quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Obras à vista

Em breve entraremos EM OBRAS. Passamos aqui, os primeiro informes que possuímos. Aos poucos divulgaremos mais e melhores informações.

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segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Semana da República 2016: 15 a 19 de novembro

Estado e Igreja: um divórcio republicano
Por Murilo Haither

Mais uma vez, como acontece anualmente, inicia-se mais uma Semana da República. Já vivemos, por 126 vezes, estes dias de efemérides. Não é só o 15 de novembro, dia da Proclamação da República que, em 1889, já era pensada e esperada por alguns. Foram criados também símbolos, como a Bandeira Nacional, celebrada no dia 19, as Armas Nacionais, o Hino Nacional e o Selo Nacional.

A Bandeira Nacional, um dos símbolos da República - versão em arte contemporânea.
Os Positivistas talvez tenham sido o grupo que mais prezou pelos cultos cívicos da República. Os arquivos de Benjamin Constant e de sua família estão recheados de cartas, telegramas e bilhetes que, a cada 15 de novembro, eram enviados parabenizando Benjamin por sua atuação em 1889. Entretanto, para que esses símbolos fossem incorporados à vida dos novos cidadãos, não bastava serem celebrados no círculo fechado dos positivistas ou republicanos declarados. Fez-se necessário criar verdadeiros movimentos cívicos e populares e símbolo algum parece ter recebido maior ênfase que a Bandeira Nacional. Entretanto, a República abriu as portas para algumas discussões que, nas tradições e celebrações, foram deixadas em segundo plano, mas que hoje se mostram centrais e mesmo urgentes. Na 127ª Semana da República, daremos destaque à separação entre a Igreja e o Estado, conhecida também como a laicidade da República. O tema foi tratado pelo sociólogo Gustavo Biscaia de Lacerda, professor da Universidade Federal do Paraná, da perspectiva da ortodoxia positivista, e aproveitamos a semana da República e o recente lançamento de seu livro, Laicidade na I República Brasileira: Os positivistas ortodoxos, para oferecer uma resenha aos nossos leitores.

O autor analisa parte da teoria política do filósofo francês, Augusto Comte, desenvolvida na obra Sistema de política positivista (1851 – 1854). Neste conjunto de livros, o elaborador do Positivismo analisa os cinco aspectos característicos, em sua concepção, de todas as sociedades: família, propriedade, linguagem, governo e religião. Para sua pesquisa, Gustavo Lacerda se detém apenas nos dois últimos termos, governo e religião – essenciais para o que Comte identifica como o processo necessário para o desenvolvimento civilizatório: a separação entre o Poder Espiritual e o Poder Temporal. O autor francês, segundo Lacerda, identifica o Poder Espiritual como permanente, teórico, geral, subjetivo e atemporal. Por outro lado, o Poder Temporal seria constituído por uma transitoriedade, praticidade, localidade e especialidade. Nesse sentido, podemos correlacionar o último Poder com as instituições que regulamentam e dão alicerce para a sociedade – como o Congresso ou Tribunais, por exemplo -, e o primeiro com a mentalidade – cabe notar que o Poder Espiritual não é limitado apenas ao Catolicismo, Protestantismo ou demais religiões, mas também à Metafísica, abrangendo, portanto, outras ideologias políticas. Ainda aqui, Lacerda reconhece que ambos os poderes sempre foram distintos – lembra-se das divisões na sociedade feudal entre os guerreiros e sacerdotes – e que, portanto, quando concentrados compõem um “corpo doutrinário que faz valer-se pela violência física” (p. 42). Deste modo, a separação do Poder Espiritual e do Poder Temporal constitui um processo de transição para a sociocracia de Augusto Comte, ou seja, transição para o Estado de tipo ideal, passando, portanto, de um absolutismo ideológico para um relativismo ideológico, como coloca Lacerda. Ainda em Comte, Lacerda observa a necessidade de não se ocorrer, na sociedade, um sistema hipócrita, onde uma religião oficial do Estado obriga os políticos e demais cidadãos a professarem uma determinada fé, sendo que “(...) o Positivismo não deve constituir um monopólio espiritual opressivo” e, portanto, “... não busca extinguir as crenças teológicas” (p. 57).

A capa do recém lançado livro de Gustavo Biscaia de Lacerda:
"Laicidade na I República Brasileira: Os positivistas ortodoxos"

Dois pontos abordados pelo autor, que nos ajudam a compreender a atuação dos positivistas na transição do Império para a Primeira República, bem como a complexidade dos conflitos ligados à questão da laicidade no Brasil, são o processo de secularização dos cemitérios e a questão dos símbolos religiosos nos estabelecimentos do Estado.

Até então tomado como espaços de domínio da Igreja Católica, os cemitérios foram tema de debate entre os republicanos e positivistas já na década de 1870. Os pontos levantados questionavam o privilégio dado aos católicos em detrimento de adeptos de outras religiões. Também questionava o privilégio dado pela Igreja Católica – única administradora oficial de cemitérios públicos na época - tornando os cemitérios civis como uma solução que pudesse dar respeito à pluralidade religiosa do país, ainda que os católicos fossem a maioria da população.

O filósofo francês, Augusto Comte.

O segundo aspecto tomado por Lacerda – sobre os símbolos religiosos em estabelecimentos do Estado - nos coloca ante situações apontadas por Teixeira Mendes, então vice-diretor da Igreja Positivista do Brasil, relacionadas ao uso de símbolos religiosos em instituições do Estado republicano. Um dos casos abordados por Teixeira Mendes e que, aos nossos olhos, talvez possa nos dar um panorama da disputa pela laicidade do espaço público, é o caso de Domingos Eleodoro Pereira que, em 25 de março de 1892, arrancou um crucifixo que estava pendurado em um Tribunal de Júri na cidade do Rio de Janeiro.

Estes dois aspectos trabalhados nos folhetos da Igreja Positivista e analisados na obra de Lacerda nos mostram que a laicidade fazia parte de um projeto positivista que, ao garantir a liberdade religiosa somada a outros fatores, pudesse criar alicerces para o Estado ideal, ou sociocracia, na concepção comtiana, que garantiria a pluralidade religiosa e ideológica, alimentada pela fraternidade e altruísmo entre os homens. Tal Estado impediria abusos que resultariam da combinação entre o Poder Espiritual e Poder Temporal

O diretor da Igreja Positivista, Raimundo Teixeira Mendes.
Nota-se, ainda aqui, a importância dada pelos positivistas à memória dos mortos, pela valorização dos cemitérios como espaços de culto cívico, onde as pessoas pudessem lembrar-se dos feitos de outros cidadãos e relembrar os ideais defendidos pelos mesmos, sejam católicos, protestantes, judeus, ou de outras religiões. Mostram-nos também que o processo de laicização da República, mesmo com a Constituição de 1891 garantindo a separação entre Igreja e Estado, não foi realizado por completo e de imediato, sofrendo conflitos entre diversos setores da sociedade. Lacerda ressalta esse último ponto como um processo que, desde a Proclamação da República, sofreu avanços e retrocessos, encontrando-se ainda incompleto: observa que, por exemplo, a primeira Constituição republicana retirou o Ensino Religioso do currículo escolar público, sendo retomado na Constituição de 1934. Isso nos mostra que o Estado é um espaço de disputa entre os agentes da sociedade, onde, se em dado momento, algumas pautas avançam em detrimento das demais, em outro momento podemos observar a aspiração de outras demandas e o esforço para a retomada de velhas formas de organização social.

Gustavo Lacerda, em seu livro, permite-nos refletir sobre os problemas que enfrentamos na Primeira República referentes à Laicidade. Mas, em tempos em que vemos o avanço religioso sobre as instituições do Estado Republicano, também nos dá ferramentas para podermos pensar as fronteiras dessa questão tão cara para a sociedade ocidental em nossa contemporaneidade.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Outubro Rosa no ar novamente

Logo pela manhã, um bate papo com a Dra. Eliane Araújo.

Temos a satisfação de dizer que nosso museu está bastante atento a todas as campanhas e causas que envolvam problemas humanos, sociais ou da natureza e não raro apoiamos e nos envolvemos a elas de alguma forma. Assim sendo, há três anos passados o Outubro Rosa entrou para nosso "calendário de eventos" e tivemos o prazer de realizar pequenas e simbólicas ações no sentido de alertar nossas funcionárias e visitantes sobre a importância do auto exame das mamas na idade correta e de realizar todos os exames ligados à manutenção de uma uma boa saúde, sem sustos. Prevenir é melhor que remediar, todo mundo sabe, mas há quantos anos você não vai ao médico para um 'check-up' simples?

Neste ano tivemos a grata surpresa de poder colaborar com um trabalho de prevenção ainda muito maior daqueles que já havíamos tomado contato: o do Centro Municipal de Saúde Ernani Agrícola - nosso "vizinho" de rua - que realiza vários programas informativos de qualidade de vida para pessoas que moram em nosso bairro, e com isso uma das atividades do Outubro Rosa do Posto foi realizada aqui. Na manhã do dia 19 de outubro um grupo com cerca de 30 senhoras ocupou um pedaço de nosso caramanchão para fazer alguns breves exercícios e também para assitir à palestra da Dra. Eliane Araújo.

O grupo ouviu e questionou a partir de suas experiências diárias sobre hábitos
que auxiliam e atrapalham a saúde da mulher e os cânceres mais comuns.

Foram momentos muito edificantes que com certeza colaboraram com a disseminação de informação relevante entre a população carente de recursos de toda ordem, o que só nos deixa mais satisfeitos. Na oportunidade tivemos a chance de conversar com a professora de educação física Ana Carolina Silva, que acompanha alguns grupos do posto de saúde em visitas e atividades físicas por nosso bairro e destacamos alguns de seus pensamentos sobre a ocasião que achamos bastante pertinentes.

Segundo a profissional, há enorme importância na proteção e prevenção às mulheres que não têm informação fácil a doenças como o câncer de mama. Segundo ela, a campanha do Outubro Rosa serve para alertar sobre a importância da prevenção, do tipo "não deixe de ir ao seu médico, não deixe de fazer exames". Durante todo o mês, todas as unidades de saúde intensificam ações de divulgação de doenças tais como o câncer de colo de útero e de mama, criando rodas de conversas, bate papos com café ou em salas de espera, entre outros encontros, tudo que se possa falar sobre o assunto e alertar muitas as mulheres para a necessidade de se prevenir. "Além disso..., diz Ana, "tornar essas mulheres que vêm ao posto multiplicadoras da informação, para alcançarmos também as mulheres que não têm o hábito de vir a uma consulta médica. Esse é o maior foco das ações no Outubro Rosa".

Outros encontros ao longo da semana foram realizados em outras instituições do bairro,
estreitando os laços entre pacientes e profissionais de saúde do Ernani Agrícola.

Uma coisa que pudemos notar no programa criado pelo Centro de Saúde do bairro neste ano, foi a variedade de instituições que o posto contactou para que se tornem parceiros das atividades da semana, disponibilizando um espaço - ou até mesmo toda a sua área - para a realização de reuniões diferentes, incomuns, saborosas, divertidas, fora do dia a dia das mulheres. Segundo Ana Carolina, tal coisa é feita pelo seguinte motivo: "Esse ano resolvemos fazer diferente, visitar os espaços que temos em parceria no nosso território, pois gostaríamos que essas mulheres e homens conhecessem esses espaços (alguns nunca entraram), e para que essas conversas fossem em lugares agradáveis como o Museu Casa de Benjamin Constant, e assim sairíamos da lógica de só se falar sobre doença e prevenção dentro de uma unidade de saúde."

Temos certeza de que a ideia surtiu o efeito desejado e estamos prontos a participar e colaborar em outras ocasiões e iniciativas. Parabéns ao Ernani Agrícola!

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Sinetes da família Benjamin Constant

Sinete em resina e metal, século XIX: pertenceu a Marciano Augusto Botelho de Magalhães,
irmão de Benjamin Constant.


Dos primeiros vestígios de grafismos dos homens das cavernas aos modernos e-books, a escrita é uma das mais fascinantes formas de comunicação da humanidade. Em busca do suporte e das "ferramentas" ideais, o homem já usou de tudo um pouco tanto para escrever, quanto para registrar o que escreveu: da pedra ao LCD, das placas de argila ao papel como hoje o conhecemos. No século XIX, quando viveu nosso patrono, toda a força e o poder da comunicação escrita ficaram bem visíveis. A caligrafia e letras bem desenhadas obtiveram prestígio, muitos livros foram editados e jornais passaram a ter maiores tiragens. O reconhecimento da atividade de escritores e jornalistas pela sociedade só aumentou e formaram-se as primeiras Academias de Letras, além de espaços de leitura e bibliotecas.

Sinete em metal e madeira, século XIX: pertenceu a Benjamin Constant.


Um dos acessórios que, neste período, foi de grande importância, eram os chamados "sinetes" ou "selos", e é sobre eles que falamos nesta pequena nota. Eles já existiam desde o inicio do 3º milênio a.C., na Grécia Antiga, e serviam para registrar e garantir a origem de determinado documento. Ou seja: garantiam que aquela carta, aquela notícia vinha de origem confiável, da pessoa que efetivamente assinava, e não era uma falsificação. Entre os séculos XVI a XVIII os sinetes voltam a ser de larga utilização pelo mesmo motivo: atestar a origem da informação, ratificando as comunicações.

De um modo geral, do séc. XIX para cá, o sinete é um pequeno objeto de metal, como ouro ou prata, (placa, coluna e até anel), usado como assinatura do proprietário e/ou responsável por uma organização, para selar e autenticar documentos e cartas. É importante destacar que, normalmente, ele não é individual, mas sim coletivo, relativo a um Estado, empresa, partido, família, representando um grei, clã ou outra denominação coletiva que tenha no mínimo quatro pessoas, como por exemplo o famoso "Anel do Pescador" usado pelo Papa, ou pelo "grande sacerdote" da Igreja Católica Apostólica Romana. Após a assinatura, a impressão da marca é feita com um pouco de cera que é derramada sobre o papel no qual é pregado com o sinete, deixando um desenho pessoal, como um brasão ou um símbolo.

O Anel do Pescador - também conhecido como Anulus Piscatoris (em latim) ou Anello Pescatorio (em italiano), é um símbolo oficial do Papa, o sucessor de São Pedro, que era um pescador. O anel de ouro apresenta um baixo relevo de São Pedro - o primeiro Papa - pescando em um barco. O símbolo deriva da tradição de que os apóstolos eram "pescadores de homens". Até 1842 tal anel era usado como um sinete para selar documentos oficiais assinados pelo Papa. Após uma morte papal, o anel é destruido pelo Camerlengo, a fim de evitar documentos falsos durante a Sede Vacante. Na foto, Papa Bento XVI usando o anel do pescador.


Símbolos distintivos de erudição e bom gosto, os sinetes e selos, bem como os tinteiros, canetas, penas e espátulas, por exemplo, são representativos de um certo padrão civilizatório ostentado pelas elites, notadamente no final do século XIX e início do XX. Detinham também a função de fechar acordos políticos e marcar grandes acontecimentos.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

34 anos de Museu

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"Quem foi esse homem ilustre
que o título mereceu
de Fundador da República
e depois que faleceu
em honra à sua memória
foi construído um museu?"

Autoria: Gonçalo Ferreira da Silva

Hoje é nosso aniversário. Em 18 de outubro de 1982 nosso museu foi aberto oficialmente para cumprir sua missão institucional precípua: a de manter viva a lembrança, a história e a vida do Fundador da República, Benjamin Constant. Muita coisa se passou, muita coisa mudou nesses anos todos, mas estamos certos que continuamos evoluindo em nossa lide, sempre melhorando nossa casa histórica e a divulgação da vida e pensamentos de seu ilustre morador, desenvolvendo nosso parque, aprimorando nossas atitudes pautadas pela sustentabilidade e pelo respeito ao meio ambiente, aumentando nossa consciência ecológica, afinando nossas parcerias e muito mais. Temos desenvolvido novas formas de comunicação, como por exemplo este blog, nossa Fan Page no Facebook, e nosso Twitter. Mas também há tempo para levar a história de Benjamin a outros suportes e foi o que fizemos neste ano: solicitamos à Academia Brasileira de Literatura de Cordel que produzisse um cordel sobre nosso patrono e o resultado foi "Benjamin Constant, o Fundador da República". Ainda sem muito alarde estamos divulgando a nova mídia (que não deixa de ser um meio de comunicação), aos poucos, até que seja o momento certo para seu lançamento oficial, de preferência bem ao estilo tradicional dessa manifestação cultural tão brasileira. A capa você vê acima, bem como um trechinho que pinçamos da peça. Mas não pense que é só: virá muito mais. Temos muitas novidades para "pôr no ar" e muito trabalho pela frente. Contamos com sua presença nos apoiando e incentivando sempre a realizar novas ações. Procuramos sempre nos manter vibrantes e ligados nas novidades. Temos certeza de que para mantermos a memória viva, é preciso nos reinventarmos de forma constante.

18/10/2016 
Elaine Carrilho

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Que Árvore é Esta? O Olho de Boi





Nossa árvore e sua plaqueta de identificação:
será o Olho de Boi de nosso museu "legítimo"?

Muita gente pensa que o Olho de Boi - aquela semente grande, marrom e bem comum como amuleto entre supersticiosos que a identificam com diversos poderes mágicos - é apenas aquilo que vemos: no entanto, por se tratar de uma semente, é sinal que ela dá origem a uma planta... E qual a surpresa de muitos que chegam ao nosso museu e "descobrem" a enorme árvore do Olho de Boi! Ela fica bem em frente à casa histórica e tem inclusive um banco feito em concreto ao seu redor, o que facilita para aproveitar sua sombra e brisa cálida.

A semente do Olho de Boi usada para fazer amuletos.


Seu nome científico é Cupania vernalis e é uma planta nativa do Brasil, leste e nordeste da Argentina, Uruguai e Paraguai. Mas há controvérsias: existem pelo menos mais OITO denominações de árvores (sete brasileiras e uma de origem chinesa), que também dão origem a uma semente chamada de "Olho de Boi". Veja o quadro abaixo:

Nome científicoNome popular
Dioclea violaceaCoroanha, Coronha ou Mucunã
Nephelium longanaLongana - nativa da China
Buphthalmum salicifoliumBuftalmo
Hymenaea courbarilJatobá
Mucuna urensMucunã
Mucuna altissimaMucunã
Talisia esculentaPitombeira
Eryphanis reevesiAzul-Ferrete


Bom, para facilitar, ficaremos apenas com o que encontramos pesquisando a Cupania vernalis, que teve sua identificação feita ainda em 1982, por parte dos técnicos da FEEMA, por ocasião das obras de abertura de nossas instalações. E também neste caso vários nomes populares estão a ela ligados. Diz-se que a árvore chama-se "Camboatá" (ou "Camboatã"), "Gravatã", "Miguel-Pintado" ou "Cuvantã".

O fruto é composto pela cápsula/vagem ou fava, com as sementes dentro.


Trata-se de uma árvore de folhas perenes que pode atingir uma altura de 25 metros com diâmetro à altura do peito de 80 centímetros. As folhas são compostas e o fruto é uma cápsula sulcada e que se abre quando maduro. É neste ponto que podemos identificar nossa árvore como um "Olho de Boi": dentro desta "cápsula" (ou vagem, ou fava) normalmente se encontram duas ou três sementes características. E é daí que saem as sementes que viram amuletos.

A poderosa copa, que se estende por toda a frente de nossa casa histórica.

O florescimento acontece normalmente entre os meses de março e maio, com maturação dos frutos de setembro até novembro. E aqui há outra dúvida: alguns de nossos servidores que trabalham há mais tempo no museu, dizem que esta árvore é por demais antiga para gerar frutos, e que portanto não temos nenhum deles nascido e colhido aqui. Outros discordam, afirmando que já viram as vagens caírem em algumas poucas ocasiões e que, realmente, trata-se de uma semente de olho de boi. No nosso dia a dia estamos sempre perto da árvore mas, até o momento, não testemunhamos nenhuma vagem caída ou uma semente à solta. Continuaremos a observá-la, quando menos, por sua beleza verde e forte.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Fantasmas de Benjamin Constant

Marcos Felipe de Brum Lopes

Hoje temos o prazer de publicar mais um texto de nosso historiador, Marcos Lopes, sobre as imagens, figuras e "fantasmas" de nosso patrono, Benjamin Constant. Aproveite!



Nosso historiador Marcos Lopes - o segundo da esquerda para a direita -
à mesa do evento no Museu Histórico Nacional.

Entre 21 e 23 de setembro de 2016, tive o prazer de participar do evento “Uma agenda para a fotografia”, realizado pelo GT de Cultura Visual, Imagem e História, da ANPUH-RJ. Nosso anfitrião foi o Museu Histórico Nacional, também unidade museológica do IBRAM. Lá reencontrei amigas e amigos de longa data, pessoas com quem convivi e trabalhei desde minha graduação em História na Universidade Federal Fluminense - UFF.

As organizadoras Teresa Bandeira de Mello (do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro) e Ana Maria Mauad (do PPGH e do LABHOI-UFF) me convidaram para participar da mesa “As instituições e a produção de imagens”, na qual tive o prazer da companhia competente e agradável de Aline Lacerda (FIOCRUZ) e Eduardo Costa (UNICAMP), sem esquecer de Claudia Heynemann (Arquivo Nacional), que mediou a conversa.

Bem, vamos dar um "tira-gosto" do que foi falado e discutido na mesa...

Pode não parecer, mas as instituições e as imagens têm uma relação bem mais rica do que a ideia de produção poderia sugerir. Pensamos, quase sempre, na pré-existência de uma instituição que, no âmbito das suas atuações, produz imagens com fins variados: documentação de atividades, arquivos institucionais recheados de fotografias, imagens de identificação de funcionários, etc. Os tipos de imagens são tão plurais quanto as naturezas das instituições. Mas é também possível que instituições sejam criadas a partir de imagens e figuras míticas e foi esse o caminho inverso que percorri, considerando como algumas imagens de Benjamin Constant foram produzidas e depois ressignificadas postumamente, quando alguns grupos políticos pensaram, pela primeira vez, que a “casa onde residiu e faleceu o Fundador da República” deveria ser transformada em museu.

Nesta viagem migratória entre visual e institucional, abstrato e material, temos que assumir uma visão multifocal. O foco institucional é o Museu Casa de Benjamin Constant e a República Brasileira. O foco visual é o próprio Benjamin Constant, suas figuras e sua imagem. Há também o foco na vida privada das fotografias, das figuras transformadas em metafiguras (imagens que aparecem dentro de outras imagens e que podem explicar a si mesmas), e das pessoas que as transformaram. O caminho, como disse, era inverso, porém não oposto. Olhando para as imagens, figuras verbais e visuais, podemos ver como foram moldadas por uma vontade política que durou mais de um século e ainda vive numa instituição estabelecida – e tombada – como patrimônio nacional.

De imagem a figura, num museu de documentos de toda a sorte. Conforme já sugeri em outro post, a elite política, principalmente o grupo dos positivistas, que fazer da casa de Benjamin Constant “um museu de documentos de toda sorte” que viria a monumentalizar a imagem do Fundador da República. Se você já é familiarizado com o tema, siga adiante. Caso queira conhecer melhor essa história, clique aqui.

O professor de literatura, historiador da arte e filósofo da imagem W. J. T. Mitchell me deu duas pistas para pensar as imagens de Benjamin Constant: uma é a distinção entre imagem e figura. A outra é que as figuras são “imagens migrantes” e “fantasmas”. Ele diz: “Figuras são os lares onde as imagens passam a residir, os corpos nos quais seus espíritos incarnam”. Há uma imagem geral e heroica do Fundador da República, produzida retoricamente pelos positivistas. A dimensão imaginária consubstancia-se em figuras, visualidades registradas em suportes materiais que circulam socialmente. Não há antes e depois: as figuras podem preceder certas imagens no tempo, pois o que ocorre é, de fato, uma ressignificação das mensagens de um lado para outro. Figuras de Benjamin Constant, em suportes materiais, foram usadas para dar uma dimensão visual à imagem construída pelo discurso do pós 15 de novembro de 1889. As mídias que suportaram essa nova imagem foram várias: pintura, fotografia, escultura, selos postais, broches, medalhas, e o próprio museu. A imagem institucional do Museu Casa de Benjamin Constant foi gerida e gestada ao longo do tempo, através dessas figuras. Numa outra passagem, Mitchell sugere que “[Uma] época histórica perturbadora [é] caracterizada por estranhas coincidências, repetições, duplos e fantasmas, e incertezas se os eventos são controlados por imagens fantásticas ou realistas, metáforas ou declarações literais sobre os fatos”. Parece um pouco macabro, mas podemos fazer uma ponte entre esses fantasmas de uma época perturbadora (uma transição de regime político, por exemplo, do qual Benjamin foi protagonista) e a afirmação positivista de que “os vivos são sempre e cada vez mais governados pelos mortos”. Os positivistas foram o grupo mais influente para a entronização de Benjamin Constant no panteão de heróis nacionais e, para isso, foi bastante conveniente que o Fundador da República tenha morrido cedo. Dentre os artistas que produziram as figuras de Benjamin estão Décio Villares e Eduardo de Sá, que contribuíram sobremaneira para a consolidação das imagens de Benjamin como Fundador da República. Essa imagem alegórica e abstrata partiu de figuras já existentes (fotografias do século XIX), se transmutando em várias outras figuras que migram de suporte para suporte, em diversos momentos da história, como aparições. Minha sugestão é que os positivistas e a própria família de Benjamin Constant não só cultivaram mas prepararam, guardaram diligente e deliberadamente, as imagens para que refletissem o valor patriótico que pensavam que o futuro museu deveria ter. Vejamos nas figuras a seguir como Benjamin aparece, migra e reaparece em vários suportes. Em breve continuaremos essa conversa... fantasmagórica!


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Dessa fotografia do fim do império, Décio Villares compôs o quadro de Benjamin, em 1892, um após seu falecimento. A mesma imagem aparece num selo de 1939, comemorativo da Proclamação da República.


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Nessa imagem de 1882, Benjamin aparece com sua família. Já na de 1892, depois de morto... também! Eles está no retrato em formato circular, a frente de seu filho.

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 Maria Joaquina, festejada pelos positivistas como a “veneranda viúva de Benjamin Constant”, posou para esta fotografia em 1891, ano da morte do marido. Ele, porém, não faltou à sessão fotográfica. Marcou presença no broche que a viúva usou para adornar sua indumentária.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Que árvore é essa? O Oiti

Nosso majestoso Oiti logo ao lado do caramanchão, na entrada para a Casa Histórica.


Uma das árvores das mais comentadas e "discutidas" em nosso parque é o nosso Oiti (Licania tomentosa), que fica logo ao lado do caramanchão, o que o leva a ter um grande destaque. A árvore - que é centenária, tendo sido registrada mais jovem, ainda nos tempos em que Benjamin Constant viveu na casa histórica - é originária da Mata Atlântica, muito utilizada na arborização de diversas cidades brasileiras, como ocorreu aqui no Rio de Janeiro. Também chamado "Goiti", "Oitizeiro" e de "Oiti-da-praia", a espécie é de grande porte e pode atingir até quinze metros de altura.

Em registro fotográfico circa 1904, quando a casa era habitada pela família de Benjamin Constant,
ele já era árvore adulta ao lado do caramanchão - perfil em amarelo.


O Oiti é muito usado na arborização urbana por sua copa frondosa, que dá ótima sombra. As folhas são muito apreciadas pela fauna de um modo geral, as raízes são profundas e não agressivas. O tronco é reto e geralmente possui casca cinzenta. A madeira é de boa qualidade, resistente, pesada, durável e pode ser utilizada em postes, estacas, dormentes e na construção civil. Resistente aos poluentes urbanos, é árvore de duradoura, de longa vida...

Detalhe das Ripsális que se debruçam sobre os galhos de nosso velho Oiti.


Seu cultivo deve ser feito em área sob sol pleno, em solo fértil, drenável, profundo, enriquecido com matéria orgânica e irrigado regularmente. A espécie se adapta melhor a climas amenos a quentes e não tolera encharcamentos por períodos prolongados. Após bem estabelecida, tornar-se resistente à estiagem. Em locais de frio moderado sofre com as geadas e raramente frutifica.

Hoje nosso Oiti já bastante idoso, carrega algumas epífitas em seus galhos (no caso, Ripsális, um tipo de trepadeira que se apoia sobre outra planta, sem prejudicá-la, isto é, sem retirar seus nutrientes, num tipo de simbiose natural das mais interessantes - marca na imagem), mas continua ofertando sua sombra acolhedora e agradável nos dias de sol intenso, às novas gerações. Esperamos que ainda por muitos e muitos anos...