para que os vizinhos possam nos contatar a respeito de qualquer questão relativa aos trabalhos em curso. Essa página é a www.facebook.com/ObrasRestauroMCBC

Nossos e-mails e demais mídias sociais na internet também estarão à disposição para recados e mensagens, os quais tomaremos conhecimento para resolvermos as questões com brevidade. Será ótimo podermos contar com o auxílio de todos nos ajudando neste período delicado que há de passar como toda obra passa: demora, mas passa. E quando a gente percebe, já está na hora de fazer outra, não é mesmo?


A DIREÇÃO

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Obras à vista

Em breve entraremos EM OBRAS. Passamos aqui, os primeiro informes que possuímos. Aos poucos divulgaremos mais e melhores informações.

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segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Semana da República 2016: 15 a 19 de novembro

Estado e Igreja: um divórcio republicano
Por Murilo Haither

Mais uma vez, como acontece anualmente, inicia-se mais uma Semana da República. Já vivemos, por 126 vezes, estes dias de efemérides. Não é só o 15 de novembro, dia da Proclamação da República que, em 1889, já era pensada e esperada por alguns. Foram criados também símbolos, como a Bandeira Nacional, celebrada no dia 19, as Armas Nacionais, o Hino Nacional e o Selo Nacional.

A Bandeira Nacional, um dos símbolos da República - versão em arte contemporânea.
Os Positivistas talvez tenham sido o grupo que mais prezou pelos cultos cívicos da República. Os arquivos de Benjamin Constant e de sua família estão recheados de cartas, telegramas e bilhetes que, a cada 15 de novembro, eram enviados parabenizando Benjamin por sua atuação em 1889. Entretanto, para que esses símbolos fossem incorporados à vida dos novos cidadãos, não bastava serem celebrados no círculo fechado dos positivistas ou republicanos declarados. Fez-se necessário criar verdadeiros movimentos cívicos e populares e símbolo algum parece ter recebido maior ênfase que a Bandeira Nacional. Entretanto, a República abriu as portas para algumas discussões que, nas tradições e celebrações, foram deixadas em segundo plano, mas que hoje se mostram centrais e mesmo urgentes. Na 127ª Semana da República, daremos destaque à separação entre a Igreja e o Estado, conhecida também como a laicidade da República. O tema foi tratado pelo sociólogo Gustavo Biscaia de Lacerda, professor da Universidade Federal do Paraná, da perspectiva da ortodoxia positivista, e aproveitamos a semana da República e o recente lançamento de seu livro, Laicidade na I República Brasileira: Os positivistas ortodoxos, para oferecer uma resenha aos nossos leitores.

O autor analisa parte da teoria política do filósofo francês, Augusto Comte, desenvolvida na obra Sistema de política positivista (1851 – 1854). Neste conjunto de livros, o elaborador do Positivismo analisa os cinco aspectos característicos, em sua concepção, de todas as sociedades: família, propriedade, linguagem, governo e religião. Para sua pesquisa, Gustavo Lacerda se detém apenas nos dois últimos termos, governo e religião – essenciais para o que Comte identifica como o processo necessário para o desenvolvimento civilizatório: a separação entre o Poder Espiritual e o Poder Temporal. O autor francês, segundo Lacerda, identifica o Poder Espiritual como permanente, teórico, geral, subjetivo e atemporal. Por outro lado, o Poder Temporal seria constituído por uma transitoriedade, praticidade, localidade e especialidade. Nesse sentido, podemos correlacionar o último Poder com as instituições que regulamentam e dão alicerce para a sociedade – como o Congresso ou Tribunais, por exemplo -, e o primeiro com a mentalidade – cabe notar que o Poder Espiritual não é limitado apenas ao Catolicismo, Protestantismo ou demais religiões, mas também à Metafísica, abrangendo, portanto, outras ideologias políticas. Ainda aqui, Lacerda reconhece que ambos os poderes sempre foram distintos – lembra-se das divisões na sociedade feudal entre os guerreiros e sacerdotes – e que, portanto, quando concentrados compõem um “corpo doutrinário que faz valer-se pela violência física” (p. 42). Deste modo, a separação do Poder Espiritual e do Poder Temporal constitui um processo de transição para a sociocracia de Augusto Comte, ou seja, transição para o Estado de tipo ideal, passando, portanto, de um absolutismo ideológico para um relativismo ideológico, como coloca Lacerda. Ainda em Comte, Lacerda observa a necessidade de não se ocorrer, na sociedade, um sistema hipócrita, onde uma religião oficial do Estado obriga os políticos e demais cidadãos a professarem uma determinada fé, sendo que “(...) o Positivismo não deve constituir um monopólio espiritual opressivo” e, portanto, “... não busca extinguir as crenças teológicas” (p. 57).

A capa do recém lançado livro de Gustavo Biscaia de Lacerda:
"Laicidade na I República Brasileira: Os positivistas ortodoxos"

Dois pontos abordados pelo autor, que nos ajudam a compreender a atuação dos positivistas na transição do Império para a Primeira República, bem como a complexidade dos conflitos ligados à questão da laicidade no Brasil, são o processo de secularização dos cemitérios e a questão dos símbolos religiosos nos estabelecimentos do Estado.

Até então tomado como espaços de domínio da Igreja Católica, os cemitérios foram tema de debate entre os republicanos e positivistas já na década de 1870. Os pontos levantados questionavam o privilégio dado aos católicos em detrimento de adeptos de outras religiões. Também questionava o privilégio dado pela Igreja Católica – única administradora oficial de cemitérios públicos na época - tornando os cemitérios civis como uma solução que pudesse dar respeito à pluralidade religiosa do país, ainda que os católicos fossem a maioria da população.

O filósofo francês, Augusto Comte.

O segundo aspecto tomado por Lacerda – sobre os símbolos religiosos em estabelecimentos do Estado - nos coloca ante situações apontadas por Teixeira Mendes, então vice-diretor da Igreja Positivista do Brasil, relacionadas ao uso de símbolos religiosos em instituições do Estado republicano. Um dos casos abordados por Teixeira Mendes e que, aos nossos olhos, talvez possa nos dar um panorama da disputa pela laicidade do espaço público, é o caso de Domingos Eleodoro Pereira que, em 25 de março de 1892, arrancou um crucifixo que estava pendurado em um Tribunal de Júri na cidade do Rio de Janeiro.

Estes dois aspectos trabalhados nos folhetos da Igreja Positivista e analisados na obra de Lacerda nos mostram que a laicidade fazia parte de um projeto positivista que, ao garantir a liberdade religiosa somada a outros fatores, pudesse criar alicerces para o Estado ideal, ou sociocracia, na concepção comtiana, que garantiria a pluralidade religiosa e ideológica, alimentada pela fraternidade e altruísmo entre os homens. Tal Estado impediria abusos que resultariam da combinação entre o Poder Espiritual e Poder Temporal

O diretor da Igreja Positivista, Raimundo Teixeira Mendes.
Nota-se, ainda aqui, a importância dada pelos positivistas à memória dos mortos, pela valorização dos cemitérios como espaços de culto cívico, onde as pessoas pudessem lembrar-se dos feitos de outros cidadãos e relembrar os ideais defendidos pelos mesmos, sejam católicos, protestantes, judeus, ou de outras religiões. Mostram-nos também que o processo de laicização da República, mesmo com a Constituição de 1891 garantindo a separação entre Igreja e Estado, não foi realizado por completo e de imediato, sofrendo conflitos entre diversos setores da sociedade. Lacerda ressalta esse último ponto como um processo que, desde a Proclamação da República, sofreu avanços e retrocessos, encontrando-se ainda incompleto: observa que, por exemplo, a primeira Constituição republicana retirou o Ensino Religioso do currículo escolar público, sendo retomado na Constituição de 1934. Isso nos mostra que o Estado é um espaço de disputa entre os agentes da sociedade, onde, se em dado momento, algumas pautas avançam em detrimento das demais, em outro momento podemos observar a aspiração de outras demandas e o esforço para a retomada de velhas formas de organização social.

Gustavo Lacerda, em seu livro, permite-nos refletir sobre os problemas que enfrentamos na Primeira República referentes à Laicidade. Mas, em tempos em que vemos o avanço religioso sobre as instituições do Estado Republicano, também nos dá ferramentas para podermos pensar as fronteiras dessa questão tão cara para a sociedade ocidental em nossa contemporaneidade.